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O tubo de tinta de John Rand virou pasta de dente

Em 1841, um retratista americano em Londres fechou a tinta a óleo num tubo de estanho. Cinquenta anos depois, um dentista encheu o tubo de creme.

Tubo de estanho dobrável de tinta a óleo, 1841.

O tubo de John Goffe Rand, Londres, 1841

▼
 

Um tubo de estanho de uns 10 centímetros, com o fundo dobrado três vezes e uma tampa de rosca do tamanho de um botão. O tubo prova que a embalagem da pasta de dente no armário do banheiro foi desenhada para um pintor, e não para um dentista.

Até 1841, quem pintava a óleo dependia de um ajudante e de um porco. O ajudante moía o pigmento na pedra, misturava com óleo de linhaça e guardava a massa num pedaço de bexiga de porco, amarrado com barbante.

Para tirar a tinta, o pintor furava a bexiga com uma tachinha. Depois, tampava o furo com a mesma tachinha e torcia para a pele aguentar até o dia seguinte.

Muitas vezes não aguentava. A bexiga estourava na bolsa, vazava pelo furo ou secava por dentro em poucos dias. A cor cara, como o azul feito de lápis-lazúli, ia para o lixo junto com a pele.

Assim, o óleo vivia dentro do ateliê. O pintor fazia esboços ao ar livre a lápis ou em aquarela e voltava para casa para pintar a tela com calma, perto da pedra de moer e do ajudante.

Havia uma alternativa de vidro: seringas de metal e vidro com êmbolo, vendidas em Londres no fim dos anos 1830. Funcionavam, mas eram caras, pesadas e quebravam no transporte.

Em Londres, um retratista americano de passagem pela cidade sofria com o mesmo problema e tinha uma mania de inventor. Já havia patenteado outras invenções, e passava tempo demais pensando em como a tinta saía do pote.

A pergunta dele era simples. E se a tinta ficasse num recipiente de metal mole, fechado com tampa, que o pintor apertasse com os dedos como se espreme uma fruta?

A seção I conta quem era o retratista e como o tubo de estanho chegou ao escritório de patentes.

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I  A invenção de hoje

Um retratista de New Hampshire em Londres

A resposta de ontem

Por que John Deere levou a oficina para Moline em 1848?

Grand Detour ficava longe da ferrovia, e o rio Rock não dava navegação regular. Moline, na margem do Mississippi, tinha queda d'água para mover as máquinas e barcos para trazer aço e carvão e levar os arados. A empresa virou Deere & Company em 1868 e mantém a sede em Moline até hoje.

O retratista era John Goffe Rand. Nasceu em 1801, em Bedford, New Hampshire, e começou a vida pintando rostos de comerciantes e políticos na Nova Inglaterra, a região do nordeste dos Estados Unidos.

Ganhou nome em Boston e, nos anos 1830, foi tentar a sorte na Inglaterra. Em Londres, pintava retratos para a clientela rica e convivia com fornecedores de tinta, gente que vendia pigmento em pó, óleo e as bexigas cheias.

Rand tinha cabeça de mecânico. Além do tubo, registrou outras invenções ligadas ao ofício, e reclamava em voz alta do desperdício de tinta no ateliê.

O desperdício tinha preço. Um pintor de retrato gastava várias bexigas por semana, e cada cor perdida obrigava a moer pigmento de novo, com horas de trabalho do ajudante e o risco de o tom sair diferente do da véspera.

O plano dele resolvia três problemas de uma vez: a tinta não podia secar, não podia vazar e tinha de sair na quantidade exata que o pincel pedia.

O ESTANHO DOBRÁVEL

Em 11 de setembro de 1841, Rand recebeu a patente americana número 2.252 por um "aperfeiçoamento na construção de vasos ou recipientes para preservar tinta". O desenho era um cilindro de estanho laminado, fino a ponto de amassar sob o polegar.

O tubo tinha quatro partes:

1.  O corpo: uma folha de estanho enrolada em cilindro, macia o bastante para ceder ao aperto.

2.  O fundo: a ponta aberta por onde a tinta entrava na fábrica, depois dobrada e prensada para fechar.

3.  O bico: a ponta estreita, de onde a tinta saía num fio.

4.  A tampa de rosca: a peça que fechava o bico e impedia o ar de chegar ao óleo.

O metal que amassa e não volta segura o ar do lado de fora.

O segredo estava no estanho. Uma bexiga ou uma lata rígida, depois de aberta, deixa o ar ocupar o espaço da tinta que saiu. No tubo, o metal amassado fica amassado, e o vazio nunca se forma lá dentro.

Rand também pensou em quem enchia o tubo. A tinta entrava pelo fundo aberto, o fundo era dobrado e prensado, e o pintor recebia o tubo cheio e lacrado, pronto para abrir pela tampa.

A fabricante londrina Winsor & Newton começou a vender cores em tubo pouco depois da patente, e outras casas de tinta seguiram. Em poucos anos, a bexiga de porco sumiu das lojas de material de pintura.

O preço também caiu. A tinta moída em fábrica, em lote grande, saía mais barata que a moída à mão no ateliê, e o tubo cheio chegava a pintores amadores, que nunca tinham pago um ajudante.

