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O vaso de laranjeira que um jardineiro armou com ferro em 1867
Joseph Monier cansou de ver as caixas de cimento rachando em Paris, enfiou uma grade de arame na massa e patenteou a base da laje.
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Paris, 1867: o vaso armado de Monier
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Uma caixa de cimento para laranjeira, com parede da grossura de um polegar e uma grade de arame de ferro escondida no meio da massa. Cheia de terra molhada, com uma árvore dentro, ela não abre. A caixa prova que uma casca fina de pedra artificial aguenta empurrão, desde que leve ferro por dentro.
Quem fez a caixa foi Joseph Monier, jardineiro francês, em Paris, nos anos 1860. Ele não era engenheiro nem pedreiro, e nunca estudou cálculo de estrutura. Cuidava de plantas e vendia os vasos em que elas viviam.
As laranjeiras dos jardins ricos de Paris passavam o verão ao ar livre e o inverno dentro das orangeries (galpões envidraçados feitos para guardar árvores de fruta no frio). Duas vezes por ano, cada árvore viajava de carrinho, com vaso, terra e raiz.
Os vasos de madeira apodreciam em poucos invernos. Os de barro cozido pesavam demais e quebravam na viagem. Monier passou a moldar caixas de cimento, mais baratas e fáceis de fazer sob medida, e deu de cara com outro defeito: elas rachavam.
O cimento endurecido aguenta muito bem ser apertado. Puxado ou dobrado, abre fenda. Numa caixa cheia de terra encharcada, a pressão empurra as paredes para fora, e a parede cede justo onde é mais fina.
A saída de Monier foi deitar uma grade de arame de ferro dentro da massa ainda mole. O ferro segurava o puxão que o cimento não sabia segurar, e o cimento cobria o ferro, guardando o metal longe da água da rega.
Em 16 de julho de 1867 ele registrou a patente das caixas. Nos 20 anos seguintes, a mesma receita saiu do jardim e virou tubo, reservatório, piso e ponte. O caminho começa num menino do sul da França que aprendeu o ofício cuidando do jardim de um duque.
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I A invenção de hoje
O jardineiro do duque que foi para Paris
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Joseph Monier nasceu em 8 de novembro de 1823 em Saint-Quentin-la-Poterie, uma vila de oleiros no departamento do Gard, no sul da França. A família era de camponeses, e o menino foi cedo para o trabalho, sem passar muito tempo na escola.
O primeiro emprego foi nos jardins do duque de Uzès, dono das terras da região. Ali Monier aprendeu a podar, enxertar e mudar árvore de lugar sem perder a planta, o que exigia vaso firme e muito braço.
Ainda moço, ele subiu para Paris e arrumou vaga de jardineiro nas Tulherias, o grande parque público vizinho ao Museu do Louvre. As Tulherias tinham uma coleção de laranjeiras em caixas, que todo outono entrava na estufa e toda primavera voltava para as alamedas.
Em 1849 Monier abriu negócio próprio de horticultor e paisagista, no bairro de Passy. Vendia plantas, montava jardins e fabricava os vasos. Foi nesse balcão que o problema das caixas virou dele.
O cimento que ele usava era novo. O cimento Portland (pó cinza feito de calcário e argila queimados no forno, que endurece com água) tinha sido patenteado na Inglaterra por Joseph Aspdin em 1824 e só se espalhou pela França décadas depois. Moldado, parecia pedra, custava pouco e não apodrecia.
Faltava ao material a resistência ao puxão. Um bloco de cimento aguenta um prédio em cima, mas uma viga fina do mesmo cimento, apoiada nas pontas, racha no meio quando alguém pisa nela. A caixa de laranjeira sofria do mesmo jeito, só que de dentro para fora.
COMO A CAIXA ERA FEITA
A patente de 1867 descreve caixas e bacias móveis para horticultura, e o método seguia quatro passos:
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1. Monier dobrava arame de ferro em forma de grade, com o desenho da caixa: fundo e quatro paredes, como uma gaiola aberta em cima.
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2. Montava uma forma de madeira por dentro e outra por fora, deixando a gaiola de arame suspensa no meio do vão.
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3. Despejava a massa de cimento, areia e água, apertando para a mistura envolver cada fio e não sobrar bolha de ar junto do metal.
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4. Esperava a massa endurecer, desmontava as formas e deixava a caixa curar úmida por alguns dias, para ganhar força.
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A peça pronta pesava menos que o barro, durava mais que a madeira e saía com a parede fina. Monier levou as caixas para a Exposição Universal de Paris de 1867, a grande feira de indústria daquele ano, e mostrou o produto ao público.
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Monier não inventou o cimento nem o ferro: inventou o casamento dos dois dentro de um vaso, com o arame fazendo o trabalho que a massa sozinha não fazia.
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II Acidente ou projeto
A patente que virou uma fila de patentes
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A caixa foi projeto de artesão, feito na tentativa e no erro, sem conta de engenharia. Monier não sabia calcular força. Sabia que o vaso quebrava, e foi testando até achar o arranjo que parava de quebrar.
Ele também não foi o único a pensar em ferro dentro de massa. Em 1848, o francês Joseph-Louis Lambot construiu um barco de cimento com tela de ferro, exibido na Exposição Universal de Paris de 1855. O barco boiou, mas Lambot não levou a ideia além dos barcos e dos bancos de jardim.
François Coignet, industrial de Lyon, também enfiou ferro no concreto e publicou em 1861 um livro defendendo o material para casas. Nenhum dos dois transformou a descoberta num catálogo de produtos. Monier montou o catálogo.
A DIFERENÇA ESTAVA NA TEIMOSIA
Depois da caixa, ele registrou uma patente atrás da outra, cada uma levando a grade de arame para um uso novo:
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1. Em 1868, tubos e reservatórios de água, que substituíam os canos de ferro fundido, caros e sujeitos à ferrugem.
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2. Em 1869, painéis para fachadas de prédios, finos e fáceis de montar.
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3. Em 1873, pontes e passarelas, a primeira aposta dele fora do jardim.
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4. Em 1877 e 1878, vigas e dormentes de ferrovia (as travessas que seguram o trilho no chão).
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A patente das pontes virou obra em 1875, no parque do castelo de Chazelet, no centro da França: uma passarela de concreto com ferro, com 16 metros de vão e 4 de largura, que o marquês de Tiliere de Chazelet encomendou para o jardim. A passarela está de pé até hoje.
Nas obras grandes, o método de Monier mostrava o limite. Ele punha a grade no meio da espessura, como fazia nos vasos. Numa viga que dobra, o puxão fica concentrado na face de baixo, e o ferro no meio trabalha menos do que poderia.
Quem acertou a posição foi o engenheiro alemão Matthias Koenen, que em 1886 publicou o primeiro método de cálculo para a viga armada e mandou o ferro descer para perto da face que estica. A partir daí o material de Monier passou a ser dimensionado no papel, antes do molde.
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O acaso não teve vez aqui: Monier chegou ao ferro por teimosia de jardineiro, e os engenheiros que vieram depois transformaram a teimosia em fórmula.
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