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O problema que a escova resolveu era a limpeza dos vãos. O pano esfregava a superfície plana do dente e deixava intacta a sujeira nos cantos, onde a cárie começa.
O tufo de cerdas entrava onde o dedo não chegava. Cada fio dobrava contra o dente e varria o espaço entre um e outro, um serviço impossível para o tecido.
A gengiva também ganhou. A fricção das cerdas massageava o tecido e soltava restos de comida presos na borda, sem o atrito arenoso da fuligem, que gastava o esmalte a cada uso.
William Addis morreu em 1808 e deixou o negócio ao filho, também chamado William. A empresa seguiu nas mãos da família por gerações, numa linha raríssima entre os fabricantes ingleses daquele período.
Dentro da família, o ofício passava de pai para filho junto com os fornecedores de osso e de cerda, uma rede de açougues e importadores montada ao longo de décadas.
OSSO, PLÁSTICO E NÁILON
No século XX, o material da escova mudou de vez. Cabos de osso deram lugar a cabos de celuloide e, mais tarde, de plástico, mais baratos e fáceis de lavar.
Em 1938, a americana DuPont lançou o náilon, e as primeiras escovas com cerda sintética chegaram às lojas americanas naquele ano. A cerda de porco, que retinha umidade e bactérias, perdeu espaço.
A empresa de Addis acompanhou as mudanças. Mudou a fábrica para Hertford, ao norte de Londres, no começo do século XX. As escovas ganharam a marca Wisdom, que segue nas prateleiras britânicas.
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Em dois séculos, a escova trocou o osso pelo plástico e o porco pelo náilon, mas manteve o desenho da cela: cabo comprido, cabeça furada e tufos em fileira.
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A família Addis ficou no comando da companhia pela maior parte do século XX, até a empresa foi vendida. O sobrenome do fundador saiu da porta, mas a linha de produção continuou de pé.
A escovação diária também mudou de status. O que no tempo de Addis era hábito de quem podia pagar virou rotina recomendada por dentistas a crianças de qualquer renda, com escova barata em toda farmácia.
No mesmo período, o creme dental em tubo substituiu os pós de farmácia, e o par escova e pasta virou o kit padrão que hoje parece óbvio a qualquer criança.
O osso de boi com furos miúdos e tufos de porco amarrados com fio não sobreviveu em nenhuma vitrine; o desenho dele, sim, e está agora no copo de cada pia, em versão de plástico e náilon.
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