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O retrato de seda que um tear leu em 24 mil cartões

Joseph Marie Jacquard pôs cartões perfurados no tear de Lyon em 1804 e tirou do desenho a criança que puxava os cordões.

Retrato de Joseph Marie Jacquard tecido em seda, com compasso e cartões perfurados sobre a mesa.

Lyon, 1839: Jacquard tecido em seda

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Um retrato de seda de pouco mais de meio metro de altura, em preto e cinza, tão fino que, visto a um passo, parece gravura em metal. Mostra um homem sentado numa oficina, com um compasso na mão e, sobre a mesa, um maço de cartões furados. Nenhum traço dele foi feito a pincel ou a buril.

O homem do retrato é Joseph Marie Jacquard, tecelão de Lyon, e a peça saiu de um tear em 1839, cinco anos depois que ele se foi. Quem a teceu foi Michel-Marie Carquillat, mestre da oficina Didier, Petit et Compagnie, copiando uma pintura de Claude Bonnefond.

Para chegar à imagem, a máquina leu uma fila de cerca de 24 mil cartões de papelão, costurados um atrás do outro como uma sanfona. Cada cartão comandava uma única passada de fio. Cada furo dizia a um fio da urdidura (o conjunto de fios esticados no comprimento do tecido) se ele subia ou ficava embaixo naquela passada.

Nenhuma mão escolheu os fios do rosto, da barba ou das dobras da roupa. O tecelão pisava o pedal e jogava a lançadeira (a peça que leva o fio atravessado de um lado a outro do tecido), e os cartões decidiam o resto, um depois do outro, durante meses de trabalho.

Poucas décadas antes, um desenho desses exigia uma criança pendurada nas cordas do tear, erguendo à mão os grupos de fios que o mestre gritava. Um cordão errado estragava a peça inteira, e ninguém conseguia repetir o mesmo desenho duas vezes sem nenhuma falha. O ajudante quase sempre era filho do próprio tecelão, e passava a infância olhando para cima, com as mãos nas cordas e os olhos no teto da oficina.

O caminho até a sanfona de papelão começa justamente num menino de Lyon que puxava cordões na oficina do pai, e passa por três inventores esquecidos que furaram papel antes dele.

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I  A invenção de hoje

O menino dos cordões e o sótão de ganchos

Joseph Marie Jacquard nasceu em Lyon em 7 de julho de 1752, filho de um mestre tecelão de seda. Lyon era então a capital europeia da seda: as oficinas da cidade vestiam a corte da França e boa parte da nobreza do continente com brocados (tecidos com desenho em relevo feito no próprio tear).

Ainda menino, Jacquard fez o serviço de tireur de lacs (puxador de cordões) na oficina do pai. O trabalho era duro para um corpo pequeno: horas de pé, braços erguidos, puxando feixes de cordas na ordem que o mestre cantava. Cada passada da lançadeira pedia um feixe diferente.

Quando o pai se foi, em 1772, Jacquard herdou os teares e uma pequena casa. Tentou a vida em vários ofícios, de encadernador a fundidor de tipos, e perdeu quase tudo em dívidas. Em 1793, quando Lyon se rebelou contra o governo revolucionário de Paris, lutou na defesa da cidade e precisou fugir depois da derrota.

De volta a Lyon, voltou ao problema que conhecia desde a infância. Em 1801 mostrou em Paris, na exposição nacional de produtos da indústria, um primeiro mecanismo para tecer desenhos. A versão que o consagrou ficou pronta em 1804, montada no alto de um tear comum de Lyon.

COMO O CARTÃO ESCOLHIA O FIO

O aparelho não trocava o tear por outro: ficava em cima dele, como um sótão cheio de ganchos. O funcionamento cabia em quatro movimentos:

1.  Cada fio da urdidura ficava preso a um gancho vertical, por um cordão com um peso de chumbo na ponta.

2.  Um prisma de madeira com quatro faces apertava um cartão contra uma fileira de agulhas horizontais, uma agulha para cada gancho.

3.  Onde o cartão tinha furo, a agulha atravessava e o gancho ficava no lugar; onde não tinha, a agulha era empurrada e tirava o gancho do caminho.

4.  Uma barra subia levando os ganchos que ficaram, o tecelão passava a lançadeira, e o prisma girava para trazer o cartão seguinte.

Um desenho virou, portanto, uma fila de cartões na ordem certa. Trocar o desenho significava trocar a fila, sem mexer em nenhuma peça do tear. E a mesma fila podia rodar em cem teares, repetindo o padrão sem erro.

O puxador de cordões saiu da oficina. Um tecelão sozinho passou a fazer o trabalho de dois, e o risco do feixe errado deixou de existir, porque o cartão furado não se distraía nem cansava no fim da tarde.

O tear de Jacquard separou o desenho da máquina: o padrão passou a morar em cartões de papelão, e qualquer tear que lesse aquela fila tecia a mesma seda.

