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O sócio ficou com a oficina e com as Bíblias
Em Mainz, em novembro de 1455, Johann Fust cobrou na justiça o que emprestara e levou parte da oficina quando a Bíblia de 42 linhas ficava pronta.
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Mainz: a Bíblia de 42 linhas em pergaminho
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Um volume de pergaminho com cerca de 45 centímetros de altura, encadernado em tábua de madeira forrada de couro, duas colunas por página e 42 linhas em cada coluna. As letras capitulares foram pintadas à mão depois, com pincel, sobre o espaço que a impressão deixou vazio. Somados os dois tomos, o exemplar tem 1.282 páginas, e o couro gasto para produzir a pele de um único deles veio de mais de uma centena de bezerros. O detalhe que denuncia a técnica está na margem: todas as 42 linhas terminam rentes à direita, uma embaixo da outra, sem o recorte irregular que a pena de um copista deixa no fim da linha.
Saíram da oficina de Mainz, por volta de 1454 e 1455, cerca de 180 exemplares desse livro. A maior parte em papel importado da Itália, umas quatro dezenas em pergaminho. Quarenta e nove sobreviveram, inteiros ou em fragmentos.
Nenhum deles traz o nome de quem os imprimiu. Não há colofão, nome de oficina nem ano no fim do último tomo, e o livro entrou na história com o apelido técnico que os bibliógrafos lhe deram: Bíblia de 42 linhas.
O nome do responsável aparece num lugar bem menos nobre. Em 6 de novembro de 1455, num convento de franciscanos descalços em Mainz, o notário Ulrich Helmasperger registrou por escrito o resultado de um processo civil movido por Johann Fust, comerciante rico da cidade, contra Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg. O documento cobra dois empréstimos e os juros acumulados sobre eles, e o tribunal deu ganho ao credor. Fust ficou com a garantia do contrato, que era o equipamento.
O calendário da cobrança tem um efeito cruel: o processo se fecha quando as folhas da Bíblia já estavam impressas ou terminando de secar. O devedor levou vinte anos e o dinheiro de outro homem para chegar ao livro pronto e o perdeu de vista no ano da entrega.
Antes do tribunal, porém, vem o metal. A prensa é a parte visível da invenção, e a parte decisiva cabe na palma da mão: um bloco de liga de chumbo com uma letra em relevo no topo, fundido aos milhares, sempre com a mesma altura.
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I A invenção de hoje
Chumbo quente numa matriz de cobre
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A prensa de parafuso já existia havia séculos, apertando uva em lagares e pano em tinturarias. O que Mainz acrescentou foi o tipo móvel de metal: uma peça de liga com a letra gravada em relevo na face superior, fundida em série, alta o bastante para caber na mesma altura das milhares de peças vizinhas.
A altura uniforme resolve o problema central da impressão. Se uma letra ficar dois décimos de milímetro mais baixa, ela não encosta no papel e some da página; se ficar mais alta, ela fura a folha. O molde de mão de Mainz garante essa uniformidade em toda peça que sai dele, e a garantia vale para as 46 mil peças de metal que os estudos de composição da Bíblia de 42 linhas estimam na oficina.
A liga também foi resolvida na bancada. Chumbo puro derrete fácil e dá letra mole, que amassa depois de algumas centenas de impressões. A mistura usada em Mainz junta chumbo, estanho e antimônio, e o antimônio faz o metal se expandir um pouco ao esfriar, o que empurra a liga contra cada canto do desenho gravado e devolve a letra com a serifa inteira.
A tinta veio do ateliê de pintura, não da escrivaninha. Tinta de escriba é aquosa e escorre do metal; a tinta de Mainz é uma pasta de fuligem moída em verniz de óleo de linhaça, densa o bastante para grudar no chumbo e secar sobre o papel sem penetrar. Análises feitas por pesquisadores do Laboratório Nacional de Brookhaven nos anos 1980 acharam cobre e chumbo dissolvidos nela, e o metal explica o brilho que as páginas ainda têm.
A produção de uma única letra passava por quatro etapas.
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1. Punção. Um gravador cortava a letra em relevo na ponta de uma barra de aço, do tamanho de uma unha, trabalhando em espelho e à mão livre.
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2. Matriz. A punção temperada era batida a martelo contra uma barra de cobre, deixando ali a letra em baixo relevo, e a barra era aparada até ficar quadrada e reta.
