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O zero de Fahrenheit saiu de um balde de gelo com sal

Em 1714, um fabricante de vidro de Danzig trocou o álcool pelo mercúrio e marcou o frio mais baixo capaz de repetir em casa.

Termômetro de mercúrio de vidro com escala Fahrenheit ao lado de um balde de gelo.

O termômetro de mercúrio de Fahrenheit

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Um tubo de vidro do comprimento de uma mão, fechado nas duas pontas, com um bulbo de mercúrio do tamanho de uma ervilha no pé. Esse fio prateado, preso no vidro, prova que duas pessoas em cidades diferentes podiam medir o mesmo frio e chegar ao mesmo número.

Antes dele, não podiam. Os termômetros do começo do século 18 eram tubos de álcool tingido, cada um com marcas próprias, desenhadas pelo fabricante a olho. Dois instrumentos postos lado a lado na mesma janela davam leituras diferentes.

Médicos holandeses anotavam a febre dos doentes em graus de um aparelho que nenhum colega de Paris conseguia reproduzir. Astrônomos comparavam noites de inverno com números sem tradução de uma cidade para outra.

Um fabricante de instrumentos nascido em Danzig, a atual Gdańsk, na Polônia, resolveu atacar o problema pelo material. Ele soprava o próprio vidro, purificava o próprio mercúrio e gravava as próprias marcas.

O ano era 1714, e a oficina ficava em Amsterdã. Ali ele montou um termômetro de mercúrio confiável o bastante para ser vendido em série, com a promessa de concordar com qualquer outro saído das mesmas mãos.

A escolha do metal líquido mudava o alcance do aparelho. O álcool ferve cedo e deixa o tubo inútil diante de água quente; o mercúrio aguenta calor muito acima da fervura sem virar vapor.

Faltava decidir onde começar a contar. Para o zero, o fabricante não escolheu o gelo comum. Escolheu uma mistura de gelo, água e sal amoníaco (cloreto de amônio, um sal branco usado por tintureiros e ferreiros), mais fria do que qualquer inverno da Holanda.

A temperatura daquela mistura ele repetia sempre que quisesse, em qualquer estação, com ingredientes de boticário. A seção I conta quem era esse homem e como as três marcas da escala saíram da oficina.

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I  A invenção de hoje

Três marcas num tubo de vidro

O fabricante se chamava Daniel Gabriel Fahrenheit. Nasceu em Danzig em 24 de maio de 1686, filho de uma família de comerciantes, e ficou órfão aos 15 anos, quando o pai e a mãe faleceram no mesmo dia, em 1701.

Os tutores o mandaram a Amsterdã aprender contabilidade. Ele largou o balcão de comércio pelos instrumentos de vidro e passou anos viajando pela Alemanha, pela Dinamarca e pela Suécia atrás de quem soubesse fazer barômetros e termômetros.

Em 1708, em Copenhague, visitou o astrônomo dinamarquês Ole Rømer. Rømer usava uma escala com duas marcas fixas, o gelo derretendo e a água fervendo, e Fahrenheit voltou com a ideia de calibrar todo termômetro a partir de pontos fixos, sem depender do olho do artesão.

AS TRÊS MARCAS DA ESCALA

Em 1724, Fahrenheit descreveu o método num artigo em latim para a Philosophical Transactions (a revista da Royal Society, a academia de ciências de Londres). Ele fixava a escala em três referências:

1.  Zero: a mistura de gelo, água e sal amoníaco, a mais fria capaz de repetir na oficina.

2.  Trinta e dois: gelo e água pura, sem sal, no instante do derretimento.

3.  Noventa e seis: o corpo humano, com o bulbo na boca ou na axila de um homem saudável.

A distância entre 32 e 96 dava 64 graus, um número que se divide ao meio seis vezes seguidas. Fahrenheit marcava a escala dobrando intervalos com um compasso, sem cálculo nenhum, e cada metade caía num traço inteiro.

O 32 do gelo nasceu da conta do compasso: com o zero no frio salgado e o 96 no corpo, a água pura congelava ali.

Os números de partida vinham de Rømer. A escala dinamarquesa punha o gelo derretendo em 7,5 e o calor do corpo em 22,5. Fahrenheit multiplicou tudo por quatro para fugir das frações, e os valores viraram 30 e 90, depois ajustados para 32 e 96.

No artigo de 1724, ele explica a marca do corpo com as próprias palavras: “O terceiro ponto fica no grau 96; o líquido se dilata até ele quando o termômetro é posto na boca ou sob a axila de um homem com saúde.”

Cada tubo exigia paciência. O furo interno do vidro nunca saía perfeitamente regular, e um trecho mais largo fazia o mercúrio subir menos ali. Fahrenheit corrigia a falha medindo o tubo por partes e espaçando os traços conforme a largura de cada trecho, de modo a manter os graus iguais no calor real, mesmo com distâncias diferentes no vidro.

O mesmo ano rendeu a Fahrenheit a eleição como membro da Royal Society, um título raro para um artesão sem diploma universitário.

 
 

II  Acidente ou projeto

O frio fabricado de propósito

O zero da escala não caiu do céu. Fahrenheit procurava o frio mais intenso capaz de reproduzir sem viajar, e o sal resolvia a busca.

