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O carneiro que subiu antes de qualquer pessoa
Em Versalhes, em 19 de setembro de 1783, os irmãos Montgolfier puseram um carneiro, um pato e um galo no balão, e o voo durou oito minutos.
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Versalhes, 1783: o balão sobre o pátio do rei
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Uma gaiola de vime de pouco mais de um metro de lado, vara trançada e fundo de tábua, presa por cordas curtas debaixo da boca de um balão de papel e tafetá, a seda fina e lisa que os costureiros da época usavam em forro de casaco. Dentro da gaiola, três animais de fazenda escolhidos a dedo: um carneiro, um pato e um galo. O carneiro pesava o bastante para valer por um homem miúdo, o pato já subia sozinho a boa altura e o galo não passava de uma ave de quintal, que bate asa e cai. Os três foram carregados até o pátio de mármore de Versalhes na manhã de 19 de setembro de 1783.
O balão que os levaria tinha cerca de dezoito metros de altura e uns treze na maior largura, pintado de azul e ouro com o monograma de Luís XVI. O acabamento saiu das mãos de Jean-Baptiste Réveillon, fabricante de papel de parede que emprestou o jardim da própria fábrica para os ensaios. O tecido vinha em faixas verticais costuradas e presas por botões, com papel colado por dentro para segurar o ar.
Luís XVI e Maria Antonieta assistiram do palácio, com a corte no terraço e uma multidão espremida no pátio. Um braseiro de ferro queimando palha picada e lã velha ficou embaixo da abertura, preso ao chão. O tecido, murcho e sujo de fuligem, ganhou volume em poucos minutos e passou a puxar as cordas que oito homens seguravam.
As cordas foram cortadas por volta da uma da tarde. O balão subiu na frente do rei, entrou numa corrente de vento que o empurrou para o poente e sumiu de vista em menos tempo do que levara para encher.
O voo terminou a uns três quilômetros dali, no bosque de Vaucresson, depois de cerca de oito minutos no ar. Quando os cavaleiros chegaram ao ponto de pouso, o carneiro pastava tranquilo entre as árvores, o pato andava de um lado para o outro e o galo estava de pé com uma asa machucada.
Nenhum dos dois irmãos que construíram aquilo sabia direito o que empurrava o tecido para cima. A explicação que eles defendiam em público estava errada, e a máquina funcionava do mesmo jeito. O motivo cabe inteiro num braseiro de palha úmida.
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I A invenção de hoje
Papel, tafetá e palha queimando no chão
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Joseph-Michel Montgolfier e Jacques-Étienne Montgolfier fabricavam papel em Annonay, no sul da França, na fábrica que a família tocava havia gerações. O aerostato, nome de época para a máquina, era um saco de ar virado de cabeça para baixo: tafetá por fora, papel colado por dentro, faixas verticais unidas por quase dois mil botões e uma abertura redonda embaixo, por onde o ar aquecido entrava.
Debaixo dessa abertura queimavam palha picada e lã velha, às vezes sapato usado. O material foi escolhido pela fumaça: densa, branca, de cheiro pesado. Os irmãos acreditavam que a fumaça era o segredo, um fluido novo batizado por eles de gás de Montgolfier, leve por natureza própria e capaz de puxar o tecido para o alto.
A física de verdade é mais simples e não tem fluido nenhum. Ar aquecido se expande: a mesma quantidade de ar passa a ocupar mais espaço, o saco cheio de ar quente fica mais leve que o volume de ar frio que ele empurra para fora do caminho, e o que sobra de peso vira subida. Fumaça não ajuda em nada. A fuligem suja o tecido, tapa os poros do papel e acrescenta peso morto.
O engano de teoria custou pouco porque a receita de oficina estava certa. Palha seca pega fogo rápido e dá chama alta, lã úmida arde devagar e segura a temperatura, e a mistura das duas mantém o calor pelo tempo de encher o balão e ainda sobrar empuxo.
A manhã de Versalhes seguiu quatro etapas, executadas na frente da corte.
