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ED 006

O código de barras nasceu na areia

Em 1949, numa praia de Miami, Norman Joseph Woodland puxou com os dedos os pontos do código Morse até eles virarem linhas.

A areia molhada de uma praia de Miami Beach no inverno de 1949, com quatro linhas de larguras diferentes riscadas com os dedos.

A areia de Miami Beach no inverno de 1949

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Em 1948, o caixa de um supermercado americano era um teclado mecânico e uma pessoa com boa memória. Cada lata, cada caixa de sabão e cada pacote de bolacha tinha o preço digitado à mão, tecla por tecla, item por item, e a fila andava no ritmo dos dedos de quem operava a máquina.

O gargalo não estava só na fila. A loja fechava o dia sabendo quanto tinha vendido em dinheiro e quase nada sobre o que tinha saído da prateleira. O estoque era contado a lápis, prancheta na mão, corredor por corredor, e o pedido da semana seguinte saía do palpite do gerente.

O erro entrava junto. Uma tecla trocada virava preço errado no cupom, e o desconto involuntário só aparecia no balanço do mês, misturado com quebra e com avaria. O supermercado moderno tinha acabado de multiplicar o número de produtos na loja e continuava com o controle de um armazém de bairro.

As tentativas existiam. Cartão perfurado no caixa era caro e lento demais para uma compra de trinta itens, etiqueta magnética exigia contato com a embalagem, e nenhuma delas passava no teste mais simples do varejo: custar centavos por unidade e funcionar na mão de qualquer operador.

A conta também não fechava do lado do salão. O produto chegava da fábrica sem nome legível por máquina, e cada rede inventava o próprio código de prateleira, escrito à mão numa etiqueta colada na embalagem.

Um executivo de rede de supermercados foi bater na porta de uma faculdade de engenharia da Filadélfia com o problema debaixo do braço. Saiu de lá sem resposta. A pergunta ficou no corredor, e dois estudantes decidiram levá-la a sério.

Um deles largou o emprego, arrumou a mala e foi passar o inverno na casa do avô, na Flórida, sem prazo e sem cliente. A solução que ele trouxe de lá cabe em qualquer embalagem do mundo e ficou vinte e dois anos esperando a tecnologia capaz de lê-la.

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I  A invenção de hoje

As linhas que saíram do Morse

Uma cadeira de praia em Miami Beach, no inverno de 1949, e um problema que ninguém tinha encomendado. O símbolo que hoje aparece em quase toda embalagem do planeta foi desenhado com quatro dedos na areia molhada.

Norman Joseph Woodland tinha 27 anos e havia largado a vaga de instrutor no Drexel Institute of Technology para pensar em tempo integral. Ele passava o inverno no apartamento do avô com uma pergunta só: como marcar um produto de modo que uma máquina leia a marca sem tocar nela.

O ponto de partida era o código Morse, que ele tinha aprendido nos escoteiros. Morse resolve um problema parecido com dois sinais de duração diferente, ponto e traço, combinados numa sequência que identifica cada letra.

O gesto está registrado na primeira pessoa. Woodland enfiou os quatro dedos na areia e os puxou na direção do próprio corpo, e os pontos e traços da memória viraram linhas finas e linhas grossas, separadas por espaços de largura variável.

A tradução é literal. Ponto virou barra estreita, traço virou barra larga, e a informação deixou de estar no desenho para estar na largura. Uma máquina que só distingue claro de escuro consegue medir quanto tempo o feixe passou sobre cada faixa.

Faltava um detalhe prático, resolvido na mesma praia. Ninguém alinha um pacote na hora de passar no caixa. Woodland girou o traçado em círculos concêntricos, como um alvo de tiro, para que qualquer reta cruzando a figura encontrasse a mesma sequência de larguras.

O leitor montado depois era desajeitado. Uma lâmpada incandescente de 500 watts iluminava o símbolo, e um tubo fotomultiplicador tirado de equipamento de som de cinema media a luz que voltava da superfície.

A montagem tinha o tamanho de uma escrivaninha, precisava ficar coberta com pano preto e esquentava a ponto de chamuscar o papel impresso.

O pedido de patente entrou em 20 de outubro de 1949, em nome de Bernard Silver e Norman Joseph Woodland. O documento saiu em 7 de outubro de 1952, com o número 2.612.994 e o título administrativo de aparelho e método de classificação.

O texto descreve tudo que o supermercado usaria vinte e dois anos depois: padrão impresso na embalagem, fonte de luz, sensor de reflexão e um circuito que converte a variação em número. Nada dependia de laser.

O que faltava não estava no papel. Faltava uma fonte de luz barata, fina e estável, que só chegou com o laser em 1960, e eletrônica capaz de decodificar o sinal na velocidade do caixa por um preço que o lojista aceitasse pagar.

 
 

II  Acidente ou projeto

A encomenda que o reitor recusou

Não houve contrato, prazo nem cliente. Houve uma pergunta recusada por um reitor, ouvida por acaso no corredor, e um gesto na areia que definiu a forma. O projeto veio depois, e foi obra de um comitê de concorrentes.

A cena de origem é modesta. Em 1948, o dono de uma rede de supermercados da Filadélfia pediu ao reitor de engenharia do Drexel pesquisa para ler a informação do produto no caixa, e ouviu não.

