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James Ritty copiou a hélice do navio para vigiar o caixa

Em 1879, um dono de bar em Dayton trocou a confiança no balconista por um mostrador de dois ponteiros.

Registradora de madeira com mostrador de dois ponteiros, 1879.

A registradora de James Ritty, Dayton, 1879

▼
 

Uma caixa de madeira escura, do tamanho de um relógio de parede, com um mostrador redondo e dois ponteiros de metal. Ela prova que a primeira registradora do mundo foi feita para vigiar o funcionário, e não para guardar dinheiro.

O mostrador não tinha gaveta embaixo nem papel saindo do lado. Cada vez que o balconista apertava uma tecla, os ponteiros andavam até o valor da venda, e o freguês lia o número de longe, como quem confere a hora.

A caixa nasceu atrás do balcão de um bar em Dayton, no estado de Ohio, em 1879. Antes dela, o dinheiro do dia ia para uma gaveta de madeira ou para uma caixa de charutos, e só o balconista sabia quanto tinha entrado.

O dono do bar contava as moedas à noite e comparava com as garrafas que tinham saído da prateleira. A conta nunca batia. Faltava pouco a cada dia, o bastante para comer o lucro no fim do mês.

O desvio era simples. O balconista cobrava a dose, embolsava a moeda e não anotava nada. Sem registro, não havia prova, e demitir o funcionário era trocar um suspeito por outro.

Os bares da época viviam cheios de operário de fábrica e de viajante da estrada de ferro. O movimento era grande, o troco saía em moeda miúda e ninguém tinha tempo de escrever cada venda num caderno.

O dono tentou de tudo: vigiar o salão, contratar parente, contar as garrafas duas vezes por dia. Nada segurava o dinheiro por muito tempo.

O homem que resolveu o problema não era relojoeiro nem engenheiro. Era o próprio dono do bar, que perdeu a paciência e foi buscar a resposta num lugar improvável: a casa de máquinas de um navio a vapor.

A seção I conta quem era esse dono de bar e como funcionava a caixa de dois ponteiros que ele patenteou.

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I  A invenção de hoje

Um relógio de dinheiro em Dayton

O dono do bar era James Ritty. Nasceu em 1836, em Dayton, Ohio, filho de um médico, serviu no exército da União na Guerra Civil americana e, de volta à cidade, abriu o próprio negócio.

O bar ficava no centro de Dayton e atendia gente de todo tipo. Ritty vendia uísque, cerveja e charuto, e via o lucro escorrer sem conseguir apontar o culpado.

Dayton crescia rápido no fim dos anos 1870. As fábricas de carroças e de máquinas agrícolas puxavam gente do campo, e o bar enchia no fim de cada turno, com fila no balcão e mais de um balconista servindo ao mesmo tempo.

Com três pessoas mexendo na mesma gaveta, descobrir quem tirava o dinheiro era impossível. O dono só via o rombo, nunca a mão.

Em 1878, com os nervos em frangalhos, ele embarcou num navio a vapor para a Europa. A viagem era um descanso receitado. Acabou dando a ideia da máquina.

De volta a Dayton, Ritty chamou o irmão, John Ritty, mecânico de mão boa, e os dois montaram os primeiros protótipos numa oficina da cidade, nas horas em que o bar não pedia o dono.

A PATENTE DE 1879

Em 4 de novembro de 1879, os irmãos receberam a patente americana número 221.360 por um "aperfeiçoamento em registradora e indicador de caixa". A máquina ganhou um apelido de vendedor: Ritty's Incorruptible Cashier (o caixa incorruptível de Ritty).

O desenho lembrava um relógio. Um mostrador grande, virado para o salão, marcava o valor de cada venda com dois ponteiros: um para os dólares, outro para os centavos.

A máquina tinha três peças que importavam:

1.  As teclas: uma fileira de botões, cada um com um valor, que o balconista apertava ao receber.

2.  O mostrador: os dois ponteiros, que paravam no valor da venda à vista de todo o salão.

3.  O contador interno: um jogo de rodas dentadas que somava cada venda e guardava o total do dia.

A registradora não guardava um centavo; guardava a conta.

O dinheiro continuava indo para a gaveta de sempre. A novidade estava no total escondido dentro da caixa, que só o dono abria com chave, no fim da noite.

Se o total das rodas não batesse com as moedas, o dono sabia que alguém tinha mexido no caixa. E sabia em qual turno.

O freguês também virava fiscal. Quem pagava uma dose olhava o mostrador e conferia se o ponteiro parava no valor que tinha entregado. O balconista que deixasse de apertar a tecla ficava exposto diante do salão inteiro.

 
 

II  Acidente ou projeto

O contador da casa de máquinas

A registradora de Ritty foi projeto, com uma peça emprestada. A peça veio da viagem de 1878, enquanto o navio cruzava o Atlântico.

