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O martelo de 1700 que deu ao cravo o baixo e o forte

Em Florença, Bartolomeo Cristofori montou para os Medici um teclado que tocava suave ou alto conforme a força do dedo.

Mecânica de martelos de um piano de Cristofori, com teclas e cordas, em Florença.

Florença, 1700: o teclado que obedecia ao dedo

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Um cilindro de papel enrolado, mais curto que um polegar, coberto por uma tira fina de couro e colado na ponta de uma haste de madeira. Foi com uma peça desse tamanho que o teclado aprendeu a obedecer à força do dedo.

O cilindro é a cabeça de um martelo. Quando a tecla desce, ele sobe, bate na corda de metal e cai de volta. Se o dedo aperta com calma, o golpe é leve e o som sai baixo. Se o dedo desce com vontade, o golpe é duro e o som enche a sala.

Hoje parece óbvio. Em 1700 não era. Os teclados das cortes europeias faziam soar a corda de outro jeito, e nenhum deles respondia ao toque com a mesma liberdade.

O martelo de papel nasceu em Florença, numa oficina paga por uma das famílias mais ricas da Itália. O homem que o construiu passava os dias consertando instrumentos alheios e, nas horas que sobravam, desmontava o próprio ofício para entender onde ele falhava.

O problema mecânico era maior do que parece. Um martelo que bate e fica encostado na corda abafa o som na hora. Um martelo que bate com força demais pode ricochetear e bater de novo, fazendo a nota gaguejar. Era preciso um martelo que voasse livre, tocasse a corda uma vez só e voltasse para o lugar, pronto para a próxima nota.

A solução coube numa peça pequena, escondida embaixo das cordas, que nenhum músico vê quando toca. Ela continua presente, com outro desenho, em todo piano de cauda vendido no mundo.

Três teclados construídos por esse inventor sobreviveram até hoje. Os três estão em museus, em três países diferentes, e cada um guarda a mesma ideia com pequenas mudanças de um ano para o outro.

Para entender de onde veio o martelo, é preciso voltar à corte dos Medici e a uma lista de instrumentos escrita em 1700.

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I  A invenção de hoje

A lista de instrumentos do príncipe Ferdinando

Bartolomeo Cristofori nasceu em Pádua, no norte da Itália, em 4 de maio de 1655. Pouco se sabe da juventude dele. Os documentos começam a falar dele quando já era um construtor de cravos com fama suficiente para chamar a atenção de um príncipe.

O príncipe era Ferdinando de' Medici, filho mais velho do grão-duque da Toscana, Cosimo III. Ferdinando amava ópera, tocava teclado e colecionava instrumentos. Em 1688, com Cristofori aos 33 anos, o príncipe o levou para Florença.

Lá, Cristofori ganhou salário, uma oficina e um título: guardião dos instrumentos da corte. O trabalho incluía afinar, consertar e transportar cravos, espinetas e violinos entre os palácios da família.

O cargo também permitia inventar. Cristofori construiu para Ferdinando um tipo de espineta oval e um cravo vertical, e passou anos testando um teclado novo, movido a martelos.

O INVENTÁRIO DE 1700

A prova mais antiga desse teclado novo está num papel administrativo. Em 1700, a corte fez o inventário dos instrumentos do príncipe, item por item, com medidas e materiais.

Um dos itens descreve um arpicembalo (nome italiano antigo para um instrumento de teclado com cordas, da família do cravo) feito por Bartolomeo Cristofori. O texto diz que ele era “di nuova inventione, che fa il piano e il forte”, ou seja, “de invenção nova, que faz o baixo e o forte”.

A expressão “piano e forte” vem do vocabulário musical italiano: piano quer dizer suave, forte quer dizer alto. O nome do instrumento que conhecemos hoje nasceu dessa descrição, encurtada com o tempo para pianoforte e depois para piano.

O inventário traz ainda detalhes físicos: o instrumento tinha dois registros de cordas e martelos, e não as palhetas de pena que os cravos usavam. É o primeiro registro escrito de um piano de que se tem notícia.

O piano entrou na história por uma linha de inventário: a corte dos Medici anotou, em 1700, que o cravo de Cristofori fazia o suave e o forte.

Ferdinando morreu em 1713, e a oficina perdeu o seu maior patrono. Cristofori continuou trabalhando para a corte, agora sob o grão-duque, e seguiu construindo pianos até perto do fim da vida.

 
 

II  Acidente ou projeto

A peça que solta o martelo da corda

O piano de Cristofori foi projeto do começo ao fim. Não há relato de descoberta por acaso: o que existe são anos de ajuste na mecânica, visíveis nas diferenças entre os instrumentos que sobraram.

O centro do projeto é o escape (em italiano, scappamento: a peça que larga o martelo pouco antes de ele tocar a corda). Sem ele, o martelo ficaria preso à tecla e encostado na corda, matando o som no instante do golpe.

