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ED 034
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O bloco que saiu do reator e não voltou a derreter

Leo Baekeland fechou fenol com formaldeído sob pressão em Yonkers, em 1907, atrás de um substituto para a goma raspada dos galhos.

Yonkers, 1907: o bloco de resina escura recém-saído do vaso de aço fechado.

Yonkers, 1907: o bloco fora do vaso de aço

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Um disco de resina cor de âmbar queimado, pouco mais de dois centímetros de espessura, com a marca circular do fundo do vaso gravada embaixo. Foi o que sobrou de uma batelada cozida dentro de um recipiente de aço fechado, num laboratório montado nos fundos de uma casa em Yonkers, no estado de Nova York, em 1907. O disco não amolecia na chama, não dissolvia em álcool, em éter nem em ácido, e não tinha saído de planta, animal ou inseto nenhum.

O material que ele foi feito para substituir saía de um inseto. A goma-laca é a secreção endurecida que a fêmea de um besouro asiático deposita sobre os galhos das árvores onde se instala, raspada da casca, derretida, filtrada e vendida em escamas finas. Dissolvida em álcool, virava o verniz isolante que cobria bobina, fio e chave de porcelana na indústria elétrica que crescia depressa.

A conta da matéria-prima não fechava. Uma quantidade enorme de insetos precisava passar meses sobre o galho para produzir um punhado de escamas, a colheita dependia de safra, de clima e de barco vindo da Ásia, e a demanda por isolante subia no ritmo da eletrificação das cidades, que não esperava safra nenhuma.

A química que resolveu o problema já era conhecida e já tinha sido descartada. Adolf von Baeyer descreveu em 1872 que fenol e formaldeído juntos davam uma massa resinosa insolúvel, e a reação ficou com fama de acidente de bancada: o produto grudava no vidro, não dissolvia em solvente nenhum e arruinava o frasco. Por três décadas, quem tentou trabalhar com aquela mistura tentou justamente evitar o sólido duro que ela insistia em formar.

Baekeland entrou pela porta contrária. Ele queria exatamente o sólido duro, e passou a atacar o que impedia esse sólido de sair uniforme: a água gerada na própria reação, que fervia, virava vapor e deixava a massa cheia de bolhas e trincas antes de terminar de endurecer.

A resposta estava em fechar a panela.

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I  A invenção de hoje

O vaso de aço que cozinha sob pressão

O aparelho que resolveu a fabricação era um cilindro de aço rebitado com tampa parafusada, do tamanho aproximado de um botijão de cozinha, com manômetro, válvula e uma cesta interna onde entravam as formas. Baekeland chamou o equipamento de Bakelizer, e ele funcionava como uma panela de pressão de laboratório.

A pressão fazia um serviço específico. A reação entre fenol e formaldeído libera água, e num recipiente aberto essa água vira vapor e espuma a massa por dentro; com o vaso fechado a alguns quilos de pressão, a água fica dissolvida na resina em vez de escapar, e o bloco endurece denso, sem bolha e sem trinca interna.

O fenol vinha do alcatrão de hulha, subproduto barato das usinas de gás e coque. O formaldeído vinha da oxidação do metanol. Duas moléculas industriais de preço baixo, com um catalisador ácido ou básico para escolher o caminho, davam um material que nenhuma plantação e nenhuma criação de inseto precisava fornecer.

O que acontece dentro do vaso não é uma cadeia comprida se dobrando, é uma rede. Cada anel de fenol tem mais de um ponto disponível para receber a ponte de carbono que o formaldeído oferece, e o resultado é uma malha tridimensional em que os pontos ficam amarrados uns aos outros em todas as direções.

A rede é o motivo de o material não voltar atrás. O celuloide amolece no calor porque suas moléculas são fios longos que apenas deslizam entre si; a resina de Baekeland não tem fio para deslizar, e por isso ela suporta o calor até carbonizar, mas nunca fica mole de novo.

A produção seguia três etapas, e cada uma parava a reação num ponto diferente:

1.  O primeiro estágio saía do vaso como um líquido espesso e ainda solúvel, próximo de um verniz, capaz de encharcar papel, tecido ou madeira antes de qualquer endurecimento.

2.  O estágio intermediário era um sólido quebradiço, moído em pó fino e misturado a uma carga de farinha de madeira, fibra ou pó mineral, que dava corpo à peça e reduzia a trinca por retração.

3.  O pó carregado ia para um molde de aço aquecido, sob prensa, e ali terminava de curar em poucos minutos, saindo já com a forma final, rosca, furo e detalhe de superfície prontos.

O material cobrou três preços por essas qualidades. Ele não podia ser refundido nem reaproveitado, saía sempre em tons escuros de castanho, vermelho fechado e preto, por causa do próprio fenol e da carga, e sem essa carga misturada ao pó a peça pura trincava com facilidade.

Em troca, entregou um conjunto raro para a época: não conduzia eletricidade, aguentava a temperatura de uma lâmpada ou de um motor sem deformar, resistia a solvente e a ácido diluído, e ainda podia ser torneado, furado e polido como se fosse madeira dura.

 
 

II  Acidente ou projeto

A goma raspada dos galhos

Leo Baekeland nasceu em Gante, na Bélgica, em 1863, filho de um sapateiro, e fez doutorado em química antes dos vinte e cinco anos. Mudou-se para os Estados Unidos em 1889 e passou a trabalhar com fotografia, o campo que lhe deu independência financeira.

