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O corpo de prova que o ácido não conseguiu atacar
Harry Brearley procurava em Sheffield, em 1913, uma liga que não gastasse dentro do cano de canhão, e encontrou uma que não enferruja.
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Sheffield, 1913: o corpo de prova que não enferrujou
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Um corpo de prova de aço do tamanho de um dedo, com uma das faces lixada e polida até virar espelho. Ele saiu de um laboratório de Sheffield, na Inglaterra, em 1913, e o que ficou provado nele não constava de encomenda nenhuma.
A encomenda era outra. Fabricantes de armamento reclamavam do desgaste interno do cano: o gás quente e a passagem repetida do projétil comiam a superfície da alma, o calibre abria, a pontaria caía e a peça saía de serviço cedo demais. O laboratório de pesquisa mantido pelas siderúrgicas da cidade recebeu a tarefa de achar uma liga que aguentasse esse ataque por mais tempo.
O caminho escolhido foi o cromo. Fundir aço com teores altos desse metal, variar a proporção, temperar, cortar amostra, examinar a estrutura interna e comparar dureza com resistência ao calor era o trabalho de bancada da equipe, batelada após batelada, com o forno registrando cada corrida num caderno.
O exame da estrutura interna exigia um passo simples e agressivo. Para enxergar os grãos do metal no microscópio, a face polida da amostra precisa ser atacada por um ácido diluído, que corrói de forma desigual e revela o desenho por baixo. As amostras com muito cromo se recusaram a ser atacadas. O ácido escorria e a face continuava espelhada.
Uma segunda recusa apareceu ao lado da bancada. As sobras de corrida iam para um canto do laboratório, onde amostra de aço comum criava a crosta alaranjada de sempre em poucas semanas de umidade inglesa. As de cromo alto ficavam ali, lado a lado com as outras, e continuavam claras.
As duas recusas apontam para o mesmo lugar, e o lugar não fica no interior do metal. Alguma barreira na superfície daquela liga estava impedindo a química de entrar, tanto o ácido concentrado do laboratório quanto a umidade lenta do ar da cidade, e a propriedade valia mais no mercado que a resistência ao desgaste pedida na encomenda.
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I A invenção de hoje
A casca invisível que se refaz sozinha
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O metal daquela corrida tinha cerca de 12,8% de cromo e 0,24% de carbono, e o resto era ferro. A proporção parece pequena para tanta diferença de comportamento, e o motivo está inteiro na superfície, não no volume.
O cromo tem afinidade forte com o oxigênio. Assim que a peça encontra o ar, os átomos de cromo da camada externa capturam oxigênio e formam um filme de óxido de cromo com poucos nanômetros de espessura, denso, aderente e sem os poros por onde a água e o oxigênio chegariam ao ferro embaixo.
A ferrugem comum faz o oposto. O óxido de ferro ocupa mais volume que o metal que o gerou, incha, descasca e expõe a camada seguinte, o que transforma a corrosão num processo que se alimenta sozinho até consumir a peça inteira.
O filme de cromo tem outra virtude, que é o que torna o material útil na prática: ele se refaz. Um risco de faca, uma amolação ou um arranhão removem o filme, e em segundos de contato com o ar o cromo exposto forma óxido novo no lugar. A proteção não está aplicada por fora, está na composição da liga inteira, e por isso o desgaste não a consome.
A diferença em relação ao que já existia estava justamente nesse ponto. Talher e utensílio da época ganhavam proteção por revestimento: uma camada de níquel, prata ou estanho depositada sobre a base de ferro. O revestimento tem espessura fixa, e a primeira falha na cobertura abre caminho para a corrosão embaixo dela, que avança escondida.
Três condições precisam ser respeitadas para o filme funcionar:
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1. O teor de cromo dissolvido na matriz precisa passar de cerca de 10,5%, o limite abaixo do qual o filme sai descontínuo e o ferro fica exposto.
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2. O ambiente precisa ter oxigênio disponível. A peça enterrada em fresta apertada, sem ar, ou submersa em líquido parado, perde a capacidade de se recompor.
