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Os 3 quadrados de canto que Masahiro Hara pôs no código QR

Na Denso, em 1994, Hara tirou a grade do tabuleiro de Go, caçou em folhetos a proporção mais rara e liberou o código sem cobrar.

Código QR com os três quadrados localizadores nos cantos, criado por Masahiro Hara.

Kariya, 1994: o código QR de Masahiro Hara

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Um quadrado preto de 7 por 7 módulos (os pontinhos que formam o código), com um anel branco por dentro e um miolo preto de 3 por 3. Ele aparece em três cantos de todo código QR e prova que alguém pensou primeiro em como a máquina acharia o desenho.

Cortado em linha reta pelo centro, o quadrado dá sempre a sequência preto, branco, preto, branco, preto, nas larguras 1, 1, 3, 1, 1. A câmera do celular procura essa batida antes de ler qualquer outra parte da grade.

Quem escolheu a proporção foi Masahiro Hara, engenheiro da Denso, a fabricante de autopeças do grupo Toyota, sediada em Kariya, no Japão. O código saiu em 1994 e ganhou a sigla QR, de Quick Response (resposta rápida, em inglês).

A escolha não nasceu numa prancheta. Hara e a equipe juntaram jornais, revistas, folhetos de propaganda e caixas de papelão, e mediram a relação entre faixas claras e escuras em tudo que encontravam impresso.

Procuravam a proporção que quase nunca aparecia. Se o padrão de canto fosse comum, a leitora confundiria o logotipo de uma embalagem com o código e gastaria tempo tentando decifrar uma mancha qualquer.

A sequência 1, 1, 3, 1, 1 foi a mais rara que a busca encontrou. Graças a ela, o leitor acha os três cantos com o código inclinado ou de cabeça para baixo, e calcula a posição do resto.

O desenho em grade veio de outro lugar: das pedras brancas e pretas do Go, o jogo de tabuleiro japonês que Hara jogava no intervalo do almoço.

Faltava decidir quem pagaria pelo uso. A Denso, dona da patente, preferiu não cobrar. Fábricas, gráficas e, anos mais tarde, fabricantes de celular adotaram o código sem pagar licença.

Para entender como um código de fábrica de autopeças foi parar no cardápio do restaurante e na cobrança do Pix, a história começa pelo que Hara montou dentro da Denso.

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I  A invenção de hoje

Uma grade de pedras pretas e brancas

Masahiro Hara nasceu em 1957, em Tóquio, formou-se em engenharia pela Universidade Hosei e entrou na Denso em 1980. No começo dos anos 1990, trabalhava na divisão que fabricava leitores de código de barras, separada da matriz em 2001 com a designação de Denso Wave.

Código bidimensional é o desenho que guarda informação na largura e na altura, enquanto o código de barras comum guarda só na largura. O QR pertence a essa família: uma matriz quadrada de módulos, cada um preto ou branco, lidos pela máquina como 1 ou 0.

A ligação com o Go é visual. O tabuleiro tem 19 linhas por 19, e as pedras pretas e brancas ocupam os cruzamentos. Hara percebeu que uma grade parecida, vista de cima, carregava muito mais dados que uma fila de barras.

“A disposição de pedras pretas e brancas sobre a grade era uma forma simples de transmitir informação.” (Masahiro Hara, entrevista ao Escritório Europeu de Patentes, 2014)

O QUE CABE NA GRADE

O menor código QR, a versão 1, tem 21 por 21 módulos. O maior, a versão 40, chega a 177 por 177. Cada região da grade tem tarefa fixa:

1.  Três padrões localizadores, os quadrados de canto, que dizem à câmera onde o código está e como ele está girado.

2.  Duas linhas de temporização (faixas de preto e branco alternados) que ligam os cantos e marcam o tamanho de cada módulo.

3.  Uma área de formato, colada aos cantos, que informa o nível de correção de erros escolhido por quem gerou o código.

4.  O restante da grade, ocupado pelos dados e pelos blocos de reserva que permitem reconstruir trechos apagados.

O código QR guarda informação na largura e na altura, e os três cantos dizem à câmera como girar o desenho antes de ler.