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3. Fundição. A matriz entrava no fundo do molde de mão, duas metades de metal forradas de madeira que se encaixam; o fundidor despejava a liga derretida pelo funil, sacudia o molde para o metal correr até o desenho, abria e derrubava a peça pronta.
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4. Acabamento. O fundidor quebrava o rabo de metal deixado pelo funil, raspava as rebarbas laterais e conferia a altura da peça contra um gabarito.
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Uma página da Bíblia de 42 linhas tem cerca de 2.600 peças de metal montadas à mão, letra por letra, espaço por espaço. Montar a página leva o dia inteiro de um compositor; imprimir as 180 cópias dela leva algumas horas de dois homens na prensa. A conta explica por que a oficina precisava de seis prensas trabalhando ao mesmo tempo para não deixar os compositores parados.
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II Acidente ou projeto
O empréstimo de 1.600 florins e o notário
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A ideia não brotou de um acidente de oficina. O rastro documental mais antigo de Johannes Gutenberg com uma técnica secreta vem de Estrasburgo, quinze anos antes da Bíblia: em 1439, os herdeiros de um sócio chamado Andreas Dritzehn processaram Gutenberg para entrar no negócio que o irmão morto financiava. Os depoimentos falam de prensas, de peças de metal que deviam ser desmontadas para ninguém entender o mecanismo e de uma aventura comercial com espelhos de peregrinação para a romaria de Aachen.
O que aquele processo mostra é método, não sorte. Havia sócios pagando, cláusula de sigilo, um ourives contratado para trabalhos de chumbo e a preocupação explícita de esconder o conjunto montado de olhos de fora. Gutenberg vinha de família ligada à casa da moeda de Mainz, onde cunhar metal com punção e matriz era rotina do ofício.
Em Mainz, o dinheiro veio de Johann Fust. O primeiro empréstimo, de 800 florins, foi feito por volta de 1449, com o equipamento da oficina como garantia. Um segundo contrato, por volta de 1452, colocou mais 800 florins e transformou os dois em sócios de um empreendimento específico, chamado nos autos de obra dos livros.
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"Nós, Ulrich Helmasperger, clérigo da diocese de Bamberg, notário público por autoridade imperial, fazemos saber que no ano de 1455, no sexto dia do mês de novembro, compareceu diante de nós o honrado Johann Fust."
Instrumento notarial de Helmasperger, Mainz, 6 de novembro de 1455
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O documento de Helmasperger dá os dois lados da briga em poucas linhas. Fust jurou que tomara o dinheiro emprestado de terceiros para repassar ao sócio e cobrou o principal mais os juros que pagava aos seus próprios credores. Gutenberg não compareceu, mandou dois representantes, e o argumento da defesa foi que o segundo aporte se destinava à obra dos livros, com lucro a repartir, não a um empréstimo simples a ser devolvido com juros.
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O tribunal arbitral mandou o devedor prestar contas do dinheiro gasto fora da obra dos livros e devolver a parte correspondente, com juros. Fust prestou o juramento exigido em 6 de novembro, o notário registrou, e a garantia do contrato, o equipamento, passou às mãos do credor.
Peter Schöffer ficou do lado que tinha o dinheiro. Ele trabalhava na oficina como calígrafo e compositor, testemunhou a favor de Fust no processo, casou depois com a filha do comerciante e virou sócio dele. A dupla Fust e Schöffer publicou em 1457 o Saltério de Mainz, primeiro livro impresso a trazer no fim a data, o lugar e o nome dos responsáveis, com iniciais em duas cores impressas na mesma passagem pela prensa. O nome de Gutenberg não aparece ali.
O tamanho exato do estrago se diz com todas as letras: não se sabe. O instrumento notarial registra a sentença e o juramento, e não lista o que mudou de dono nem quantos exemplares foram parar no estoque de Fust. Também não se sabe se Gutenberg manteve uma segunda oficina em funcionamento, embora o tipo usado no dicionário Catholicon, impresso em Mainz em 1460, seja diferente do tipo da Bíblia e sugira equipamento novo.
O fim da vida dele foi menos duro do que a lenda conta. Em janeiro de 1465, o arcebispo Adolfo de Nassau nomeou Gutenberg fidalgo da corte, cargo que garantia roupa, grão e vinho todo ano até o fim, e ele viveu assim os três anos que ainda teve.
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