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O chicle de Santa Anna falhou como pneu

Em Staten Island, em 1869, Thomas Adams ferveu a seiva mexicana e vendeu as bolinhas numa farmácia de Hoboken.

Bolinhas de chicle fervido embrulhadas em papel colorido, Nova York, 1871.

Staten Island, 1869: o chicle de Santa Anna

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Uma bolinha cinzenta de pouco mais de um centímetro, sem açúcar e sem sabor, enrolada em papel colorido. Custava um centavo no balcão de uma farmácia de Hoboken, em Nova Jersey, e provava que uma carga de seiva encalhada ainda podia render dinheiro.

A seiva era o chicle (o látex endurecido do sapotizeiro, árvore das florestas do sul do México e da América Central). Os maias e os astecas já mascavam essa goma séculos antes da chegada dos espanhóis.

A carga tinha um dono improvável. Antonio López de Santa Anna, general que governou o México várias vezes e perdeu o Texas em 1836, vivia exilado em Staten Island, ilha de Nova York, em 1869.

Santa Anna queria dinheiro para armar um exército e voltar ao poder. A aposta dele era vender o chicle aos americanos como substituto barato da borracha, matéria-prima cara das rodas de carruagem.

O sócio da aposta foi Thomas Adams, fotógrafo e inventor amador de Nova York, que conheceu o general em Staten Island e aceitou testar a seiva na própria oficina.

A carga chegou a Nova York em blocos duros, do tamanho de um tijolo, embalados em sacos de juta. Pelo relato mais repetido da história, somava perto de uma tonelada de chicle.

Adams trabalhou meses com o material. Misturou chicle com borracha, aqueceu, tentou vulcanizar (endurecer com enxofre e calor, como se fazia com a borracha) e não obteve nada firme o bastante para segurar uma roda.

Sobrou um depósito cheio de goma sem uso e um investimento perdido. Segundo a história contada pela família, Adams chegou a pensar em despejar a carga no East River, o rio que separa Manhattan do Brooklyn.

A saída apareceu numa cena de farmácia: uma menina pedindo goma de parafina para mascar, a um centavo o pedaço.

Para entender como um fracasso industrial virou a bolinha vendida em Hoboken, a história começa pela panela de água quente onde Adams jogou os primeiros pedaços de chicle.

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I  A invenção de hoje

A seiva fervida em bolinhas

Thomas Adams nasceu em 1818, em Nova York. Antes do chicle, ganhava a vida com retratos de estúdio e com pequenos negócios, e passava as horas livres testando materiais em casa.

A goma de parafina que a menina comprou era o produto de mascar mais comum nas farmácias americanas da época. Amolecia com o calor da boca, perdia a forma em poucos minutos e grudava nos dentes.

Adams sabia que o chicle se comportava de outro jeito. A seiva aguentava a mastigação sem derreter e voltava a esticar, a mesma elasticidade que tinha frustrado os testes de borracha.

Ele perguntou ao farmacêutico se venderia uma goma feita com a seiva mexicana. O homem aceitou deixar um lote no balcão, e Adams voltou para casa para fabricar as primeiras bolinhas com os filhos.

Os filhos dele, Thomas Jr. e Horatio, entraram no negócio desde a panela. Horatio Adams cuidaria anos depois da parte comercial e levou a goma da família a outras cidades americanas.

DA PANELA AO BALCÃO

O processo era caseiro e cabia numa cozinha:

1.  Adams picava os blocos duros de chicle em pedaços pequenos.

2.  Os pedaços iam para a água quente até amolecer e virar uma massa única.

3.  A massa era sovada à mão, como pão, para ganhar liga.

4.  A família enrolava bolinhas e embrulhava cada uma em papel colorido.

A bolinha de Adams era chicle puro, fervido e enrolado: sem açúcar, sem aroma e sem receita secreta.

O lote vendeu bem o bastante para Adams montar uma produção. Em 1871, ele registrou a patente americana 111.798, de uma máquina que sovava a massa e a cortava em tiras.

A tira substituiu a bolinha. Ela era mais rápida de produzir, mais fácil de embalar em caixas e dava a cada pedaço o mesmo tamanho.

O produto ganhou nome e embalagem própria. A caixa trazia o desenho da prefeitura de Nova York e uma frase de vendedor:

“Adams’ New York Gum No. 1, Snapping and Stretching.” (rótulo da goma de Thomas Adams, 1871; em português, “Goma Nova York número 1 de Adams, estalando e esticando”)

O estalo era o argumento. A goma de parafina não estalava, e o chicle, esticado entre os dentes, fazia um barulho que virou marca registrada da novidade.

 
 

II  Acidente ou projeto

Um pneu que nunca rodou

A invenção foi acidente. O plano de Adams e de Santa Anna era industrial e não tinha nada a ver com mastigação: a seiva devia virar borracha para rodas, botas de chuva e brinquedos.

