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John O'Sullivan procurou buracos negros e achou o Wi-Fi

Um radioastrônomo australiano caçou um sinal do espaço, não ouviu nada e guardou a matemática que hoje limpa o eco da internet sem fio.

Antena parabólica de aço do radiotelescópio de Westerbork, Holanda, ao entardecer.

Westerbork: a antena do sinal ausente

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Uma antena parabólica de aço com 25 metros de diâmetro, uma de 14 iguais enfileiradas num campo plano de Westerbork, na Holanda. Nos últimos anos da década de 1970, ela ficou apontada para o céu à espera de um estalo de rádio, e o estalo nunca chegou.

Quem esperava o sinal era John O'Sullivan, engenheiro e radioastrônomo australiano, então pesquisador visitante no observatório holandês. Ele tinha pouco mais de 30 anos e uma ideia ousada: flagrar um buraco negro no instante em que ele some.

A hipótese vinha da física teórica. Um buraco negro bem pequeno perderia energia aos poucos e, no último momento, se desfaria num clarão. Se o clarão gerasse um pulso de rádio, uma antena grande poderia registrá-lo.

O problema era a sujeira no caminho. Entre a explosão e a Terra, o pulso atravessaria nuvens de gás e chegaria espalhado, borrado, com as frequências desalinhadas umas das outras.

O'Sullivan trabalhou numa forma de desfazer esse borrão. A ferramenta central era a transformada rápida de Fourier, conhecida pela sigla FFT (um cálculo que separa um sinal misturado nas frequências que o compõem).

A busca durou anos e terminou sem nenhuma detecção. Nenhum buraco negro explodiu à vista das antenas, e até hoje nenhum telescópio registrou um evento assim.

A matemática, porém, ficou guardada. Quinze anos depois, numa sala de laboratório em Sydney, ela voltaria a servir, agora contra um borrão bem mais doméstico: o do sinal de rádio que bate nas paredes de um escritório.

Dessa segunda vida nasceu a patente australiana de 1992 que deu à agência de pesquisa do governo australiano um lugar em quase todo aparelho com internet sem fio.

O caminho entre o céu holandês e o roteador da sala passa por um grupo pequeno de engenheiros e por um problema de eco.

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I  A invenção de hoje

Cinco engenheiros contra o eco

John O'Sullivan nasceu em 1951, em Sydney, e se formou em engenharia elétrica pela Universidade de Sydney. Entrou cedo na CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation, a agência federal de pesquisa científica da Austrália), na divisão de radiofísica.

A divisão tinha tradição em antenas. Construía radiotelescópios e sabia lidar com sinais fracos, distantes e misturados ao ruído de fundo do universo.

No começo dos anos 1990, a CSIRO procurava aplicações comerciais para esse saber. Os computadores começavam a se ligar em rede dentro dos escritórios, sempre por cabo, e ninguém tinha resolvido a versão sem fio em alta velocidade.

O'Sullivan montou o grupo com quatro colegas: Terence Percival, Graham Daniels, Diet Ostry e John Deane. A meta era transmitir dados por rádio dentro de um prédio, tão rápido quanto um cabo.

O obstáculo tinha um apelido entre os engenheiros: multipercurso (o sinal que chega ao receptor por vários caminhos ao mesmo tempo). Dentro de uma sala, a onda de rádio bate no teto, no chão, nas mesas e nas paredes.

Cada reflexo percorre uma distância diferente e chega com um pequeno atraso. O receptor ouve a mesma mensagem várias vezes, sobreposta, como uma voz gritada dentro de uma catedral.

Em baixa velocidade, o eco atrapalha pouco. Em alta velocidade, os pedaços da mensagem se encavalam e o receptor não distingue um dado do seguinte.

Os fabricantes da época tentavam vencer o eco com antenas melhores ou com potência maior. Nenhuma das saídas resolvia a raiz: enquanto cada dado fosse curto e rápido, o reflexo atrasado sempre cairia em cima do dado seguinte.

COMO A PATENTE DESFAZIA O ECO

A solução do grupo combinava três passos, e cada um atacava um lado do problema:

1.  Dividir os dados em muitas partes e mandar cada uma numa frequência própria, lenta o bastante para o eco não embaralhar.

2.  Usar a FFT para montar e desmontar essas frequências em velocidade, num chip barato.

3.  Espalhar a informação com códigos de correção de erro, para recompor no receptor o pedaço que o eco destruísse.

A patente de 1992 trocou uma corrida rápida num canal só por muitas caminhadas lentas em canais paralelos, e o eco perdeu força contra cada uma delas.

A técnica de dividir o sinal em várias frequências já existia na teoria, com a sigla OFDM (multiplexação por divisão de frequências ortogonais). O mérito do grupo foi o arranjo prático que fazia a ideia funcionar dentro de um prédio cheio de reflexos.

A CSIRO pediu a patente na Austrália em 1992. Nos Estados Unidos, o registro saiu em janeiro de 1996, sob o número 5.487.069, com o título “Wireless LAN” (rede local sem fio).

