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Percy Shaw patenteou o olho de gato da estrada em 1934

Um operário de Yorkshire viu os olhos de um gato brilharem no farol e cravou no asfalto uma lente que se limpa sozinha.

Olho de gato de borracha e ferro cravado no asfalto, com lentes de vidro brilhando no farol.

Halifax, 1934: o olho de gato de Percy Shaw

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Uma cúpula de borracha preta, pouco maior que a palma da mão, encaixada num casco de ferro fundido e cravada no asfalto. Em cada face, duas bolinhas de vidro olham para os faróis. Foi a peça que o inglês Percy Shaw patenteou em 1934, e ela provou que uma estrada sem poste podia se acender sozinha.

O nome em inglês é cat's eye (olho de gato). No Brasil, a peça ganhou o mesmo apelido, e nos manuais de trânsito aparece como tacha refletiva, o pino que marca a faixa no chão.

A cúpula não tem fio, pilha nem lâmpada. A luz que ela devolve vem do próprio carro: o farol bate no vidro, o vidro curva o feixe e manda o brilho de volta para os olhos do motorista.

O detalhe que separou a peça de Shaw das outras está embaixo. Quando o pneu passa por cima, a borracha afunda dentro do casco e esfrega as lentes, como um limpador de para-brisa que trabalha sem motor.

A água da chuva que se junta no fundo do casco ajuda na faxina. Cada carro que pisa no olho de gato deixa as lentes mais limpas do que achou.

Shaw não tinha diploma de engenharia. Saiu cedo da escola em Halifax, no condado de Yorkshire, norte da Inglaterra, e trabalhou como operário, ajudante de ferreiro e consertador de estradas antes de abrir um pequeno negócio de asfalto.

Conhecia as estradas da região pelo lado de baixo: o cascalho, o rolo compressor, o buraco que voltava todo inverno. E conhecia pelo lado de cima, dirigindo à noite pelas colinas entre Halifax e Queensbury, sem iluminação pública e com neblina frequente.

A peça que saiu dessa estrada escura foi cravada aos milhões no Reino Unido e depois copiada na Europa, na Austrália e nas rodovias brasileiras.

O estalo, segundo o próprio Shaw contava, não veio de laboratório nenhum. Veio de um gato numa cerca, numa noite em que o carro dele quase saiu da pista.

Antes do gato, porém, vale abrir o casco e ver como as três partes da peça trabalham juntas.

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I  A invenção de hoje

O ferro, a borracha e o vidro

Percy Shaw nasceu em 1890 e montou o olho de gato com materiais que já conhecia do serviço de estrada. A novidade estava no encaixe das partes, pensado para aguentar pneu de caminhão e chuva de Yorkshire.

As estradas inglesas dos anos 1930 tinham faixa pintada e pinos de metal no centro da pista. A tinta sumia sob a lama e a água, e o pino de metal não devolvia luz nenhuma ao motorista.

Alguns modelos de tacha com refletor já existiam, mas quebravam com o peso dos veículos ou ficavam opacos de sujeira em poucas semanas. Um refletor sujo, no escuro, vale tanto quanto uma pedra.

AS TRÊS PARTES DA PEÇA

O desenho que Shaw registrou junta três camadas, cada uma com uma tarefa:

1.  O casco de ferro fundido, enterrado no asfalto, que recebe o peso dos veículos sem rachar.

2.  A cúpula de borracha, que segura as lentes e afunda dentro do casco quando o pneu passa por cima.

3.  As lentes de vidro, duas em cada face, uma face para cada sentido da via.

Cada lente funciona como retrorrefletor (superfície que devolve a luz para a mesma direção de onde ela veio). O vidro concentra o feixe do farol num ponto espelhado atrás dele, e o brilho volta reto para quem está ao volante.

O gato faz o mesmo com os próprios olhos. Atrás da retina dele existe o tapetum lucidum (tapete brilhante, em latim), uma camada que reflete a luz de volta, e é por ela que os olhos do bicho acendem quando um farol cruza o caminho.

A cúpula de Shaw não gasta energia: devolve ao motorista a luz que o próprio carro manda e se limpa com o peso de quem passa.

A limpeza foi o que fez a peça durar. Quando a roda empurra a cúpula para baixo, a borracha se dobra sobre as lentes e passa por elas como um pano. Quando a roda sai, a cúpula sobe e as lentes reaparecem limpas.

A água ajuda. O casco guarda um pouco da chuva no fundo, e a pressão do pneu espirra essa água sobre o vidro durante a esfregada.

Shaw registrou a patente na Inglaterra em 1934. No ano seguinte, abriu em Halifax a Reflecting Roadstuds Limited (Tachas Refletivas Limitada, em português), a fábrica que passaria a produzir as peças.

O nome comercial veio do bicho: Catseye, escrito numa palavra só, virou a marca registrada da empresa.