 
 

II  Acidente ou projeto

Três inventores antes dos furos

O tear foi projeto, e projeto remendado. Jacquard juntou peças que outros tinham criado em Lyon e em Paris ao longo de quase oitenta anos. O mérito dele foi fazer o conjunto andar sem ajudante e aguentar o dia inteiro de oficina.

Em 1725, Basile Bouchon, filho de um fabricante de órgãos, usou uma tira de papel furado para escolher os fios. A ideia vinha dos cilindros com pinos que tocavam música sozinhos. A tira rasgava fácil, e o aparelho ainda pedia um segundo operador.

Em 1728, Jean-Baptiste Falcon, assistente de Bouchon, trocou a tira por cartões retangulares amarrados em corrente. Os cartões duravam mais e podiam ser substituídos um a um quando gastavam. O mecanismo de Falcon, porém, ainda dependia de alguém para apertar cada cartão contra as agulhas.

Em 1745, Jacques de Vaucanson, o engenheiro famoso por um pato mecânico que bicava grãos, construiu um tear automático comandado por um cilindro furado, a pedido do governo francês. Os tecelões de Lyon rejeitaram a máquina, que acabou guardada em Paris e esquecida por décadas.

O TEAR ESQUECIDO NO DEPÓSITO

Em 1803, depois de apresentar em Paris uma máquina de tecer redes de pesca, Jacquard foi chamado para trabalhar no Conservatório de Artes e Ofícios, o museu de máquinas criado pela Revolução. Ali encontrou o tear de Vaucanson parado e passou meses desmontando e remontando o aparelho.

Da temporada no Conservatório saíram as escolhas decisivas: os cartões encadeados de Falcon, o prisma giratório que apresenta cada cartão sozinho e os ganchos presos a pesos. Nenhuma peça era inédita. O conjunto, sim, dispensava a criança dos cordões.

A matemática inglesa Ada Lovelace resumiu a herança do tear numa nota de 1843, escrita para a tradução inglesa de um artigo sobre a Máquina Analítica de Charles Babbage (uma calculadora mecânica programável que nunca chegou a ser construída): "a Máquina Analítica tece padrões algébricos, assim como o tear de Jacquard tece flores e folhas."

A comparação aponta onde Jacquard acertou. Ele guardou uma sequência de ordens fora da máquina, num suporte que se trocava sem ferramenta, e a máquina apenas obedecia ao que estava furado.

Os furos vieram de Bouchon, os cartões de Falcon e a automação de Vaucanson; Jacquard montou a primeira versão que um tecelão sozinho conseguia operar do começo ao fim da jornada.

 

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III  O problema que ela resolveu

Seda mais barata e tecelão na praça

O problema que o tear resolveu era de tempo e de gente. Um brocado complicado exigia dois trabalhadores por tear e avançava devagar, porque cada passada dependia de o ajudante acertar os cordões. A seda desenhada saía cara, lenta e cheia de falhas.

Com os cartões, o desenho passou a ser preparado uma vez e repetido quantas vezes o fabricante quisesse. Preparar a fila virou ofício novo: um desenhista riscava o padrão em papel quadriculado, e um furador transcrevia cada linha do risco num cartão.

Os tecelões de Lyon, chamados canuts (apelido dos operários da seda da cidade), viram na máquina uma ameaça ao salário. Segundo o relato do próprio Jacquard, repetido nas biografias do século XIX, um tear dele foi quebrado e queimado em praça pública, e o inventor chegou a ser agredido na beira do rio Ródano.

A PATENTE QUE VIROU DA CIDADE

Napoleão Bonaparte passou por Lyon em 1805 e tomou uma decisão incomum: declarou o tear propriedade pública. Em troca, Jacquard recebeu uma pensão anual de 3 mil francos e o direito a 50 francos por máquina instalada durante seis anos.

Com a patente livre, as oficinas copiaram o mecanismo à vontade. Em poucas décadas o tear tomou Lyon, depois a Inglaterra e o resto da Europa, e a seda com desenho chegou a quem antes só comprava tecido liso.

Jacquard viveu os últimos anos em Oullins, perto de Lyon, e se foi em 7 de agosto de 1834, aos 82 anos. Seis anos depois, a cidade que tinha queimado o tear dele ergueu uma estátua do inventor numa praça do centro.

Os cartões foram mais longe que a seda. Em 1890, o americano Herman Hollerith usou cartões perfurados para apurar o censo dos Estados Unidos, e a empresa que ele fundou foi uma das que deram origem à IBM. Cartões furados alimentaram computadores até a década de 1970.

Joseph Marie Jacquard tirou a criança de cima do tear e pôs o desenho no papelão; a cidade que queimou a máquina acabou vivendo dela.

O retrato de seda tecido com 24 mil cartões sobreviveu em várias cópias. Charles Babbage comprou uma, pendurou na sala de casa, em Londres, e gostava de perguntar às visitas que gravura era aquela; outra está no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, catalogada como seda tecida em Lyon, 1839.

“Que tarefa repetida do seu dia caberia inteira numa fila de instruções?”

 
 
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