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O boneco de ventríloquo que estreou a TV em 1925

No Soho, John Logie Baird pôs uma cabeça de boneco sob lâmpadas que queimavam pele e fez a 1ª imagem com sombras em 30 linhas.

Cabeça de boneco de ventríloquo com a tinta chamuscada diante de um disco giratório num sótão de Londres.

Soho, 1925: a cabeça do boneco em 30 linhas

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Uma cabeça de boneco de ventríloquo, pintada à mão, com a tinta do rosto chamuscada e a imagem recortada em 30 faixas de luz. Ela foi a primeira cena com sombras e meios-tons que um aparelho mandou de um cômodo a outro, num sótão de Londres, em 2 de outubro de 1925.

O boneco tinha apelido, Stooky Bill, e nenhum papel de teatro naquela sala. Estava ali porque aguentava horas parado sob lâmpadas fortíssimas sem piscar, suar ou pedir para sair.

O aparelho que o captava não tinha tubo nem tela de vidro. Era uma montagem de discos de papelão girando, lentes de bicicleta, uma lata de biscoito, agulhas de cerzir e cera de lacre, presa sobre uma mesa velha por um engenheiro escocês quase sem dinheiro.

A imagem que chegava ao receptor tinha o tamanho de um selo postal. Era alaranjada, tremida e escura nas bordas. Mesmo assim, dava para distinguir olhos, nariz, boca e a linha do queixo.

Para chegar a ela, três etapas precisavam funcionar juntas. A luz de cada ponto da cena tinha que virar corrente elétrica, a corrente tinha que atravessar um fio, e no destino a luz tinha que renascer na ordem certa, faixa por faixa, rápido o bastante para o olho montar um rosto inteiro.

Nenhuma dessas etapas era nova. Engenheiros europeus desenhavam máquinas de ver a distância desde a década de 1870, e várias chegaram ao papel das patentes. Nenhuma tinha mostrado um rosto reconhecível.

O boneco guardava, no próprio rosto, o preço daquela conquista. A tinta queimada era a marca da lâmpada de arco (luz produzida por uma faísca contínua entre duas pontas de carvão) que o inventor precisava usar, porque o sensor dele só enxergava com luz demais.

Para entender como um sótão alugado venceu laboratórios com muito mais verba, é preciso começar por um escocês de saúde ruim e por um disco cheio de furos.

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I  A invenção de hoje

Um disco furado num sótão do Soho

John Logie Baird nasceu em Helensburgh, na Escócia, em 1888, filho de um pastor presbiteriano. Estudou engenharia elétrica em Glasgow e passou a vida inteira com a saúde frágil, entre resfriados longos e problemas de circulação.

Antes da televisão, tentou ganhar dinheiro com tudo. Vendeu meias especiais contra o frio nos pés, sabonete e geleia. Também tentou fabricar diamante aquecendo grafite com corrente elétrica e só conseguiu derrubar a energia de parte de Glasgow.

Em 1923, doente, mudou-se para Hastings, no litoral sul da Inglaterra. Foi num quarto alugado ali que montou o primeiro aparelho, com sucata e peças compradas em lojas de ferragem.

O DISCO DE NIPKOW

A peça central não era dele. Em 1884, em Berlim, o estudante Paul Nipkow patenteou um disco com furos dispostos em espiral. Girando diante de uma cena, cada furo varre uma faixa estreita dela, e o disco inteiro desmonta a imagem em linhas, uma depois da outra.

A outra metade vinha do selênio. Em 1873, o engenheiro inglês Willoughby Smith publicou que esse elemento conduz mais eletricidade quando recebe luz. Atrás do disco, Baird pôs uma célula fotoelétrica (peça que transforma luz em corrente), que convertia o brilho de cada ponto num sinal mais forte ou mais fraco.

No receptor, o caminho se invertia. Um segundo disco, girando na mesma velocidade do primeiro, passava diante de uma lâmpada de néon que acendia mais ou menos conforme o sinal. O olho de quem assistia juntava as faixas e via a cena.

Em Hastings, Baird conseguiu mandar silhuetas, como o contorno de uma cruz recortada em papelão. Ali também levou um choque de 1.200 volts do próprio aparelho, e o senhorio pediu que ele deixasse o quarto.

Ainda em 1924, ele se mudou para Londres e alugou dois cômodos no sótão do número 22 da Frith Street, no Soho. Em abril de 1925, a loja de departamentos Selfridges pagou para exibir as silhuetas ao público durante três semanas.

Silhueta, porém, era só contorno preto sobre fundo claro. O desafio real era o meio-tom: mostrar a diferença entre a testa iluminada e a sombra do nariz.

Baird descreveu o momento em que conseguiu, nas memórias “Sermons, Soap and Television” (Sermões, sabão e televisão), publicadas em 1988: “A imagem da cabeça do boneco se formou na tela com o que me pareceu uma nitidez quase inacreditável.”

O que Baird resolveu no Soho foi o meio-tom: pela primeira vez, a máquina de Nipkow mostrou sombra, volume e expressão, e deixou de mostrar só contorno.

As 30 linhas eram verticais, e a imagem se renovava cerca de cinco vezes por segundo. Bastava para reconhecer um rosto, mas cada movimento brusco virava um borrão alaranjado.