 
 

II  Acidente ou projeto

Os olhos na cerca de Queensbury

Percy Shaw contava a origem do olho de gato sempre a partir de uma noite de neblina, dirigindo de volta para casa pela estrada que desce de Queensbury até Halifax.

Num trecho sem iluminação, com uma ribanceira na beira da pista, os faróis do carro bateram nos olhos de um gato sentado numa cerca. Os dois pontos de luz mostraram a Shaw que ele estava indo para a beira errada da estrada, e ele corrigiu o volante a tempo.

A cena tem ar de lenda, e Shaw contou versões diferentes dela ao longo da vida. Não houve testemunha e não sobrou registro da noite. Ninguém sabe se o gato existiu do jeito que ele descrevia.

OS TRILHOS DO BONDE

A outra metade da história é menos famosa e mais fácil de conferir. Durante anos, Shaw se guiou à noite pelos trilhos do bonde, que refletiam a luz dos faróis e desenhavam o caminho no escuro.

Quando a linha de bonde da região foi desativada e os trilhos saíram da rua, o motorista perdeu a referência. Shaw passou a procurar um jeito de pôr no asfalto um guia que brilhasse do mesmo modo.

O gato, nessa leitura, foi o estalo de quem já procurava a resposta. Mostrou a forma: dois pontos de luz, devolvendo o farol, na altura do chão.

O gato deu a ideia em segundos; a peça que resiste ao pneu e à lama levou anos de oficina.

O resto foi projeto. Shaw testou materiais, formatos de cúpula e posições de lente, e cravou protótipos nas estradas perto de casa para ver como aguentavam o tráfego e o inverno.

O problema mais difícil era a sujeira. Uma lente que fica opaca em poucas semanas obriga alguém a sair limpando a estrada inteira, e nenhum governo pagaria por esse serviço. A cúpula que afunda e esfrega o vidro resolveu a falha sem mão humana.

A resposta para acidente ou projeto sai, portanto, dividida. Acidente no estalo da cerca, projeto em todo o resto: no casco, na borracha, na lente e na limpeza.

Shaw nunca escondeu a parte do acaso. Gostava de contar a história do gato porque ela vendia a peça melhor que qualquer desenho técnico.

 

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III  O problema que ela resolveu

A estrada apagada da guerra

O problema que o olho de gato atacou foi o da estrada à noite. Nos anos 1930, o número de carros crescia na Inglaterra muito mais rápido que a iluminação das rodovias, e fora das cidades o motorista dependia só do farol.

Com chuva ou neblina, o farol mal alcançava a faixa pintada. O motorista perdia a borda da pista, a curva e o lado certo da estrada, como o próprio Shaw quase perdeu naquela descida de Queensbury.

Nos primeiros anos, a peça vendeu pouco. Prefeituras e conselhos de estrada desconfiavam de um pino de borracha inventado por um asfaltador sem diploma.

O APAGÃO DA GUERRA

A Segunda Guerra Mundial mudou a procura. A partir de 1939, o governo britânico impôs o blecaute (apagão obrigatório à noite, para não guiar os bombardeiros alemães): poste desligado, janela coberta e farol de carro mascarado, com só uma fresta de luz.

Dirigir à noite virou um risco sério, e a tacha que brilhava com pouca luz passou a fazer falta. O olho de gato devolvia ao motorista até o fio de luz que escapava da máscara do farol, e as encomendas cresceram.

Depois da guerra veio a adoção em escala. Em 1947, o Ministério dos Transportes britânico, que tinha James Callaghan como secretário parlamentar (o político que chegaria a primeiro-ministro em 1976), ordenou a instalação das peças nas estradas do país.

Sem poste, sem fio e sem conta de luz, o olho de gato guiou a Inglaterra no escuro da guerra e virou padrão das estradas britânicas.

A fábrica de Halifax passou a produzir sem parar, e Shaw ficou rico. Continuou morando na mesma casa de Boothtown, bairro de Halifax onde tinha crescido, e ganhou fama de excêntrico: mantinha a casa sem tapete e sem cortina e deixava várias televisões ligadas ao mesmo tempo.

Em 1965, recebeu da rainha Elizabeth II a Ordem do Império Britânico, honraria dada a quem presta serviço notável ao país. Percy Shaw viveu em Halifax até o fim da vida e faleceu ali em 1976, aos 86 anos.

A peça sobreviveu ao inventor e chegou a outros países, inclusive ao Brasil, onde tachas refletivas marcam faixas e acostamentos de rodovia, muitas delas já de plástico, sem a cúpula de borracha original.

A cúpula preta, pouco maior que a palma da mão, segue cravada no asfalto de Yorkshire. A cada pneu que passa por cima, as quatro lentes de vidro saem um pouco mais limpas, do jeito que Shaw desenhou em 1934.

★ RARO

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