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Lev Termen tocou música sem encostar no aparelho

Em 1920, num laboratório de Petrogrado, um medidor de gases mudou de nota com a mão por perto e virou o teremim.

Teremim de madeira com antena vertical e alça de volume, de Lev Termen, 1920.

O teremim de Lev Termen, 1920

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Uma vareta de metal fina, com pouco mais de meio metro de altura, espetada na vertical sobre uma caixa de madeira do tamanho de uma mala pequena. Ela prova que o corpo humano basta como peça de um circuito elétrico, mesmo sem tocar em fio nenhum.

A vareta é a antena do teremim, o primeiro instrumento musical tocado no ar. Quem toca fica de pé diante da caixa e mexe as mãos no vazio, como se regesse uma orquestra invisível.

A mão direita chega perto da vareta, e a nota sobe. Afasta, e a nota desce. A mão esquerda paira sobre uma segunda antena, curva como uma alça, e controla o volume.

O som parece um violino cantado por uma voz humana, com um tremor no fim de cada nota. Não existe tecla, corda, traste nem botão para marcar onde fica o dó ou o ré. O músico acha cada nota de ouvido, com a mão parada no ar.

O instrumento nasceu sem que ninguém procurasse música. Nasceu de um aparelho de medição, num laboratório de física de Petrogrado, a cidade russa hoje chamada São Petersburgo, em 1920.

A Rússia saía de uma revolução e estava no meio de uma guerra civil. Faltava comida, faltava lenha para aquecer os prédios, faltava peça de reposição para os aparelhos do laboratório.

Ali, um jovem físico montou um circuito para medir uma propriedade dos gases. O aparelho dava a leitura por um som num fone de ouvido: cada mudança no gás mudava a altura do apito.

Um dia, o apito mudou sem que o gás mudasse. A causa estava perto demais para ser notada de cara: a mão do próprio físico, parada a poucos centímetros do circuito.

Faltava saber quem era o físico, o que exatamente ele media e como um apito de laboratório chegou aos palcos de Nova York.

A seção I conta quem estava diante do aparelho e o que o circuito media.

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I  A invenção de hoje

O físico diante do apito

O físico era Lev Sergueievitch Termen, nascido em 1896 em São Petersburgo. Estudou física e astronomia na universidade da cidade e música no conservatório, onde aprendeu violoncelo.

A guerra interrompeu os estudos. Termen serviu no exército como engenheiro de rádio e cuidou de uma estação de transmissão perto da capital, o que lhe deu prática com válvulas e circuitos.

Em 1919, foi chamado ao Instituto Físico-Técnico de Petrogrado, dirigido pelo físico Abram Ioffe. Recebeu um laboratório pequeno e uma tarefa precisa: medir a constante dielétrica (o quanto um material atrapalha o campo elétrico que passa por ele) de gases em pressões e temperaturas diferentes.

O aparelho usava um capacitor, duas placas de metal separadas por um vão. O gás ocupava o vão. Cada gás mudava um pouco a capacitância (a capacidade de guardar carga elétrica) das placas.

A VÁLVULA QUE APITAVA

O capacitor fazia parte de um oscilador (circuito que vibra num ritmo fixo, milhares de vezes por segundo). Mudou a capacitância, mudou o ritmo da vibração.

Esse ritmo era alto demais para o ouvido. Termen então usou um truque comum no rádio da época, o heterodino (mistura de duas vibrações para dar uma terceira, mais lenta):

1.  Um oscilador fixo vibrava sempre no mesmo ritmo.

2.  Um segundo oscilador, ligado ao capacitor com o gás, vibrava num ritmo um pouco diferente.

3.  A diferença entre os dois caía na faixa da audição e saía no fone como um apito.

O gás mudava o ritmo, e o ritmo virava nota.

A montagem era sensível de propósito. Uma diferença mínima no gás tinha de aparecer no fone, senão a medição não servia.

Por isso o circuito reagia também ao que estivesse em volta. O corpo humano é feito quase todo de água salgada e conduz eletricidade. Uma mão perto do capacitor funcionava como uma terceira placa e mexia na capacitância.

Termen percebeu que o apito subia quando a mão se aproximava e descia quando ela se afastava. Em vez de blindar o aparelho contra a interferência, passou a mover a mão de propósito, procurando as notas de melodias que conhecia do violoncelo.

 
 

II  Acidente ou projeto

Do laboratório ao Kremlin

O teremim foi acidente na origem e projeto no resto. O apito que respondia à mão apareceu sem ser procurado; o instrumento afinado, com controle de volume e alcance de várias oitavas, levou anos de trabalho deliberado de Termen.

O primeiro problema era o volume. No aparelho de laboratório, o som saía sempre na mesma força, o que soava como uma sirene. Termen acrescentou um segundo circuito, ligado a uma antena em forma de alça, para a mão esquerda abaixar e subir o som.

Com as duas antenas, o músico conseguia separar uma nota da outra. Bastava baixar a mão esquerda sobre a alça para silenciar o instrumento entre uma nota e a seguinte.