Bernard Silver, estudante de pós-graduação, ouviu a conversa e levou o assunto ao amigo Woodland. Nenhum dos dois tinha verba ou encomenda, e o problema era de um setor enorme que ninguém estava atendendo.

A primeira tentativa da dupla foi química, com padrões impressos em tinta sensível à luz ultravioleta, e não sobreviveu ao varejo: a tinta custava caro e desbotava na gôndola. O que veio depois ficou registrado na primeira pessoa.

"Eu estava pensando em pontos e traços quando enfiei os quatro dedos na areia e, por alguma razão, puxei a mão na minha direção. Fiquei com quatro linhas, e elas podiam ser linhas largas e linhas estreitas em vez de pontos e traços."

Norman Joseph Woodland, citado em Barcodes Sweep the World, de Tony Seideman, revista Invention and Technology, 1993

A patente não virou dinheiro para nenhum dos dois. Em 1952 eles venderam o documento à Philco por 15 mil dólares, a única quantia que receberam pela ideia, e a Philco repassou a patente à RCA.

O relógio correu sozinho. O direito exclusivo valia dezessete anos e expirou em 1969, cinco anos antes do primeiro uso comercial. Quando o varejo enfim quis a tecnologia, ela já era de domínio público.

A retomada veio do setor, e não de um inventor. No começo dos anos 1970, um comitê de fabricantes e redes concorrentes sentou para escolher um padrão único de produto, porque padrão só serve quando todo mundo imprime o mesmo.

A RCA levou o alvo de círculos para teste de loja num Kroger de Cincinnati, em 1972, e o símbolo que lia bem no laboratório falhava na embalagem impressa em escala. A impressora borra no sentido em que o papel corre, e um borrão atravessando anéis concêntricos apaga a leitura em qualquer direção.

O símbolo que venceu resolveu três exigências ao mesmo tempo.

1.  Ser lido por um feixe que cruza a figura em qualquer altura, porque ninguém alinha um pacote na esteira do caixa.

2.  Sobreviver à impressão barata, com as barras paralelas ao sentido do rolo, para que o borrão alongue a barra sem alterar a largura.

3.  Carregar fabricante, produto e um dígito de verificação em doze algarismos, num rótulo do tamanho de um selo.

Em 3 de abril de 1973 o comitê escolheu a proposta retangular da IBM, desenhada por George Laurer, da mesma empresa onde Woodland trabalhava desde 1951. O código universal de produto nasceu com noventa e cinco módulos, barras de guarda nas pontas e no meio e um dígito de verificação.

Guarde o carimbo do dia assim. O acaso cabe num gesto de segundos numa praia. O projeto levou vinte e cinco anos, três empresas e uma forma nova imposta pela impressora.

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III  O problema que ela resolveu

O caixa que digitava tudo à mão

O problema: cada preço entrava no caixa pela mão de uma pessoa, e a loja fechava o dia sem saber o que tinha vendido item por item. Fila lenta, erro de digitação e reposição no palpite eram a mesma conta paga três vezes.

A troca: um símbolo impresso na embalagem responde por dois números, fabricante e produto, e o preço passa a morar no computador da loja. O caixa deixa de digitar e passa a apontar.

O que mudou: a etiqueta de preço saiu do produto e foi para a gôndola, o cupom passou a listar o nome do item, e cada leitura virou uma linha de dado com hora, loja e produto.

O primeiro bipe tem data, hora e endereço. Em 26 de junho de 1974, às 8h01, no supermercado Marsh de Troy, Ohio, a operadora Sharon Buchanan passou pelo leitor um pacote de chicletes Wrigley's Juicy Fruit de sessenta e sete centavos.

O pacote não foi escolhido ao acaso. Era um dos menores itens da loja e provava que o símbolo funcionava mesmo numa embalagem pequena. Ele está guardado no Museu Nacional de História Americana, do Instituto Smithsonian.

A adoção seguinte foi lenta. Loja nenhuma comprava leitor enquanto poucos produtos traziam o símbolo, e fabricante nenhum imprimia o símbolo enquanto poucas lojas tinham leitor. Dois anos depois, o país contava algumas dezenas de caixas equipados.

A virada veio quando as redes grandes fizeram a conta do lado de dentro. O leitor custava caro por caixa instalado, e devolvia inventário em tempo real, fim da etiquetagem individual e o giro de cada item por hora.

O dado valia mais que a fila. A leitura criou o registro de venda por produto, por loja e por horário, e o registro virou a base da reposição automática e da pesquisa de mercado moderna.

O princípio saiu do supermercado. Pulseira de paciente conferida contra o remédio no hospital, encomenda rastreada no trajeto, peça na linha de montagem e amostra de laboratório usam a mesma ideia de largura lida por reflexão.

A conta de hoje é de outra ordem. A GS1, que administra o padrão, estima mais de seis bilhões de leituras por dia no mundo.

Woodland recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia dos Estados Unidos em 1992, quarenta e três anos depois da tarde na praia. Bernard Silver, que ouviu a pergunta no corredor e assinou a patente com ele, partiu em 1963, aos 38 anos.

O símbolo que passa pelo leitor centenas de vezes por dia em cada loja não saiu de laboratório nem de contrato. Saiu de quatro dedos arrastados na areia molhada, e ficou guardado tempo suficiente para o mundo construir a máquina capaz de lê-lo.

"Quantos bipes você ouviu hoje sem lembrar que alguém desenhou aquilo com os dedos na areia?"

 
 
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