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O tubo de papel teve um gatilho. Laennec contou a cena no tratado que publicou três anos depois, e a frase dele descreve a paciente com franqueza de médico.
Em De l'auscultation médiate (Da auscultação mediata), de 1819, ele escreveu: “Fui consultado, em 1816, por uma jovem que apresentava sintomas gerais de doença do coração, e na qual a aplicação da mão e a percussão davam pouco resultado por causa da gordura.” A idade e o sexo da moça, completou, impediam encostar a orelha.
Diante da paciente, ele lembrou de um fenômeno de acústica conhecido: uma batida de alfinete numa ponta de uma viga de madeira se ouve nítida pela orelha colada na ponta oposta. Biógrafos situam a lembrança no pátio do Louvre, onde ele tinha visto crianças brincando assim.
O sólido conduz o som melhor que o ar. Laennec deduziu que um corpo firme entre o peito e a orelha faria o mesmo papel da viga, e o caderno foi o corpo firme mais perto da mão.
A ideia nasceu de um acaso de enfermaria. O instrumento, não. O resto foi projeto, com método e com prazo de três anos.
TRÊS ANOS DE ESCUTA
De 1816 a 1819, Laennec escutou centenas de doentes do Necker com o cilindro. Anotava o som de cada peito e, quando o paciente passava pela autópsia, abria o pulmão para conferir o que tinha ouvido.
Assim montou um dicionário de sons. Batizou o estertor (do francês râle, o chiado úmido de líquido nas vias do pulmão), a pectorilóquia (a voz do doente que parece sair direto do peito, sinal de cavidade no pulmão) e a egofonia (a voz trêmula como balido de cabra, sinal de líquido em volta do pulmão).
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O caderno foi acaso; os três anos de autópsia ao lado da cama foram projeto.
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O nome do método veio no título do livro. Auscultação mediata quer dizer escutar com um objeto no meio, em oposição à orelha colada na pele.
O tratado saiu em agosto de 1819, em dois volumes, pela editora parisiense Brosson et Chaudé. Livreiros vendiam o livro junto com um cilindro de madeira, para o médico ler e treinar ao mesmo tempo.
A recepção dividiu os colegas. Muitos médicos mais velhos achavam o tubo ridículo e diziam que a orelha bastava. Os jovens, que liam o livro com o cilindro na mão, aprendiam os sons em poucas semanas de enfermaria.
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