 
 

II  Acidente ou projeto

De um ateliê para o ar livre

O tubo de Rand não foi acaso. Foi projeto de um pintor que conhecia o defeito por dentro e testou o remédio na própria mesa de trabalho.

O que veio depois, porém, ninguém planejou. Rand queria guardar tinta sem desperdício; o tubo acabou mudando onde se pintava.

Com uma caixa de tubos, um cavalete dobrável e uma tela, o pintor podia sair de casa de manhã e voltar à noite com o quadro pronto. A paisagem passou a ser pintada diante da paisagem.

Os fabricantes também passaram a vender cores novas, como amarelos e verdes de base química, já prontas e moídas. O pintor deixou de depender do ajudante na pedra de moer.

Na França, a mudança coincidiu com a ferrovia. Os trens que saíam de Paris levavam pintores com caixas de tubos até a floresta de Fontainebleau e o litoral da Normandia, num bate e volta de um dia.

UMA FRASE DE RENOIR

Pierre-Auguste Renoir viveu a mudança. O filho dele, o cineasta Jean Renoir, registrou no livro "Renoir, meu pai", de 1962, uma frase que o pai repetia: "Sem as tintas em tubo, não haveria Cézanne, nem Monet, nem Sisley, nem Pissarro, nem o que os jornalistas chamariam de impressionismo."

Monet pintou "Impressão, sol nascente" em 1872, no porto de Le Havre, olhando a água. A pintura deu nome ao grupo, e cada pincelada dela saiu de um tubo de estanho.

Os impressionistas pintavam rápido, com camadas grossas, direto do tubo para a tela, porque a luz do lugar mudava em poucos minutos. Sem a tinta pronta e fechada, o método não cabia na caixa do pintor.

O tubo tirou a tinta a óleo do ateliê, e o pintor foi atrás dela.

Rand nunca viu o tamanho do que tinha feito. Voltou aos Estados Unidos, seguiu pintando retratos em Nova York e passou os últimos anos em Roslyn, no estado de Nova York, onde viveu até 1873.

A segunda vida do tubo veio por outra porta: a de um consultório de dentista em Connecticut.

 

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III  O problema que ela resolveu

O creme dental sai do pote

Até o fim do século XIX, o creme dental era vendido em pote de porcelana ou de vidro. A família inteira enfiava a escova no mesmo pote, ou raspava a massa com o dedo.

O pó dental, ainda mais comum, vinha em lata ou em envelope de papel. Molhado, empelotava; seco, voava pela pia.

Washington Wentworth Sheffield era dentista em New London, Connecticut. Nos anos 1870, preparou no consultório um creme dental de receita própria, vendido aos pacientes como Dr. Sheffield's Creme Dentifrice.

A família conta que o filho dele, Lucius Tracy Sheffield, estudava em Paris e viu os pintores de lá espremendo cor de tubos de estanho. Voltou com a ideia de usar o mesmo recipiente para o creme do pai.

O dentista gostou da proposta e mandou fabricar os tubos. A empresa da família, em New London, passou a comprar estanho e a encher os tubos por conta própria, num galpão ao lado do consultório.

DO ATELIÊ AO BANHEIRO

Em 1892, os Sheffield passaram a vender o creme dental num tubo dobrável de estanho. O desenho era o mesmo de Rand: corpo mole, fundo dobrado, bico estreito e tampa.

O tubo resolvia no banheiro os mesmos três defeitos que tinha resolvido no ateliê:

1.  O creme não secava, porque o ar não entrava.

2.  Ninguém mergulhava a escova no pote da família, e a massa ficava limpa.

3.  A dose saía do tamanho da escova, sem desperdício.

O pote expunha o creme a cada escova; o tubo só soltava a dose do dia.

A Colgate, de Nova York, adotou o tubo em 1896, e o produto ganhou o país. Na Primeira Guerra Mundial, o exército americano incluiu o creme em tubo no kit do soldado, e o hábito voltou para casa com ele.

O pó dental foi perdendo espaço nas prateleiras. Nas décadas seguintes, o creme em tubo virou o formato padrão nas farmácias dos Estados Unidos e da Europa, e o pote de porcelana sumiu das pias.

O material mudou ao longo do século. O estanho deu lugar ao chumbo, ao alumínio e, a partir dos anos 1980, ao plástico laminado, que volta ao formato depois do aperto.

A empresa de Sheffield continua em New London, com o nome Sheffield Pharmaceuticals, e fabrica creme dental em tubo até hoje.

O tubo de estanho de 10 centímetros, com fundo dobrado e tampa de rosca, foi patenteado por John Goffe Rand em 11 de setembro de 1841 para guardar tinta a óleo. Cinquenta e um anos depois, em New London, recebeu a primeira dose de creme dental.

 
 
Quiz da edição

Antes de 1841, como o ajudante do pintor guardava a tinta a óleo já moída e pronta para o pincel?

ANum pote de vidro fechado com rolha
BNuma bexiga de porco amarrada com barbante
CNuma lata de estanho rígida com tampa de pressão
DNum saco de couro untado com cera

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