 
 

II  Acidente ou projeto

O boneco que aguentava o calor

A televisão de Baird foi projeto: ele sabia o que queria mostrar desde Hastings e passou dois anos melhorando a mesma montagem. O boneco na frente da câmera, esse sim, nasceu de um problema que ele não conseguiu contornar.

A célula de selênio respondia devagar e com pouca força. Para que ela distinguisse claro de escuro, a cena precisava receber uma quantidade enorme de luz, e Baird usava lâmpadas de arco e bulbos potentes a poucos centímetros do alvo.

Rosto humano não suportava a montagem por muito tempo. O calor ardia na pele, a claridade cegava, e quem sentava ali se mexia, piscava e desistia. Um boneco de ventríloquo, com a boca pintada e o queixo articulado, ficava parado o tempo que fosse preciso.

O preço apareceu no próprio Stooky Bill. A tinta do rosto escureceu e descascou com o calor, e o boneco ficou com as marcas de queimadura que ainda carrega.

MEIA COROA PARA FICAR PARADO

A sequência de 2 de outubro de 1925 foi contada por Baird e pelo próprio rapaz que participou dela:

1.  Baird ajustou o transmissor e viu, no receptor do cômodo vizinho, a cabeça do boneco com sombras e meios-tons.

2.  Desceu as escadas até o escritório da Cross Court Films, no andar de baixo, e chamou o primeiro funcionário que encontrou, William Edward Taynton, de 20 anos.

3.  Taynton sentou-se sob as lâmpadas e recuou com o calor e a claridade. Baird ofereceu meia coroa (moeda de 2 xelins e 6 pence) para ele aguentar.

4.  Na segunda tentativa, o rapaz ficou parado com a cabeça na posição certa, e o rosto dele apareceu no receptor. Foi a primeira pessoa televisionada.

O sucesso pedia testemunha. Em 26 de janeiro de 1926, Baird recebeu no sótão cerca de 40 membros da Royal Institution, a sociedade científica de Londres, e um repórter do jornal The Times.

A sala era tão pequena que os visitantes subiram em grupos de seis. Cada um sentou-se diante do transmissor e viu o próprio rosto, ou o de um colega, no receptor do outro cômodo.

O The Times publicou dois dias depois que a imagem era “borrada e tênue”, mas que mostrava movimento e rostos reconhecíveis. A partir dali, o inventor do Soho ganhou investidores e uma empresa própria.

O boneco entrou na história por um defeito: o sensor de Baird só enxergava com luz demais, e só um rosto de madeira pintada aguentava o calor.

O defeito acabou corrigido com o tempo. Células mais sensíveis e amplificadores melhores permitiram usar menos luz, e os apresentadores passaram a sentar diante das câmeras sem queimar a pele.

 

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III  O problema que ela resolveu

A cena ao vivo de longe

O problema que a televisão de Baird resolveu era antigo: mostrar uma cena em movimento, no instante em que ela acontece, a quem está longe dela. O telégrafo mandava letras, o telefone mandava voz, e o cinema mostrava movimento, mas sempre gravado antes.

Baird provou que a imagem podia viajar como a voz. Em 1927, mandou imagens de Londres a Glasgow por linha telefônica, num trajeto de cerca de 700 quilômetros.

Em fevereiro de 1928, cruzou o oceano. O sinal saiu de um transmissor de ondas curtas em Coulsdon, perto de Londres, e foi recebido em Hartsdale, nos arredores de Nova York, onde um engenheiro reconheceu o rosto de um colega da empresa.

O APARELHO NA SALA DE CASA

Em setembro de 1929, a BBC começou transmissões experimentais com o sistema de 30 linhas. A empresa de Baird vendeu o Televisor, um receptor com disco giratório e janela pequena, montado ou em kit para quem quisesse soldar em casa.

Os programas ocupavam meia hora, tarde da noite. Mostravam cantores, dançarinos e apresentadores em close, porque o formato não comportava cena larga.

O disco, porém, tinha limite físico. Mais linhas pediam mais furos, um disco maior e rotação mais rápida, e a máquina ficava grande e barulhenta.

No mesmo período, a televisão eletrônica avançava. Ela varria a imagem com um feixe de elétrons dentro de um tubo de vidro, sem peça girando. Em novembro de 1936, a BBC passou a alternar, em Alexandra Palace, o sistema de Baird, então com 240 linhas, e o da Marconi-EMI, eletrônico, com 405.

O teste durou poucos meses. Em fevereiro de 1937, a BBC escolheu o sistema eletrônico e desligou o de Baird. Ele seguiu pesquisando televisão em cores e em relevo até 1946, quando se foi em Bexhill-on-Sea, aos 57 anos.

A televisão de Baird perdeu a disputa técnica, mas foi a primeira a provar, diante de testemunhas, que um rosto podia viajar por um fio e chegar reconhecível.

Stooky Bill continua inteiro, guardado pela família Baird, com a tinta queimada que as lâmpadas de 1925 deixaram no rosto. É a cabeça de boneco de ventríloquo que ganhou as primeiras 30 linhas de televisão da história.

“Que cena da sua vida você gostaria de ter visto ao vivo, mesmo em 30 linhas tremidas?”

 
 
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Quanto Baird ofereceu ao rapaz para ele aguentar o calor das lâmpadas no sótão?

AUm xelim
BUma libra esterlina
CMeia coroa (2 xelins e 6 pence)
DCinco xelins

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