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1. Montagem. O tecido foi estendido no pátio e suspenso por uma armação de madeira, com a boca virada para baixo sobre o braseiro já aceso.
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2. Enchimento. Os ajudantes alimentaram o fogo com braçadas de palha e lã, empurrando o ar quente para dentro até o saco ficar redondo e começar a puxar.
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3. Embarque. A gaiola de vime foi pendurada nas cordas da boca do balão e os três animais entraram, o carneiro primeiro.
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4. Corte. Ao sinal, os homens que seguravam as cordas soltaram tudo ao mesmo tempo, para o balão sair reto e não raspar na armação.
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O balão de Versalhes voou com o fogo no chão. O braseiro ficou preso ao pátio e só serviu para encher o tecido; assim que as cordas foram cortadas, o que restou lá em cima foi o ar já aquecido, esfriando a cada minuto. Oito minutos de voo não são pouco para uma máquina sem fonte de calor a bordo: são exatamente o tempo que aquele ar levou para chegar à temperatura do ar de fora.
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II Acidente ou projeto
A camisola que inchou perto da lareira
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A ideia não nasceu de um acidente de bancada. Ela veio de uma cena doméstica que Joseph-Michel Montgolfier levou a sério enquanto todo mundo em volta achava graça: pano estendido perto do fogo inchando e tentando subir. Em novembro de 1782, em Avignon, ele costurou uma caixa de tafetá do tamanho de um engradado, acendeu papel amassado embaixo da abertura e viu a caixa bater no teto do quarto.
O irmão recebeu a notícia por carta e repetiu o teste em Annonay, com caixa maior. Os dois passaram o inverno aumentando a escala dentro da fábrica de papel, que dava a matéria-prima de graça e a mão de obra acostumada a colar folha em folha sem deixar bolha.
Em 4 de junho de 1783, na praça de Annonay, eles soltaram o primeiro balão diante de uma plateia com autoridades da região. O aparelho subiu alto, andou uns dois quilômetros e caiu num terreno fora da cidade. A notícia chegou a Paris em dias, e a Academia Real de Ciências convidou Jacques-Étienne a repetir a demonstração na capital.
Havia pressa, e a pressa tinha nome. Em 27 de agosto de 1783, o físico Jacques Charles soltou no Campo de Marte um balão de seda emborrachada cheio de hidrogênio, gás mais leve que o ar e obtido por reação química, não por fogo. Aquele balão pousou na aldeia de Gonesse e foi despedaçado a forcado pelos camponeses, que nunca tinham visto aquilo antes. Duas escolas técnicas passaram a disputar o mesmo céu: o ar quente dos fabricantes de papel e o hidrogênio dos químicos.
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"Alguém me perguntou de que serve um balão. Respondi: de que serve um recém-nascido?"
Benjamin Franklin, carta a Joseph Banks, Passy, 1783
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Os relatos de época contam que a escolha dos passageiros passou pela corte antes de passar pela ciência. Cogitou-se mandar dois condenados em troca de perdão, e a proposta foi abandonada. Os animais ganharam por serem o teste mais limpo: o carneiro tem pulmão e circulação parecidos com os de uma pessoa e nunca saiu do chão, o pato voa alto por conta própria e serviria de controle, e o galo, ave de voo curto, cobriria o meio do caminho. O carneiro foi batizado de Montauciel, que quer dizer sobe-ao-céu.
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Réveillon entrou no projeto pelo lado prático. A fábrica de papel de parede dele, no bairro de Saint-Antoine, tinha pátio grande, caldeiras, tinta e gente treinada em pintar superfície enorme sem borrar. O azul e o ouro do balão de Versalhes, com signos do zodíaco e o monograma real, saíram daquela oficina.
O que aconteceu com a asa do galo continua sem resposta firme. Uma das testemunhas registrou que o carneiro pisou ou coiceou a ave dentro da gaiola ainda no pátio, antes de o balão sair do chão; outros relatos atribuem o estrago ao tombo do pouso. Nenhuma das duas versões foi provada, e o episódio virou a primeira discussão de segurança de voo da história, travada por causa de um galo mancando.
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