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O caldo de alga que revelou o 5º gosto

Em Tóquio, Kikunae Ikeda ferveu kombu até isolar o glutamato, patenteou o tempero em 1908 e viu o pó virar Ajinomoto.

Cristais brancos de glutamato ao lado de uma tira de kombu seca, num laboratório de Tóquio.

Tóquio, 1908: o gosto do caldo virou cristal

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Um cristal branco e quebradiço, do tamanho de um grão de sal grosso, que na língua não lembra sal, açúcar, limão nem café. Ele saiu de uma tira de kombu (alga marinha seca, parda e grossa como couro) e explicou por que um caldo de alga fervida parece ter carne dentro.

Foi preciso ferver alga em panelas de laboratório por semanas para chegar a ele. A alga vinha seca, em folhas compridas, igual à vendida nos mercados de Tóquio para fazer o dashi (o caldo básico da cozinha japonesa).

O dashi era antigo. Cozinheiros japoneses o preparavam havia séculos deixando kombu de molho em água quente, às vezes com lascas de peixe seco. Todo mundo sabia que o caldo deixava a sopa mais saborosa. Ninguém sabia dizer qual substância fazia o trabalho.

A ciência da época também não ajudava. Os manuais de fisiologia (o estudo de como o corpo funciona) listavam quatro gostos básicos: doce, salgado, azedo e amargo. O sabor do caldo não cabia em nenhum deles, e os livros simplesmente não falavam dele.

Um químico de Tóquio resolveu tratar a panela de sopa como problema de laboratório. Ele queria isolar o responsável pelo gosto, dar a ele uma fórmula química e, se possível, vendê-lo em pó para qualquer cozinha do país.

O plano tinha três partes difíceis. Primeiro, separar uma única substância de uma alga cheia de sais, açúcares e minerais. Depois, provar que aquela substância, sozinha, reproduzia o gosto. Por último, achar um jeito barato de fabricá-la em grande quantidade.

As três deram certo em pouco tempo. O cristal ganhou uma patente japonesa em 1908, uma marca comercial no ano seguinte e um gosto com nome próprio, que levou quase um século para ser aceito pela ciência do Ocidente.

Para entender como uma panela de alga chegou a um escritório de patentes, é preciso começar por um jantar em casa e por uma viagem à Alemanha.

Continue lendo ↓

 
 

I  A invenção de hoje

A panela de tofu na casa de Ikeda

Kikunae Ikeda nasceu em Quioto, em 1864, e se formou em química pela Universidade Imperial de Tóquio em 1889. Foi lá que passou a maior parte da carreira, primeiro como aluno e depois como professor titular.

Em 1899, o governo japonês o mandou estudar na Alemanha. Ikeda passou quase dois anos em Leipzig, no laboratório de Wilhelm Ostwald, um dos fundadores da físico-química (o ramo que estuda as reações pelas leis da física) e Nobel de Química em 1909.

A temporada mudou a forma como ele olhava a comida. Ikeda reparou na altura e na força física dos alemães e atribuiu parte da diferença à dieta. Também notou que tomate, queijo, aspargo e carne tinham, por trás do sal e do doce, um sabor parecido entre si.

De volta a Tóquio, em 1901, ele carregava as duas ideias juntas. Se a comida simples do Japão, à base de arroz e legumes, ficasse mais gostosa, as pessoas comeriam melhor. E o segredo do sabor talvez fosse uma substância só.

O JANTAR DE 1907

A versão contada pela empresa que nasceu da invenção começa em casa. Em 1907, a mulher de Ikeda serviu yudofu (tofu cozido num caldo de kombu). O professor provou o caldo e reconheceu nele o mesmo sabor de fundo que tinha sentido no tomate e no queijo europeus.

Não há documento do jantar além do relato da família e da empresa, e por esse caminho ele deve ser lido: uma lembrança, não um registro de laboratório. O certo é que, naquele ano, Ikeda já tinha decidido descobrir o que havia dentro do kombu.

A escolha da alga tinha lógica. O kombu era o ingrediente mais simples do dashi, vendido seco e barato, e não tinha gordura nem proteína de carne para confundir a análise.

Ikeda deu um nome ao sabor antes mesmo de isolá-lo. Juntou umai (delicioso, em japonês) com mi (gosto) e chegou a umami, algo como “gosto saboroso”.

No artigo em que apresentou a descoberta, publicado em 1909 na revista da Sociedade Química de Tóquio, ele explicou por que o gosto merecia lugar próprio: “Existe um gosto comum a aspargos, tomates, queijo e carne, bem diferente dos quatro gostos conhecidos.”

O umami começou como uma hipótese de cozinha: Ikeda sentiu o mesmo sabor de fundo no tomate europeu e no caldo de kombu da própria casa.

A frase do artigo ficou décadas sem eco fora do Japão. Os fisiologistas europeus seguiram ensinando quatro gostos, e o quinto continuou restrito aos laboratórios japoneses até o fim do século 20.

 
 

II  Acidente ou projeto

Uma alga reduzida a pó branco

A descoberta de Ikeda foi projeto do começo ao fim. Ele sabia o que procurava, um sabor, e montou o trabalho para eliminar todo o resto até sobrar a substância que o produzia.