A borracha valia muito no fim da década de 1860. Charles Goodyear tinha patenteado em 1844 a vulcanização (o cozimento com enxofre que deixa a borracha firme), e a demanda por pneus de carruagem e peças de máquina crescia a cada ano.

O látex verdadeiro vinha da seringueira da Amazônia e chegava caro aos portos americanos. Um substituto mexicano, barato e abundante, parecia uma fortuna esperando comprador.

O GENERAL SEM EXÉRCITO

Santa Anna tinha motivo para ter pressa. Governou o México em vários mandatos entre 1833 e 1855, perdeu uma perna em 1838 na Guerra dos Pastéis (o conflito com a França por dívidas a comerciantes franceses) e saiu do país exilado depois do último governo.

Nos Estados Unidos, procurava investidores para financiar uma volta armada. O chicle era o que ele tinha de mais vendável, e Staten Island era um endereço barato perto do porto de Nova York.

Segundo o relato da família Adams, o general tinha o hábito de mascar pedaços da própria seiva. O inventor viu a cena em Staten Island sem dar importância a ela.

Adams não estava errado ao tentar. O chicle é um látex aparentado ao da seringueira, mas tem uma proporção maior de resinas, e a mistura não firmava nem com enxofre, nem com calor, nem com borracha comum misturada.

O chiclete nasceu da desistência: Adams só pensou em mascar a seiva depois que a borracha falhou.

A ponte entre o fracasso e o produto foi a memória. Na farmácia, diante da menina com a goma de parafina, Adams juntou dois fatos que já conhecia: o general mascava chicle, e o depósito estava cheio dele.

Santa Anna não ficou com nada da invenção. O negócio da borracha não rendeu dinheiro, o exército nunca saiu do papel, e o general deixou Nova York antes que a goma de Adams virasse indústria.

A família Adams ficou com a seiva e com a ideia. O acordo com o general cobria a matéria-prima, e a receita de mascar nasceu inteira dentro da oficina de Thomas Adams.

 

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III  O problema que ela resolveu

A goma de pinheiro esfarelava

O problema era a textura. Antes do chicle, quem quisesse mascar alguma goma nos Estados Unidos tinha duas opções ruins nas prateleiras.

A primeira era a resina de abeto, árvore de pinheiro das florestas do Maine. John B. Curtis vendia essa resina em blocos desde 1848, com o nome de State of Maine Pure Spruce Gum (goma pura de abeto do estado do Maine).

A resina era amarga, esfarelava na boca e grudava. A segunda opção, a parafina adoçada, derretia com o calor da língua e perdia a forma em pouco tempo.

O chicle aguentava horas de mastigação sem derreter nem esfarelar. E, por não ter gosto nenhum, servia de base neutra para qualquer sabor que o fabricante quisesse acrescentar.

O chicle resolveu a textura: segurava a forma na boca por horas e aceitava qualquer sabor.

DO BALCÃO À FÁBRICA

A goma sem gosto virou indústria em poucos anos:

1.  1871: a máquina patenteada de Adams passa a cortar a massa em tiras.

2.  1884: chega a Black Jack, goma com sabor de alcaçuz (a raiz doce usada em balas pretas).

3.  1888: a Tutti-Frutti vira produto das primeiras máquinas automáticas de venda dos Estados Unidos, instaladas nas plataformas do trem elevado de Nova York.

4.  1899: a empresa de Adams se funde com outros fabricantes e forma a American Chicle Company.

A demanda mudou a floresta. No sul do México e na Guatemala, os chicleros (os extratores de chicle) subiam no sapotizeiro e cortavam o tronco em zigue-zague com facão, para a seiva escorrer até um saco no chão.

A seiva era fervida no próprio acampamento até virar bloco, e os blocos seguiam em lombo de mula até os portos. O caminho da matéria-prima repetia, em escala de fábrica, a panela da cozinha de Adams.

A Black Jack sobreviveu por mais de um século. A marca saiu de linha e voltou às prateleiras algumas vezes, e é a goma americana com sabor mais antiga ainda à venda.

O chicle natural também perdeu espaço. A partir da década de 1940, os fabricantes trocaram a seiva por bases sintéticas, mais baratas e estáveis, e o sapotizeiro voltou a abastecer só algumas marcas artesanais do México.

A bolinha cinzenta de um centavo saiu da farmácia de Hoboken e virou máquina de plataforma, tira com sabor e empresa nacional, enquanto o homem que trouxe a seiva para Staten Island ficou sem a borracha e sem o exército.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde Santa Anna passou os últimos anos de vida, depois de deixar Nova York sem o exército que queria comprar?

★ RARO

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