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Uma cozinha de apartamento em Dresden, em 1908, e uma panela de latão aposentada no fundo do armário. O que saiu dali naquela manhã está hoje em milhões de cozinhas, no mesmo formato de papel descartável.
Melitta Bentz tinha 35 anos, era dona de casa e não tinha oficina, sócio nem formação técnica. Tinha o problema na mão todos os dias, e decidiu atacar o filtro em vez de atacar o café.
O primeiro movimento foi com um prego. Ela furou o fundo da panela de latão em vários pontos, e o utensílio virou um recipiente que segurava o pó em cima e deixava o líquido escorrer por baixo.
O segundo movimento foi ao caderno do filho. Ela arrancou uma folha de mata-borrão, o papel poroso que a escola usava para secar o excesso de tinta da caneta, e forrou com ela o fundo furado.
A escolha do papel não foi decorativa. Mata-borrão é papel sem cola, de fibra aberta, fabricado para puxar líquido por capilaridade. Ele segura partícula fina e absorve gordura, exatamente onde o pano falhava.
O resultado mudou a bebida em dois pontos. A água passava uma vez só, sem voltar a ferver sobre o pó, e o café chegava à xícara limpo, sem borra em suspensão e sem parte da gordura que carrega o amargor.
O terceiro ganho era de higiene e valia tanto quanto o sabor. O papel ia para o lixo depois do uso, com a borra dentro, e a cozinha deixava de conviver com um tecido permanentemente úmido.
O desenho original não era o cone que existe hoje. Era um pote redondo, de fundo levemente abaulado e furado, e o papel vinha cortado em disco para assentar no lugar certo.
Nada ali dependia de energia, de pressão ou de peça móvel. A gravidade fazia o trabalho, e o único item que precisava ser comprado de novo era uma folha de papel.
O registro veio rápido. Em 20 de junho de 1908, o escritório imperial de patentes, em Berlim, concedeu proteção de modelo de utilidade ao filtro de fundo abaulado com furos de passagem.
Em 15 de dezembro do mesmo ano, ela registrou a firma M. Bentz na junta comercial de Dresden, com capital de setenta e três pfennigs, o valor de alguns trocados no bolso.
A fábrica era a própria casa. O marido, Hugo, e os dois filhos montavam os filtros à mão, e a distribuição saía a pé, de porta em porta e em feira de utilidade doméstica.
A primeira prova pública veio na feira de Leipzig, em 1909, onde a firma vendeu mil e duzentos filtros. No ano seguinte, o produto recebeu medalha de ouro numa exposição internacional de higiene.
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