A correção de erros usa o método Reed-Solomon (cálculo que guarda redundância matemática dos dados para refazer o que sumiu), empregado também nos CDs de música. Pela especificação da Denso Wave, no nível mais alto o código continua legível com até 30% da superfície suja ou rasgada.

Por causa dessa folga, um logotipo pode ocupar o meio de um código QR sem impedir a leitura: o desenho cobre módulos que a reserva matemática reconstrói.

Na versão 40, a grade comporta 7.089 algarismos ou 4.296 letras e números, conforme a norma ISO/IEC 18004, publicada pela Organização Internacional de Normalização em 2000.

Os kanji, os ideogramas da escrita japonesa, também entraram no projeto. A grade tem um modo próprio para eles, com espaço para 1.817 caracteres pela mesma norma, porque as etiquetas das fábricas japonesas precisavam do idioma local.

 
 

II  Acidente ou projeto

Um ano e meio atrás de uma proporção

O código QR foi projeto, encomendado pela própria linha de montagem. Masahiro Hara começou o trabalho em 1992, com uma equipe pequena e uma meta fixada logo no início: ler rápido valeria tanto quanto guardar muito.

A cobrança vinha das fábricas de autopeças. Os operários usavam o kanban (cartão que acompanha cada lote de peças e avisa o que repor), e cada caixa chegava com vários códigos de barras, lidos um por um com a pistola de leitura.

Os códigos bidimensionais que já existiam nos Estados Unidos guardavam mais dados, mas a máquina demorava para localizar o desenho no meio de uma caixa cheia de letras e logotipos. Hara concluiu que o gargalo estava em achar o código, antes de decifrá-lo.

A BUSCA NOS IMPRESSOS

Daí veio a varredura nos papéis. O método da equipe teve quatro etapas:

1.  Juntar material impresso de todo tipo: jornais, revistas, folhetos, embalagens e caixas de papelão.

2.  Converter as faixas claras e escuras de cada peça em proporções de largura.

3.  Contar quais proporções apareciam com frequência e quais quase nunca surgiam.

4.  Ficar com a mais rara, 1:1:3:1:1, e desenhá-la como quadrado concêntrico para valer em qualquer direção.

Hara escolheu o desenho dos cantos pela raridade: a proporção que o mundo impresso quase nunca usava.

A forma quadrada resolveu a rotação. Uma linha de leitura que atravesse o centro do quadrado, em qualquer ângulo, encontra a batida 1, 1, 3, 1, 1, e a câmera reconhece o canto sem precisar alinhar a caixa.

Três cantos, e não quatro, por um motivo prático. Com três quadrados, o canto vazio diz à câmera qual lado do código fica embaixo à direita. Quatro cantos iguais deixariam a orientação ambígua e obrigariam a máquina a testar as quatro posições.

O trabalho levou cerca de um ano e meio. Hara contou depois que testou várias formas para os cantos antes do quadrado, e que o protótipo final lia o código em qualquer posição, sem a operadora girar a caixa.

A Denso apresentou o código em 1994 e registrou a patente no Japão. Junto com ela veio a decisão que o resto da história cobra: o que fazer com o direito sobre o desenho.

 

Quem banca a edição de hoje

NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

“If I were a farmer, I would absolutely use AI.” 

That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA. 

He’s pointing to one of AI’s biggest untapped opportunities: farming. 

DIT AgTech is already putting AI to work with 500+ units deployed and 370,000 head on-platform.