COMO O ESCAPE FUNCIONA

A sequência dentro do piano de Cristofori segue quatro passos:

1.  O dedo aperta a tecla, que gira num eixo e levanta uma alavanca articulada.

2.  A alavanca empurra o martelo para cima, rumo à corda.

3.  Um instante antes do contato, o escape desengata: o martelo segue sozinho, no embalo, bate na corda e cai.

4.  Uma tira de couro chamada pega (a peça que segura o martelo na volta) o apanha no meio da queda e impede que ele ricocheteie e bata de novo.

Enquanto a tecla segue apertada, um abafador de pano fica afastado da corda e deixa a nota soar. Quando o dedo solta a tecla, o abafador desce e cala a corda.

A descrição mais antiga desse mecanismo foi publicada fora de Florença. Em 1711, o escritor Scipione Maffei visitou a oficina e publicou um artigo no Giornale de’ letterati d’Italia, revista erudita de Veneza, com um desenho da mecânica.

Maffei elogiou o efeito do instrumento e contou que alguns músicos da época torciam o nariz para ele, achando o som fraco demais perto do cravo. O artigo circulou pela Europa e foi traduzido para o alemão em 1725.

OS TRÊS SOBREVIVENTES

Três pianos de Cristofori chegaram até hoje, todos assinados e datados por ele:

•  O de 1720, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, o mais antigo. Passou por reformas no século 19, e parte da mecânica foi trocada.

•  O de 1722, no Museu Nacional dos Instrumentos Musicais, em Roma.

•  O de 1726, no Museu de Instrumentos Musicais da Universidade de Leipzig, na Alemanha.

Entre um e outro, Cristofori mudou detalhes do martelo e da alavanca, sinal de que seguia refinando o projeto duas décadas depois da linha do inventário.

O escape foi a invenção dentro da invenção: a peça que larga o martelo antes da corda é o que separa o piano de um cravo com martelo.

 

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III  O problema que ela resolveu

O cravo que não sabia sussurrar

O problema que o piano resolveu era o volume fixo do cravo. No cravo, cada tecla levanta uma palheta, que puxa a corda e a solta. Força nenhuma no dedo muda a intensidade do puxão: a nota sai sempre com o mesmo volume.

Para variar o som, o cravista dependia de truques. Trocava de teclado, nos cravos de dois manuais (fileiras de teclas), ou ligava e desligava registros, que acrescentam cordas a cada nota. O volume mudava em degraus, nunca aos poucos.

Havia um teclado que respondia ao toque, o clavicórdio (instrumento em que uma lâmina de metal encosta na corda e fica nela). Ele variava do suave ao menos suave, mas soava tão baixo que mal servia fora de um quarto.

Cristofori juntou as duas metades: a força de som de um instrumento grande de cordas e a resposta ao dedo do clavicórdio. O martelo com escape entregava as duas.

A MÚSICA QUE O PIANO PEDIU

A primeira música publicada para o instrumento saiu em Florença, em 1732, um ano depois da morte de Cristofori, em janeiro de 1731. Lodovico Giustini lançou as “Sonate da cimbalo di piano e forte”, ou “Sonatas para cravo de suave e forte”, já pensadas para o toque variável.

Na Alemanha, o construtor de órgãos Gottfried Silbermann leu a tradução do artigo de Maffei e começou a fazer pianos com base no desenho de Cristofori. Johann Sebastian Bach experimentou um desses instrumentos nos anos 1730 e reclamou do agudo fraco e do toque pesado.

Os pianos florentinos também cruzaram fronteiras. Maria Bárbara de Bragança, princesa portuguesa casada com o herdeiro do trono espanhol, levou instrumentos feitos em Florença para a corte de Madri, onde o cravista Domenico Scarlatti era o seu professor de música.

Silbermann corrigiu os defeitos. Em 1747, quando Bach visitou o rei Frederico II da Prússia em Potsdam, tocou nos pianos de Silbermann da coleção real e aprovou o resultado.

Daí em diante, o piano tomou o lugar do cravo nas salas da Europa. Mozart, Beethoven e Chopin escreveram para ele, cada geração pedindo mais força e mais alcance de notas, e os construtores reforçaram a caixa com ferro.

O piano venceu porque deu ao músico o controle que o cravo negava: a mesma tecla podia sussurrar ou encher a sala, conforme o dedo.

O martelo de papel enrolado e couro foi o desenho que Bartolomeo Cristofori montou no piano de 1720, hoje no Metropolitan, em Nova York: o mesmo cilindro que, vinte anos antes, fez a corte dos Medici escrever “piano e forte” num inventário.

“Qual música você gostaria de ouvir tocada num piano de 1720?”

 
 
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Em que ano o inventário dos instrumentos do príncipe Ferdinando descreveu pela primeira vez um teclado de Cristofori que fazia o suave e o forte?

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