O caminho tinha uma vantagem. A química alemã já conhecia o ácido glutâmico, um aminoácido (peça que forma as proteínas) isolado em 1866 pelo químico Karl Heinrich Ritthausen a partir do glúten do trigo, daí o nome. Ninguém, porém, tinha ligado aquela molécula a gosto nenhum.

COMO O CRISTAL SAIU DA ALGA

O trabalho no laboratório da Universidade Imperial de Tóquio seguiu quatro passos:

1.  Ikeda ferveu quilos de kombu em água e coou o caldo, como se fosse preparar um dashi enorme.

2.  Concentrou o líquido por evaporação até que o sal comum e outros minerais cristalizassem e fossem retirados.

3.  Separou o que restava com reagentes químicos, fração por fração, provando cada uma para ver qual guardava o sabor.

4.  Chegou a cristais que, dissolvidos em água, devolviam o gosto do caldo. A análise mostrou que eram ácido glutâmico.

Quilos de alga renderam poucos gramas de cristal. Para virar produto de cozinha, o glutamato precisava de outra fonte e de outra forma.

A forma veio primeiro. O ácido puro dissolvia mal e tinha um toque azedo. Ikeda testou sais do glutamato e ficou com o glutamato monossódico (o ácido ligado a um átomo de sódio), que dissolve fácil, não empedra com a umidade e tem o sabor mais limpo.

A fonte veio em seguida. Em vez de alga, Ikeda propôs usar proteína vegetal barata, como o glúten de trigo, e quebrá-la por hidrólise (reação em que a água, com ajuda de ácido, parte a proteína em pedaços menores). O glutamato saía dessa mistura e era purificado.

A PATENTE DE 1908

Em 25 de julho de 1908, o escritório japonês de patentes registrou o pedido de Ikeda sob o número 14805: um método de fabricar tempero tendo o glutamato como ingrediente principal.

O que Ikeda patenteou foi o processo: a receita para tirar glutamato de proteína barata e transformá-lo num pó que qualquer cozinha pudesse usar.

A patente protegia o processo no Japão. Faltava alguém disposto a montar uma fábrica e convencer as donas de casa a pôr um pó branco desconhecido na panela.

 

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III  O problema que ela resolveu

O gosto que ninguém sabia nomear

O problema que o glutamato resolveu era prático: deixar saborosa uma comida pobre em carne. No Japão do começo do século 20, a maior parte das famílias comia arroz, legumes e conservas, e o caldo era o que dava corpo ao prato.

Fazer um bom dashi pedia tempo e ingredientes caros, como kombu de primeira e katsuobushi (bonito, um peixe parecido com o atum, defumado e seco até ficar duro como madeira). O pó de Ikeda entregava parte daquele sabor com uma pitada.

O sócio apareceu rápido. Saburosuke Suzuki II, empresário que já extraía iodo de algas marinhas, comprou a ideia e assumiu a produção. Em 1909, o tempero chegou às lojas com a marca Ajinomoto, que em japonês quer dizer “essência do sabor”.

As primeiras vendas foram lentas. O produto vinha em frascos pequenos de vidro, custava caro e enfrentava a desconfiança de quem nunca tinha comprado sabor em pó. A empresa apostou em anúncios voltados às donas de casa e em restaurantes, e o consumo cresceu ao longo dos anos 1910 e 1920.

OS PARENTES DO GLUTAMATO

A pesquisa japonesa continuou depois de Ikeda. Em 1913, Shintaro Kodama, aluno dele, encontrou no katsuobushi outra substância com gosto umami, o inosinato.

Em 1957, Akira Kuninaka achou uma terceira, o guanilato, no cogumelo shiitake seco. Ele mostrou também que o glutamato misturado a essas substâncias produz um sabor bem mais intenso que cada uma delas separada.

O método de fabricação mudou na mesma época. Em 1956, Shukuo Kinoshita, da empresa Kyowa Hakko, descobriu uma bactéria que solta glutamato quando fermenta açúcar. A fermentação substituiu a hidrólise do trigo e é o processo usado hoje nas fábricas de glutamato.

A aceitação científica fora do Japão veio só no século 21. Em 2002, a equipe do biólogo Charles Zuker publicou na revista Nature a descrição de um receptor na língua, formado pelas proteínas T1R1 e T1R3, que reage ao glutamato. Com um sensor próprio identificado, o umami entrou para a lista dos gostos básicos.

Ikeda não viu o reconhecimento: viveu até 1936, em Tóquio. Em 1985, o escritório japonês de patentes o incluiu entre os dez grandes inventores do país.

O glutamato venceu porque pôs numa pitada o sabor que antes pedia horas de caldo, e a ciência levou quase um século para encontrar na língua o sensor que o explicava.

O cristal branco que saiu da tira de kombu fervida é o glutamato que enche hoje cada frasco de Ajinomoto, agora feito por fermentação. A primeira receita dele continua guardada na patente 14805, de 1908.

“Qual prato da sua cozinha você acha que tem mais umami?”

 
 

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Em que ano o pó de glutamato de Ikeda chegou às lojas japonesas com a marca Ajinomoto?

A1901, ano em que Ikeda voltou de Leipzig para Tóquio
B1907, ano do jantar de yudofu na casa de Ikeda
C1909, ano do lançamento nas lojas
D1908, ano do registro da patente

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