O segundo problema era a afinação. A posição de cada nota no ar mudava com a umidade da sala, com a roupa de quem tocava e até com o público em volta. Termen pôs botões de ajuste na caixa para reafinar antes de cada apresentação.

O NOME DO INSTRUMENTO

No começo, ele chamou o aparelho de eterofone, porque o som parecia sair do éter (o ar vazio, na linguagem da física antiga). Na Rússia, o nome que pegou foi termenvox, a voz de Termen.

Em 1922, Termen foi chamado ao Kremlin, em Moscou, para mostrar o instrumento a Vladimir Lenin. Tocou peças clássicas, entre elas O Cisne, de Camille Saint-Saëns. Lenin quis experimentar e tentou uma melodia com as próprias mãos no ar.

O governo soviético viu no teremim uma vitrine da eletricidade no país novo.

Lenin queria levar luz elétrica a toda a Rússia, e um instrumento movido a válvula servia de propaganda. Termen passou a viajar pelo país com o teremim, tocando em salões e fábricas.

Em 1927, foi mandado para a Europa, onde lotou salas em Berlim, Paris e Londres. No fim do mesmo ano, embarcou para os Estados Unidos e se instalou em Nova York, onde passou a assinar Leon Theremin.

Em fevereiro de 1928, recebeu a patente americana do instrumento. Na Europa e nos Estados Unidos, o aparelho ganhou o nome do inventor: theremin, que em português virou teremim.

Nova York abriu portas. Termen montou um estúdio na rua 54, deu concertos no Carnegie Hall e vendeu a licença de fabricação para a RCA, a Radio Corporation of America, grande fabricante de rádios da época.

 

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III  O problema que ela resolveu

A orquestra sem toque

O problema que o teremim resolveu foi o do instrumento preso à mecânica. Até 1920, todo som musical saía de algo que vibrava por contato: corda puxada, pele batida, tubo soprado, martelo no piano. O teremim tirou o som de um circuito e deixou o corpo do músico conduzir a nota sem tocar em nada.

A RCA lançou o modelo de fábrica em 1929, com a promessa de que qualquer pessoa aprenderia a tocar em casa. A promessa falhou. Sem teclas para marcar as notas, quem não tinha ouvido absoluto desafinava, e o aparelho custava caro para a época. As vendas foram pequenas, e a crise de 1929 encerrou a linha.

A VIOLINISTA DO AR

Quem provou que o teremim era instrumento sério foi Clara Rockmore, violinista lituana radicada em Nova York. Uma doença nos ossos a afastou do violino ainda jovem, e ela trocou o arco pelas antenas.

Rockmore estudou com o próprio Termen e criou uma técnica de dedos: em vez de mover a mão inteira, abria e fechava os dedos para pular de uma nota a outra com precisão. Tocou com orquestras e gravou peças de Tchaikovsky e Rachmaninoff.

Sem tocar em nada, o músico passou a moldar o som com o corpo inteiro.

O cinema achou outro uso. O som trêmulo e sem corpo virou trilha de suspense e de ficção científica:

•  Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock, em 1945: o teremim marca as crises do protagonista, e a trilha de Miklós Rózsa ganhou o Oscar.

•  O Dia em que a Terra Parou, de 1951: a trilha de Bernard Herrmann usou dois teremins para a chegada do disco voador.

Um adolescente de Nova York, Robert Moog, começou nos anos 1950 vendendo teremins montados por ele mesmo em kits pelo correio. Com o dinheiro e o que aprendeu nos circuitos, criou nos anos 1960 o sintetizador Moog, que mudou o rock e a música pop.

Termen não acompanhou nada disso. Em 1938 voltou à União Soviética, foi preso no ano seguinte e mandado a um campo de trabalho forçado. Depois, trabalhou anos num laboratório fechado da polícia política, onde criou aparelhos de escuta.

O mais famoso foi um grampo escondido num brasão de madeira com a águia americana, dado de presente ao embaixador dos Estados Unidos em Moscou em 1945. Funcionava sem pilha nem fio, ativado por ondas de rádio mandadas de fora do prédio, e só foi achado em 1952.

O desfecho dele ficou conhecido só décadas depois. Em Nova York, muitos o deram por desaparecido. Termen viveu até 1993 e chegou aos 97 anos em Moscou, onde voltou a tocar o instrumento que levava o nome dele.

A vareta de metal de meio metro sobre a caixa de madeira segue nos palcos. É a mesma antena do laboratório de Petrogrado, onde a mão de Lev Termen mexeu no apito de um medidor de gases em 1920.

 
 
 

Quiz da edição

No laboratório de Petrogrado, o que fez o apito do aparelho de medição mudar de nota sem que o gás testado tivesse sido alterado?

AUma queda de energia elétrica na rede do instituto
BA troca de uma válvula por um modelo diferente
CA mão do próprio físico, parada perto do circuito
DA vibração de um bonde passando na rua

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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