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3. O cloreto precisa ser evitado. O íon de cloro rompe o filme em pontos isolados e abre a corrosão por pite, um furo estreito e fundo que atravessa a chapa sem manchar o resto da superfície.
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A liga de Sheffield era martensítica, quer dizer, aceitava têmpera e ganhava dureza no resfriamento rápido, o que a habilitava para lâmina cortante. O aço austenítico com níquel, o material das cubas e pias de hoje, veio de outra família, desenvolvida na Alemanha na mesma época, mais resistente à corrosão e sem essa capacidade de endurecer por têmpera.
O nome comercial carrega uma promessa maior do que o metal entrega. O material não é imune, mancha em contato prolongado com salmoura, sofre em água do mar e enferruja se a superfície ficar contaminada por partícula de aço comum. Ele resiste, não é invulnerável.
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II Acidente ou projeto
O canto do laboratório onde as sobras esperavam
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Harry Brearley nasceu em Sheffield, em 1871, filho de um fundidor de aço, e entrou na siderúrgica ainda menino, no serviço mais baixo do laboratório, lavando vidraria e recolhendo amostra. Estudou química à noite, por conta própria, e virou analista, depois químico-chefe.
Em 1908, duas empresas da cidade juntaram dinheiro para montar um laboratório de pesquisa comum, e ele foi escolhido para dirigi-lo. A função lhe deu forno, bancada, assistente e liberdade para escolher a linha de ataque de cada encomenda.
O problema do cano de canhão chegou como pedido de cliente, com prazo e finalidade militar. A resposta esperada era uma liga mais dura e mais estável no calor, capaz de aguentar a erosão por dentro, e o cromo entrou na receita por causa dessa expectativa, não por causa de ferrugem.
A observação que mudou o destino da liga aconteceu duas vezes, por caminhos independentes. Primeiro na bancada, com o ácido de ataque metalográfico que não marcava a face polida. Depois no canto onde as sobras se acumulavam, com as amostras claras entre amostras alaranjadas.
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O julgamento entre acaso e projeto se resolve na segunda metade da história. Achar a propriedade foi acaso; Brearley não procurava resistência à ferrugem e ninguém lhe pediu isso. Reconhecer o que aquilo valia, mudar de alvo, levar a liga para a cutelaria e brigar por ela dentro da própria empresa foi trabalho deliberado, e é a parte que os antecessores não fizeram.
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Antecessores existiam, e com dados publicados. O francês Léon Guillet descreveu em 1904 ligas de ferro e cromo com composição muito próxima da de Sheffield. O alemão Philipp Monnartz publicou em 1911 o estudo que ligava a resistência química ao teor mínimo de cromo e explicava a passividade da superfície. Elwood Haynes, nos Estados Unidos, trabalhava na mesma direção, e a Krupp patenteava a família com níquel.
O que faltou a todos eles foi aplicação. As ligas apareceram como curiosidade de laboratório, descritas em artigo técnico, sem produto que justificasse a fabricação, e ficaram no papel.
Brearley foi atrás do uso mais óbvio da cidade onde morava. Sheffield vivia de cutelaria, e a faca de mesa era o objeto que mais sofria com corrosão no cotidiano. Ele levou a liga para Ernest Stuart, gerente de uma das cutelarias locais, que aceitou trabalhar a barra, temperou, esmerilhou e conseguiu lâmina afiada.
Foi Stuart quem deu o nome que pegou. Brearley chamava o material de aço sem ferrugem, uma descrição seca; a cutelaria preferiu a palavra que virou marca comercial e depois virou categoria de material no mundo inteiro.
A patente britânica emperrou, e a proteção saiu nos Estados Unidos em 1915, com a fundação de um consórcio para licenciar o processo. Brearley brigou com a antiga empregadora por royalties, saiu, foi trabalhar em outra siderúrgica da região e voltou anos depois como diretor do consórcio que explorava a própria invenção.
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