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O fio de latão que Franklin deu de graça
No Poor Richard's Almanack de 1753, ele publicou a receita da haste com ponta de alfinete e deixou qualquer telhado copiar, sem cobrar nada.
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Filadélfia, 1753: a haste de ferro no telhado
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Um fio de latão de pouco mais de um palmo, da grossura de uma agulha de tricô, com a ponta lixada até ficar afiada como um alfinete. Essa peça miúda é a que faz o serviço. O resto do conjunto é uma vara de ferro comum, batida por qualquer ferreiro e presa com grampos na lateral da casa: três ou quatro pés enterrados em terra úmida embaixo, seis ou oito pés de vara subindo acima do ponto mais alto do telhado, e o fio de latão fixado no topo dela.
A receita apareceu impressa em 1753, numa página do Poor Richard's Almanack, o almanaque anual que Benjamin Franklin imprimia na Filadélfia desde 1732 assinando com o nome inventado de Richard Saunders. Entre a tábua das marés e os provérbios que faziam a fama do livrinho, ele encaixou um verbete curto de instrução prática: como proteger casas, igrejas e navios do estrago do raio.
O almanaque custava poucos pence, cabia no bolso do casaco e circulava por toda a colônia. Qualquer carpinteiro conseguia ler aquele parágrafo e executar o trabalho numa tarde, com ferro, grampos e latão comprados na loja de ferragens da esquina. Franklin não pediu patente, não cobrou licença, não guardou nenhuma medida para si.
Em poucos anos havia vara de ferro apontando para cima nos telhados da Filadélfia, de Boston e de Charleston, e depois em Paris, Londres, Viena e Turim. Nenhuma delas rendeu um centavo ao homem que escreveu o passo a passo, e ele já contava com essa perda quando mandou compor a página.
Abrir a receita não foi um impulso generoso de última hora. A decisão vinha de uma regra que ele já seguia havia anos, e tinha um motivo de engenharia por trás: o aparelho só protege se a ponta e o aterramento estiverem certos, e um trabalho malfeito vira armadilha em cima da cabeça de uma família. Espalhar a instrução correta de graça valia mais, para ele, do que vender o direito de fabricá-la.
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I A invenção de hoje
A ponta que sangra a nuvem em silêncio
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O que faz a haste funcionar é a ponta, e Franklin chegou nela na bancada de casa, anos antes de subir em telhado nenhum. Numa sala escurecida, carregando uma esfera de metal por atrito, ele mostrou que um objeto pontiagudo aproximado da esfera a descarregava em silêncio e a alguns centímetros de distância, enquanto um objeto de ponta arredondada só tirava a carga quando encostava, com estalo e faísca.
O efeito ganhou nome na correspondência da época: poder das pontas, quer dizer, a tendência da carga elétrica de se acumular e escapar pela extremidade mais fina de um condutor. Numa superfície redonda a carga se espalha; numa agulha ela se amontoa num ponto só, o ar em volta se rompe e a corrente vaza aos poucos, sem estrondo.
Daí saem as duas funções da haste, que muita gente confunde até hoje. A primeira é preventiva: a ponta sangra devagar a carga da nuvem carregada que passa por cima da casa, reduzindo a diferença que alimentaria a descarga. A segunda é de emergência: se o raio cair assim mesmo, o ferro oferece um caminho contínuo até o solo e a corrente desce por ele, e não pela madeira do forro nem pela chaminé de tijolo.
O aterramento em terra úmida o texto do almanaque não deixa negociar. Terra seca conduz mal, e corrente que encontra resistência no fim do caminho procura outra saída, geralmente pelo encanamento, pela parede molhada de chuva ou por quem estiver encostado nela. Enterrar a vara até o barro que nunca seca é o que fecha o circuito.
A instrução impressa em 1753 cabe em quatro movimentos, na ordem em que o carpinteiro executa.
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1. Vara. Uma haste de ferro comum, do comprimento necessário para sobrar seis a oito pés acima da parte mais alta do telhado.
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2. Fixação. Grampos de ferro prendendo a vara à lateral da construção, do beiral até o chão, sem interrupção no meio do percurso.
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3. Aterramento. Três a quatro pés da ponta de baixo enterrados em terra permanentemente úmida, longe do alicerce seco.
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4. Ponta. Um palmo de fio de latão preso no topo, da espessura de uma agulha de tricô, lixado até ficar agudo como alfinete.
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A lista inteira cabe num parágrafo de almanaque porque não existe peça secreta dentro dela. Ferro, grampo e latão eram material de loja de ferragens de qualquer vila colonial, e o gasto de uma casa protegida ficava na casa de alguns xelins. Uma invenção que vale pelo desenho se espalha do jeito que o desenho for publicado: certo ou errado.
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II Acidente ou projeto
A guarita de Marly provou a carta
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O para-raios não caiu no colo de Benjamin Franklin por acidente de laboratório. Ele foi projetado no papel e testado por terceiros do outro lado do oceano, seguindo a instrução que ele mandou pelo correio.
Entre 1749 e 1750, Franklin escreveu uma série de cartas a Peter Collinson, comerciante londrino e membro da Royal Society que lhe havia mandado de presente os tubos de vidro com que ele começou a experimentar. Nessas cartas ele expôs a suspeita que interessa: o relâmpago da tempestade e a faísca da garrafa de Leyden teriam a mesma natureza, um em escala enorme e outro em escala de bancada.
Para provar, ele propôs um teste desenhado com detalhe de planta baixa. Montar uma guarita de sentinela no alto de uma torre, pôr dentro um homem em cima de um banquinho isolado por cera e deixar uma vara de ferro pontiaguda de vinte a trinta pés saindo pelo teto. Com nuvem de tempestade por cima, a vara deveria ficar carregada, e o homem tiraria faíscas dela com um fio aterrado na mão.
Collinson mandou o conjunto de cartas para a imprensa em 1751. A tradução francesa chegou às mãos do naturalista Thomas-François Dalibard, que armou o experimento numa horta de Marly-la-Ville, ao norte de Paris. Em 10 de maio de 1752, com o céu fechado e Dalibard fora da cidade, quem executou a operação foi um antigo dragão chamado Coiffier, seguindo instrução escrita: aproximou o fio da vara de ferro e tirou faíscas audíveis, com cheiro de enxofre. A ideia do impressor da Filadélfia funcionou na primeira tentativa, na mão de um militar aposentado.
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"Aprouve a Deus, em sua bondade para com a humanidade, revelar enfim os meios de proteger as habitações e outros edifícios do estrago do trovão e do raio."
Benjamin Franklin, Poor Richard's Almanack, 1753
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Em junho de 1752, sem saber ainda do sucesso francês, Franklin fez a própria versão do teste com um brinquedo de criança. Empinou uma pipa de lenço de seda com uma ponta de arame no topo, ficou embaixo de um telheiro para manter seca a ponta do cordel e amarrou uma chave de metal na junção entre o cordel de cânhamo, que a chuva molhou e tornou condutor, e uma fita de seda seca segurada na mão. As fibras soltas do cordel se arrepiaram, e a chave deu faísca no nó do dedo.
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O relato da pipa só entrou em livro quinze anos depois, escrito por Joseph Priestley na obra de 1767 sobre a história da eletricidade, a partir de conversa com o próprio Franklin. Essa distância entre o acontecimento e o registro faz da cena o trecho mais discutido por historiadores até hoje. A ordem dos fatos ninguém contesta: a proposta veio primeiro, por carta, e a guarita de Marly provou o princípio antes do brinquedo de seda.
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