𝘐𝘯 𝘮𝘢𝘬𝘪𝘯𝘨 𝘢𝘯 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘮𝘦𝘯𝘵 𝘥𝘦𝘤𝘪𝘴𝘪𝘰𝘯, 𝘪𝘯𝘷𝘦𝘴𝘵𝘰𝘳𝘴 𝘮𝘶𝘴𝘵 𝘳𝘦𝘭𝘺 𝘰𝘯 𝘵𝘩𝘦𝘪𝘳 𝘰𝘸𝘯 𝘦𝘹𝘢𝘮𝘪𝘯𝘢𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘪𝘴𝘴𝘶𝘦𝘳 𝘢𝘯𝘥 𝘵𝘩𝘦 𝘵𝘦𝘳𝘮𝘴 𝘰𝘧 𝘵𝘩𝘦 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘪𝘯𝘤𝘭𝘶𝘥𝘪𝘯𝘨 𝘵𝘩𝘦 𝘮𝘦𝘳𝘪𝘵𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘳𝘪𝘴𝘬𝘴 𝘪𝘯𝘷𝘰𝘭𝘷𝘦𝘥. 𝘋𝘐𝘛 𝘈𝘨𝘛𝘦𝘤𝘩 𝘩𝘢𝘴 𝘧𝘪𝘭𝘦𝘥 𝘢 𝘍𝘰𝘳𝘮 𝘊 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘵𝘩𝘦 𝘚𝘦𝘤𝘶𝘳𝘪𝘵𝘪𝘦𝘴 𝘢𝘯𝘥 𝘌𝘹𝘤𝘩𝘢𝘯𝘨𝘦 𝘊𝘰𝘮𝘮𝘪𝘴𝘴𝘪𝘰𝘯 𝘪𝘯 𝘤𝘰𝘯𝘯𝘦𝘤𝘵𝘪𝘰𝘯 𝘸𝘪𝘵𝘩 𝘪𝘵𝘴 𝘰𝘧𝘧𝘦𝘳𝘪𝘯𝘨, 𝘢 𝘤𝘰𝘱𝘺 𝘰𝘧 𝘸𝘩𝘪𝘤𝘩 𝘮𝘢𝘺 𝘣𝘦 𝘰𝘣𝘵𝘢𝘪𝘯𝘦𝘥 𝘩𝘦𝘳𝘦: https://bit.ly/4bzuWCi​

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III  O problema que ela resolveu

Um código livre de licença

O problema que o código QR resolveu nasceu na linha de montagem: ler muita informação, depressa, numa caixa que chega torta, suja ou amassada, sem parar a esteira.

A Toyota adotou o QR para rastrear peças, e o kanban eletrônico trocou a fila de códigos de barras de cada caixa por um único quadrado. O operário apontava a pistola uma vez e lia o lote inteiro.

A decisão que tirou o código da fábrica foi jurídica. A Denso manteve a patente, mas declarou que não a faria valer contra quem usasse o código padronizado. Qualquer empresa podia gerar e ler QR sem pedir licença.

Hara justificou a escolha pela adoção: um código de leitura só tem valor quando muita gente o imprime e muita gente o lê, e a cobrança afastaria as gráficas e os fabricantes de leitores. A Denso ganharia vendendo os aparelhos de leitura.

DA FÁBRICA AO BOLSO

A padronização veio em três degraus:

1.  1997: a AIM International, associação dos fabricantes de equipamento de identificação automática, aprovou o padrão.

2.  1999: o Japão registrou o código na norma industrial JIS X 0510.

3.  2000: a Organização Internacional de Normalização publicou a ISO/IEC 18004.

A Denso abriu mão da cobrança e ganhou o padrão: o QR virou linguagem comum porque ninguém precisou pedir licença.

Em 2002, a Sharp lançou no Japão o J-SH09, um dos primeiros celulares com câmera capaz de ler QR, e os códigos saíram das caixas de peças para revistas, cartazes e passagens de trem.

No Brasil, o Banco Central lançou o Pix em novembro de 2020. A cobrança no caixa usa um código QR na tela, lido pelo celular do cliente, sem que ninguém pague direitos à Denso pelo desenho.

Em 2014, Hara e a equipe receberam o Prêmio do Público do European Inventor Award (Prêmio Europeu do Inventor), concedido pelo Escritório Europeu de Patentes por votação aberta.

Os três quadrados de 7 por 7 módulos seguem nos cantos de todo código QR impresso hoje, com a batida de 1, 1, 3, 1, 1 que Masahiro Hara foi buscar nos folhetos por ser a menos usada do papel.

“Que detalhe raro do seu trabalho faria alguém achar você no meio da pilha?”

 
 
Quiz da edição

Por que o código QR traz 3 quadrados de canto, e não 4?

APorque o quarto canto fica reservado para o logotipo da marca
BPorque quatro cantos ocupariam espaço demais na grade de dados
CPorque o canto vazio diz à câmera qual lado fica embaixo à direita, evitando ambiguidade de rotação
DPorque a patente da Denso limitava o desenho a três marcas por caixa

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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