Durante a travessia, Ritty visitou a casa de máquinas, o porão onde ficavam a caldeira e o motor. Lá, viu um aparelho que contava quantas voltas a hélice dava.

O contador de voltas servia ao chefe de máquinas. Pelo número de giros, ele calculava a velocidade do navio e a distância percorrida, sem depender de olhar pela borda.

O aparelho ficava ligado ao eixo da hélice. Cada giro empurrava uma roda dentada um dente adiante, e a roda vizinha só andava quando a primeira completava a volta, como os ponteiros de um relógio.

Ritty ficou parado diante do aparelho. Se uma máquina conseguia contar cada volta de uma hélice, sem esquecer nenhuma, também podia contar cada moeda que entrava no balcão.

DA HÉLICE AO BALCÃO

A tradução não foi direta. A hélice girava sozinha, empurrada pelo motor; a venda dependia de uma pessoa apertar a tecla certa. O contador do bar precisava somar valores diferentes, e não só voltas iguais.

Os irmãos montaram mais de um protótipo antes de chegar ao do mostrador. Cada tecla passou a mover as rodas dentadas por uma distância diferente, do tamanho do valor que representava.

O mostrador ficou alto, acima do balcão, para ser lido do fundo do salão. Ritty queria o número da venda à vista de todos ao mesmo tempo, e não só de quem estava pagando.

O navio contava giros; o bar passou a contar moedas.

Depois da patente, Ritty acrescentou um rolo de papel no qual a máquina furava um buraco a cada venda, numa coluna para cada valor. No fim do dia, o dono contava os furos e tinha a lista do que tinha entrado.

Ritty, porém, era dono de bar, não fabricante. Montar e vender máquinas tomava o tempo do balcão, e as encomendas chegavam devagar. Poucos comerciantes queriam pagar por um aparelho que acusava os próprios funcionários.

Em 1881, cansado das duas frentes, ele vendeu o negócio das registradoras a Jacob H. Eckert, um vendedor de louça de Cincinnati. Eckert fundou a National Manufacturing Company (Companhia Nacional de Fabricação) e tocou a produção por três anos.

Ritty voltou ao bar e seguiu nele até se aposentar. Viveu em Dayton até 1918 e nunca mais trabalhou com registradoras.

 

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III  O problema que ela resolveu

A gaveta, o sino e o recibo

Em 1884, John Henry Patterson, comerciante de carvão de Dayton, comprou a empresa de Eckert e trocou o nome para National Cash Register Company (Companhia Nacional de Registradoras), a NCR.

Patterson conhecia a máquina como cliente. Tinha instalado registradoras de Ritty na loja que mantinha numa cidade mineira de Ohio, e a loja passou a dar lucro depois delas.

A máquina de Ritty resolvia o furto, mas deixava três buracos. A NCR foi tapando um por um:

1.  A gaveta: o dinheiro passou a cair num compartimento preso à máquina, que só abria quando uma venda era registrada.

2.  O sino: cada abertura da gaveta tocava uma campainha, e o salão inteiro ouvia quando o caixa era mexido.

3.  O recibo: uma fita de papel passou a imprimir cada venda, e uma tira saía para o freguês levar.

O SINO NO SALÃO

A campainha entrou na língua. Em inglês, registrar uma venda passou a se dizer "ring up" (fazer soar), por causa do sino da gaveta.

A gaveta só abria depois da tecla, e a venda deixou de ser invisível.

Patterson também inventou um jeito de vender a máquina. Treinou vendedores com roteiro decorado, território definido e meta de vendas, um modelo que as empresas americanas copiaram por décadas.

Em 1906, um engenheiro da NCR, Charles Kettering, pôs um motor elétrico na registradora. O balconista deixou de girar a manivela, e a máquina passou a funcionar com um toque.

Kettering saiu da NCR anos depois e, em 1911, levou a mesma ideia para o automóvel: criou a partida elétrica do motor, que aposentou a manivela na frente do carro.

A registradora saiu do bar e entrou na mercearia, na farmácia e na loja de departamentos. O balcão de qualquer comércio passou a ter a mesma caixa com gaveta, sino e fita.

A NCR ficou em Dayton por mais de um século e só levou a sede para a Geórgia em 2009.

A caixa de madeira com mostrador redondo e dois ponteiros, patenteada por James Ritty em 4 de novembro de 1879, não tinha gaveta nem recibo. Tinha só as rodas de um contador de hélice, somando cada dose de uísque vendida no balcão de Dayton.

 
 
Quiz da edição

Na viagem de navio que James Ritty fez em 1878, ele visitou a casa de máquinas e viu um aparelho que o inspirou a criar a registradora. O que esse aparelho contava?

AOs batimentos do motor a vapor
BAs rotações da hélice do navio
CA quantidade de carvão queimado na caldeira
DO número de milhas marcadas no mapa

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