Sal jogado no gelo derrete parte dele e puxa calor da água em volta. A salmoura resultante fica abaixo da temperatura do gelo puro, e o sal amoníaco, entre os sais à venda nos boticários de Amsterdã, dava um frio estável e fácil de refazer.

Na escala atual, aquele zero corresponde a cerca de 17,8 graus negativos na escala Celsius. Nenhum inverno holandês comum chegava tão baixo, e Fahrenheit queria um começo sem números negativos para as leituras do dia a dia.

PROJETO, NÃO SORTE

Nada no caminho dele tem cara de acidente. O mercúrio entrou depois de anos de tentativas com álcool, e entrou porque o álcool limitava a faixa medida e grudava no vidro.

O mercúrio dos boticários vinha sujo de chumbo e estanho, e a sujeira prendia o metal nas paredes do tubo. Fahrenheit desenvolveu um jeito de lavar e filtrar o mercúrio até o fio correr limpo, subindo e descendo sem falhas.

O segredo comercial de Fahrenheit não era a escala: era o mercúrio limpo, preparado por ele, e o vidro calibrado tubo a tubo.

Ele guardava o processo de purificação para si. Os termômetros saíam da oficina já graduados, e os compradores não tinham como copiar o preparo.

O acaso aparece só numa descoberta lateral. Testando água fervente em dias de tempo bom e de tempo ruim, Fahrenheit percebeu a fervura mudando de altura no tubo conforme a pressão do ar. A água ferve mais frio quando a pressão cai.

A observação virou proposta prática no artigo de 1724: medir a fervura da água para estimar a pressão do ar, um barômetro feito de termômetro.

Para provar a relação, ele montou um termômetro só para a faixa da fervura, com os graus espaçados bem largos, e levou o aparelho para comparar com um barômetro de mercúrio em dias de céu limpo e de chuva. As duas leituras subiam e desciam juntas.

No mesmo trabalho, Fahrenheit relatou água pura que continuava líquida abaixo do gelo, em recipiente fechado e parado, e congelava de uma vez quando ele sacudia o vidro. O fenômeno hoje se chama sobrefusão (a água resfriada abaixo do congelamento sem virar gelo).

 

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III  O problema que ela resolveu

Um grau igual em Amsterdã e em Londres

O problema atacado por Fahrenheit era a comparação. Um número de temperatura só serve quando outro instrumento, em outro lugar, mostra o mesmo número diante do mesmo calor.

Os termômetros dele cumpriam a promessa. Os médicos da Universidade de Leiden, liderados por Herman Boerhaave, compraram aparelhos da oficina de Fahrenheit e passaram a registrar a febre com eles.

Boerhaave publicou em 1732 o Elementa Chemiae (Elementos de Química), com páginas inteiras dedicadas aos instrumentos do amigo. O livro circulou por faculdades da Europa e levou junto a escala.

A ESCALA DEPOIS DO INVENTOR

A Royal Society adotou a escala de Fahrenheit, e o Império Britânico a espalhou pelas colônias. Os ingleses mantiveram o 32 do gelo e recalibraram o topo para 212, a fervura da água ao nível do mar.

Com a mudança, o corpo humano saudável passou a marcar perto de 98,6, e não mais 96. A diferença existe porque a fervura virou a referência de cima, no lugar do corpo.

Em 1742, o astrônomo sueco Anders Celsius propôs a escala de cem graus entre gelo e fervura. A França e a maior parte da Europa ficaram com ela; o mundo de língua inglesa ficou com Fahrenheit por mais dois séculos.

O Reino Unido trocou a escala oficial pela Celsius a partir dos anos 1960. Os Estados Unidos seguem com Fahrenheit na previsão do tempo, no forno e na febre das crianças.

Três séculos depois, americanos medem a febre com a escala de um artesão de Danzig calibrada num frio de sal amoníaco.

A escala também ganhou um uso fora da medicina. Fabricantes de cerveja, destiladores e jardineiros de estufa da Inglaterra compravam termômetros graduados de 0 a 212 para acompanhar mostos, alambiques e canteiros, e o hábito de pensar a temperatura em números entrou na rotina das oficinas.

Fahrenheit não viveu para ver a escala virar padrão de um império. Mudou-se de Amsterdã para Haia, trabalhou em projetos de bombas d’água e faleceu ali em 16 de setembro de 1736, aos 50 anos, solteiro e sem fortuna.

O tubo de vidro do comprimento de uma mão sobreviveu ao dono. Termômetros assinados por ele estão hoje no Rijksmuseum Boerhaave, o museu de ciência de Leiden, com o fio de mercúrio parado entre o 32 e o 96 gravados à mão.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em qual igreja de Haia o corpo de Daniel Fahrenheit foi sepultado em 1736?

★ RARO

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Quiz da edição

Segundo o texto, qual mistura Daniel Fahrenheit usou para fixar o zero da sua escala de temperatura?

AGelo e água pura, sem nenhum sal
BÁgua do mar misturada com gelo seco
CGelo, água e sal amoníaco (cloreto de amônio)
DNitrato de potássio dissolvido em água fria

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