 
 

II  Acidente ou projeto

O buraco negro que ficou calado

A invenção do Wi-Fi da CSIRO juntou acaso e projeto, em doses separadas por quinze anos. O acaso foi a ferramenta. O projeto foi o uso.

A parte do acaso começa em 1974. Naquele ano, o físico britânico Stephen Hawking publicou na revista Nature um artigo curto, com uma pergunta no título: “Black hole explosions?” (Explosões de buraco negro?).

O texto propunha que buracos negros emitem radiação e encolhem. Os menores, formados logo depois do Big Bang, estariam chegando ao fim agora e terminariam num estouro de energia.

Em 1977, o astrofísico britânico Martin Rees sugeriu que esse estouro poderia produzir um pulso de rádio curto e forte. A sugestão deu aos radioastrônomos algo concreto para procurar.

A BUSCA EM WESTERBORK

O'Sullivan entrou na caça ao lado de colegas do observatório holandês. O desafio técnico era separar um pulso de milésimos de segundo do ruído constante do céu.

O gás entre as estrelas atrasa as frequências baixas mais do que as altas. Um pulso nítido na origem chegaria esticado, e a antena precisava reconstruir a forma original para reconhecê-lo.

Foi para esse trabalho que O'Sullivan refinou o uso da FFT na limpeza de sinais. O cálculo pegava o borrão, separava as frequências, corrigia o atraso de cada uma e devolvia o pulso inteiro.

O algoritmo nasceu para enxergar uma explosão que nunca apareceu, e sobreviveu porque resolvia um problema mais comum do que o buraco negro: o sinal que chega deformado.

A busca não encontrou nada. O resultado negativo tem valor científico, porque limita quantos buracos negros pequenos podem existir, mas não rendeu manchete nem prêmio.

Os buracos negros explosivos seguem sem confirmação. A radiação prevista por Hawking também nunca foi medida diretamente num buraco negro real, porque é fraca demais para os instrumentos atuais.

A parte do projeto veio em 1990. Diante do eco dentro dos escritórios, O'Sullivan reconheceu o mesmo tipo de problema que tinha enfrentado no céu: um sinal que chega espalhado no tempo.

O grupo não procurou uma ideia nova. Procurou uma ferramenta velha que já sabia desfazer borrão e a encolheu até caber num chip comercial.

O próprio O'Sullivan contou a história em entrevistas depois do prêmio que recebeu em 2009: a radioastronomia não tinha achado o buraco negro, mas tinha ensinado a equipe a domar sinais difíceis.

 

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III  O problema que ela resolveu

O roteador na mesa de casa

O problema que a patente resolveu era a velocidade sem cabo. Antes dela, as redes sem fio existiam, mas eram lentas e sofriam dentro de prédios, justo onde as pessoas usavam computador.

Em 1999, o IEEE (Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos, a entidade que define padrões técnicos) publicou o padrão 802.11a. Ele adotava a divisão em muitas frequências paralelas, no caminho que a CSIRO tinha patenteado.

Os padrões seguintes, 802.11g e 802.11n, mantiveram o princípio. Notebooks, celulares, televisores e roteadores passaram a sair de fábrica com a técnica embutida.

A CSIRO cobrou por ela. Em 2005, a agência processou nos tribunais americanos a fabricante japonesa Buffalo Technology e ganhou a causa em 2007.

A cobrança seguia a regra comum das patentes: cada fabricante que usasse o método pagaria uma taxa pequena por aparelho vendido. Multiplicada pelos milhões de notebooks e celulares da década, a taxa virou uma soma grande.

A BRIGA NOS TRIBUNAIS

Grandes empresas de tecnologia contestaram a patente, e a disputa se arrastou por anos no Texas. Em 2009, um acordo com 14 fabricantes encerrou a primeira rodada.

Em 2012, a própria CSIRO anunciou um segundo acordo, com operadoras e fabricantes americanos, e informou que o total recebido com a patente passava de 430 milhões de dólares australianos.

A patente de 1992 virou a maior fonte de receita de propriedade intelectual da história da CSIRO, e o dinheiro voltou para a pesquisa da agência.

Os críticos chamaram a CSIRO de caçadora de patentes. A agência respondeu que era dona legítima da invenção e que o dinheiro financiava ciência pública australiana. A patente americana venceu em 2013, e a técnica ficou livre.

O reconhecimento veio junto com a briga. Em 2009, O'Sullivan recebeu o Prime Minister's Prize for Science (prêmio de ciência do primeiro-ministro australiano). Em 2012, o grupo inteiro ganhou o Prêmio do Inventor Europeu, concedido pelo Instituto Europeu de Patentes.

Nenhum dos cinco ficou rico em escala de empresa de tecnologia. Eram funcionários públicos, e a maior parte da receita ficou com a agência, conforme as regras da CSIRO para invenções de seus pesquisadores.

As antenas de 25 metros de aço seguem enfileiradas em Westerbork, ainda apontadas para o céu, e o pulso de buraco negro que O'Sullivan esperava ali continua sem registro; a matemática que ele afinou para ouvi-lo está agora dentro do roteador de cada casa.

 
 
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B1990
C1992
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