O primeiro invento dele foi um papel fotográfico. O Velox permitia revelar cópias sob luz artificial de lâmpada, em vez de exigir luz do sol, e a Eastman Kodak comprou a patente em 1899 por uma quantia que tirou Baekeland da necessidade de trabalhar por salário para o resto da vida.

Foi essa venda que pagou a bancada de Yonkers. Ele montou um laboratório particular nos fundos da própria casa, com equipamento pesado e um assistente, e passou a escolher os problemas que queria atacar em vez de aceitar encomenda.

O problema escolhido tinha nome, mercado e um gargalo visível. O isolante da indústria elétrica dependia de goma-laca, e goma-laca dependia de inseto, de galho e de safra, num momento em que a eletrificação urbana multiplicava a demanda por bobina isolada, chave, base de lâmpada e componente de motor.

Quem tentou fenol e formaldeído antes dele buscava outro produto: um substituto do âmbar, do marfim ou da ebonite, ou seja, um material bonito, translúcido e trabalhável. O sólido insolúvel que a reação entregava era, para todos esses, o fracasso do experimento. Baekeland tratou o mesmo sólido como o produto, e passou a pesquisar como controlá-lo.

Controlar significava mexer em quatro variáveis ao mesmo tempo. A proporção entre fenol e formaldeído, o tipo de catalisador, a temperatura e a pressão do vaso decidiam se a batelada parava no estágio de verniz, no estágio de pó moldável ou já no bloco final, e o registro dessas combinações ocupou os cadernos de laboratório dele durante meses.

A data da virada está anotada em 1907, e o pedido de patente foi depositado no mesmo ano. A concessão saiu em dezembro de 1909, e no ano seguinte Baekeland fundou a General Bakelite Company para produzir o material em escala industrial.

O julgamento entre acaso e projeto, neste caso, não tem margem. Baekeland sabia qual propriedade queria, sabia qual matéria-prima barata usar, sabia por que os antecessores tinham desistido e construiu um equipamento específico para vencer a única barreira que restava. O acaso teria sido descobrir o sólido; o trabalho foi transformar o sólido em peça repetível.

O nome comercial saiu do sobrenome dele, e o símbolo escolhido para a marca foi o sinal matemático de infinito, com a letra B no meio, estampado no verso de milhões de peças moldadas nas décadas seguintes.

 

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III  O problema que ela resolveu

A corrente elétrica precisava de um isolante

O problema: a eletricidade doméstica e industrial precisava de peças que segurassem corrente, aguentassem o calor do próprio circuito e pudessem ser fabricadas aos milhares com forma complicada. A porcelana era pesada e quebradiça, a borracha endurecida se degradava com calor e luz, e o verniz de goma-laca amolecia justamente quando o equipamento esquentava.

A troca: o novo material abriu mão de poder ser refundido, de aceitar cor clara e de dispensar carga, e devolveu isolamento elétrico, estabilidade térmica, resistência química e a possibilidade de sair pronto do molde, com rosca e detalhe, em poucos minutos de prensa.

O que mudou: a peça de formato complicado deixou de depender de torno, de fundição ou de artesão. Um molde de aço passou a produzir milhares de unidades idênticas, e a forma do componente deixou de ser limitada pelo que a madeira, o metal ou a cerâmica permitiam.

A aplicação que puxou a produção foi o automóvel. A tampa de distribuidor de ignição precisava isolar corrente de alta tensão, num compartimento quente e vibrando, e a peça moldada resolveu de uma vez o formato, o isolamento e a resistência ao calor do motor.

O rádio veio logo em seguida. Botão, base de válvula, caixa e placa de terminais de aparelho doméstico passaram a sair do molde na década de 1920, e a mesma solução equipou o telefone: o corpo e o punho de aparelho preto daquele período são peças moldadas dessa resina.

A cozinha e a mesa também receberam o material, pelo lado do calor. Cabo de panela, cabo de ferro de passar e puxador de forno usavam a propriedade mais direta da rede tridimensional, que é continuar rígido e frio ao toque enquanto o metal ao lado ferve.

A limitação de cor abriu espaço para os sucessores. Resinas de ureia e depois de melamina, com formaldeído, deram peças brancas e coloridas para louça, botão e revestimento, e a resina de fenol recuou para onde a cor não importa: compensado colado, disco de freio, escova de motor, placa de circuito.

O disco escuro de Yonkers continua provando o mesmo ponto. O Bakelizer original que o produziu está guardado no Museu Nacional de História Americana, do Smithsonian, e o material que saía daquele cilindro de aço rebitado segue no mundo com a propriedade que os químicos de 1872 chamavam de acidente: uma vez curado, ele não derrete mais, nem volta a ser o que era.

"Qual defeito teimoso do seu trabalho é, na verdade, a propriedade que você deveria estar vendendo?"

 
 

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Baekeland depositou o pedido de patente da baquelite em 1907. Em que ano a patente foi concedida?

A1899, mesmo ano da venda do Velox pra Kodak
B1907, no mesmo ano do depósito
C1909, dois anos depois do depósito
D1872, ano da descoberta de von Baeyer

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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