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O pudor de Laennec enrolou um caderno em 1816

No hospital Necker, um médico bretão enrolou papel para ouvir uma paciente e depois torneou o cilindro de madeira de 30 centímetros.

Cilindro de madeira torneado ao lado de um caderno de papel enrolado.

O cilindro de Laennec, hospital Necker, 1816

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Um cilindro de madeira clara de 30 centímetros, com cerca de 3,5 centímetros de diâmetro, furado no eixo por um canal estreito e dividido em duas metades de rosca. O cilindro prova que um médico de Paris escutou o coração de uma paciente sem encostar o rosto nela.

Até 1816, o médico que queria ouvir o peito de alguém tinha um método só: apoiar a orelha direto na pele, ou numa toalha fina estendida sobre ela. Os livros chamavam o gesto de auscultação imediata (escutar o corpo sem nada no meio).

O método vinha de longe. Textos atribuídos a Hipócrates, na Grécia do século 5 antes de Cristo, já descreviam sacudir o tronco do doente para ouvir o líquido balançando dentro do peito.

A orelha nua, porém, funcionava mal. Em paciente gordo, o som chegava abafado pela carne. Em paciente sujo ou com piolho, o médico hesitava. Em paciente mulher, o pudor da época travava o gesto antes de começar.

A outra técnica disponível era a percussão (bater com os dedos no tórax e ouvir se o som sai cheio ou oco). O médico austríaco Leopold Auenbrugger a publicou em 1761. Filho de um dono de hospedaria, ele tinha visto o pai bater nos barris de vinho para saber até onde iam cheios.

A percussão dizia onde havia líquido ou massa, mas calava sobre o que se passava dentro do pulmão a cada respiração. O médico seguia dependente do relato do doente e, no fim, da mesa de autópsia.

Em 1816, num hospital de Paris, uma jovem com sinais de doença no coração chegou à enfermaria. O médico encarregado olhou para ela, olhou para o próprio caderno e enrolou as folhas num tubo apertado.

Encostou uma ponta no peito dela e a outra na orelha. O batimento chegou nítido, bem acima do que a orelha nua captava através da pele, e o médico passou a noite pensando no tubo.

A seção I conta quem era o médico, por que o papel deu lugar à madeira e de onde saiu o nome grego do aparelho.

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I  A invenção de hoje

Um bretão no hospital Necker

O médico era René-Théophile-Hyacinthe Laennec. Nasceu em 17 de fevereiro de 1781, em Quimper, na Bretanha, e perdeu a mãe aos 5 anos para a tuberculose, a doença que ele passaria a vida estudando.

Foi criado pelo tio Guillaume Laennec, médico em Nantes. Ainda adolescente, trabalhou como ajudante de cirurgião nos hospitais militares da cidade durante a Revolução Francesa.

Em 1801 chegou a Paris e virou aluno de Jean-Nicolas Corvisart, o médico de Napoleão Bonaparte. Corvisart traduziu para o francês, em 1808, o livro de Auenbrugger sobre percussão, e ensinava os alunos a bater no peito antes de qualquer outro exame.

Laennec aprendeu na sala de autópsia. Abria o corpo de quem tinha passado pela enfermaria e comparava o pulmão que via com o que o doente tinha contado em vida. Em 1803, ganhou os prêmios da escola de medicina e da de cirurgia no mesmo ano.

Em 1816, foi nomeado médico do Hôpital Necker, fundado em 1778 por Suzanne Necker, mulher do ministro das finanças de Luís XVI. Foi ali, no ano da nomeação, que enrolou o caderno.

O TORNO DO MÉDICO

O papel funcionava, mas amassava e perdia a forma. Laennec tocava flauta e mantinha um torno de madeira em casa, onde fazia peças por passatempo. Passou a tornear tubos e a testar materiais: papel colado, vidro, metal, cana e madeiras de pesos diferentes.

A madeira de densidade média ganhou. O modelo final tinha quatro partes:

1.  O corpo: madeira torneada de 30 centímetros, em duas metades de rosca, para caber no bolso do casaco.

2.  O canal: um furo estreito no eixo, por onde o som do pulmão subia até a orelha.

3.  O funil: uma ponta escavada em cone, para apoiar no peito e recolher o som da respiração.

4.  O obturador: uma peça encaixada no funil, que deixava só o canal livre, para ouvir o coração.

O estetoscópio nasceu num torno caseiro, pelas mãos do próprio médico.

Nos primeiros meses, Laennec chamava o objeto só de cilindro. Depois cunhou o nome stéthoscope, do grego stethos (peito) e skopein (observar), e o verbo de olhar ficou preso a um aparelho de ouvir.

O cilindro também resolvia o pudor sem prejudicar o exame. O médico ficava a 30 centímetros do corpo da paciente, de pé, e o som chegava concentrado no canal em vez de espalhado pela bochecha.

 
 

II  Acidente ou projeto

Uma viga no pátio do Louvre

O tubo de papel teve um gatilho. Laennec contou a cena no tratado que publicou três anos depois, e a frase dele descreve a paciente com franqueza de médico.

Em De l'auscultation médiate (Da auscultação mediata), de 1819, ele escreveu: “Fui consultado, em 1816, por uma jovem que apresentava sintomas gerais de doença do coração, e na qual a aplicação da mão e a percussão davam pouco resultado por causa da gordura.” A idade e o sexo da moça, completou, impediam encostar a orelha.

Diante da paciente, ele lembrou de um fenômeno de acústica conhecido: uma batida de alfinete numa ponta de uma viga de madeira se ouve nítida pela orelha colada na ponta oposta. Biógrafos situam a lembrança no pátio do Louvre, onde ele tinha visto crianças brincando assim.

O sólido conduz o som melhor que o ar. Laennec deduziu que um corpo firme entre o peito e a orelha faria o mesmo papel da viga, e o caderno foi o corpo firme mais perto da mão.

A ideia nasceu de um acaso de enfermaria. O instrumento, não. O resto foi projeto, com método e com prazo de três anos.

TRÊS ANOS DE ESCUTA

De 1816 a 1819, Laennec escutou centenas de doentes do Necker com o cilindro. Anotava o som de cada peito e, quando o paciente passava pela autópsia, abria o pulmão para conferir o que tinha ouvido.

Assim montou um dicionário de sons. Batizou o estertor (do francês râle, o chiado úmido de líquido nas vias do pulmão), a pectorilóquia (a voz do doente que parece sair direto do peito, sinal de cavidade no pulmão) e a egofonia (a voz trêmula como balido de cabra, sinal de líquido em volta do pulmão).

O caderno foi acaso; os três anos de autópsia ao lado da cama foram projeto.

O nome do método veio no título do livro. Auscultação mediata quer dizer escutar com um objeto no meio, em oposição à orelha colada na pele.

O tratado saiu em agosto de 1819, em dois volumes, pela editora parisiense Brosson et Chaudé. Livreiros vendiam o livro junto com um cilindro de madeira, para o médico ler e treinar ao mesmo tempo.

A recepção dividiu os colegas. Muitos médicos mais velhos achavam o tubo ridículo e diziam que a orelha bastava. Os jovens, que liam o livro com o cilindro na mão, aprendiam os sons em poucas semanas de enfermaria.

 

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III  O problema que ela resolveu

O pulmão ouvido em vida

O problema resolvido pelo cilindro foi o diagnóstico às cegas. Antes dele, a doença do pulmão se confirmava quase sempre na autópsia; com ele, o médico ouvia a lesão com o doente vivo e ainda em tratamento.

Laennec usou o aparelho para descrever doenças com nome e som próprios. Separou a pneumonia (inflamação do pulmão) da tuberculose, descreveu a bronquiectasia (brônquios dilatados que acumulam secreção) e o enfisema (pulmão inflado que perde a elasticidade).

Também reconheceu o pneumotórax (ar preso entre o pulmão e a parede do peito) pelo silêncio onde devia haver respiração. A tuberculose, que levou a mãe dele, ganhou sinais precisos para cada fase.

O livro atravessou o Canal da Mancha depressa. Em 1821, o médico escocês John Forbes publicou a tradução inglesa, A Treatise on the Diseases of the Chest (Um tratado sobre as doenças do peito), e o cilindro chegou aos hospitais de Londres e Edimburgo.

DOS DOIS OUVIDOS

O cilindro de Laennec servia a um ouvido só. Em 1851, o médico irlandês Arthur Leared mostrou um modelo com dois tubos na Grande Exposição de Londres, um para cada orelha.

Em 1852, o médico George Philip Cammann, de Nova York, lançou um modelo de dois ouvidos com ponteiras de marfim e tubos flexíveis, e foi esse o desenho que as fábricas copiaram. A borracha e depois o plástico trocaram a madeira.

O tubo mudou de material e ganhou dois ramos, mas o princípio da viga do Louvre continua dentro dele.

O cilindro reto não sumiu. Em 1895, o obstetra francês Adolphe Pinard criou uma corneta de madeira para ouvir o coração do feto pela barriga da mãe, e parteiras de vários países ainda a usam.

Laennec voltou à Bretanha em 1826, doente, com os sinais da tuberculose no próprio peito. Na casa de campo de Kerlouanec, perto de Douarnenez, um parente médico pegou um dos cilindros dele e escutou o tórax do inventor.

O cilindro de madeira de 30 centímetros, com o canal estreito e as duas metades de rosca, saiu do caderno enrolado no Necker em 1816 e voltou, dez anos depois, ao peito de quem o torneou.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem segurou o cilindro de madeira no peito de Laennec naquele exame de 1826?

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