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I A invenção de hoje
A bengala e a mão ocupada
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O inventor era Hans Haupt, engenheiro alemão e veterano da Primeira Guerra Mundial, ferido na perna durante o conflito. Depois da guerra, voltou a Berlim, onde andava sempre amparado numa bengala.
Para Haupt, a chuva criava uma conta sem solução. A mão direita segurava a bengala. A esquerda tinha de segurar o guarda-chuva aberto, e não sobrava mão nenhuma para mais nada.
Com o tempo seco, a situação piorava de outro jeito. O guarda-chuva fechado ficava pendurado no braço ou enfiado debaixo da axila, atrapalhando o passo de quem já caminhava com dificuldade.
A saída óbvia seria um guarda-chuva tão pequeno que coubesse no casaco até a hora da chuva. O obstáculo estava na armação: a haste reta e as varetas longas definiam o tamanho mínimo do objeto.
A LUNETA E O CANIVETE
Haupt atacou as duas peças longas com duas ideias diferentes. A primeira veio dos instrumentos ópticos: a luneta, feita de tubos de diâmetros diferentes que entram um no outro.
A segunda veio das ferramentas dobráveis, como o canivete e o metro de carpinteiro. Uma peça comprida, cortada em gomos unidos por articulações, ocupa menos espaço quando os gomos se dobram uns sobre os outros.
Juntas, as duas ideias davam um guarda-chuva com três movimentos:
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1. A haste central, telescópica, encolhia para dentro de si mesma, tubo dentro de tubo.
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2. Cada vareta, articulada no meio, dobrava sobre a própria metade.
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3. O tecido, preso às varetas, se recolhia em volta do pacote, e uma capa de pano envolvia o conjunto.
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A haste encolhia por dentro, e as varetas dobravam por fora.
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O desafio era manter a firmeza. Um guarda-chuva aberto enfrenta vento, e cada articulação nova é um ponto onde a armação pode ceder ou entortar.
Haupt resolveu com travas nas emendas. Quando o guarda-chuva abria, as seções da haste se prendiam umas às outras, e as articulações das varetas se esticavam até o limite, formando uma peça rígida.
A ordem dos movimentos também importava. Primeiro a haste se estendia, depois as varetas se abriam; para fechar, o caminho era o inverso. Feito fora de ordem, o mecanismo emperrava.
O pedido de patente saiu em Berlim, em 1928, descrevendo um guarda-chuva de bolso com armação encolhível. Era o desenho de um homem que precisava do objeto antes de qualquer cliente.
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II Acidente ou projeto
Três séculos de dobradiça
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A invenção de Haupt foi projeto do começo ao fim. Não houve descoberta por acaso: houve uma necessidade pessoal, um alvo claro e anos de tentativa até a armação ficar firme.
A ideia de dobrar o guarda-chuva era antiga. Em 1710, o comerciante parisiense Jean Marius recebeu do rei Luís XIV um privilégio (a licença exclusiva de fabricar e vender) para o seu parapluie brisé, guarda-chuva quebrado, em francês.
O modelo de Marius tinha varetas articuladas e pesava pouco para a época. Fechado, ficava menor que os guarda-chuvas comuns, mas ainda não cabia num bolso.
O problema era o material. Até meados do século XIX, as varetas eram de barbatana de baleia (as lâminas flexíveis da boca de certas baleias) ou de madeira, e nenhuma das duas aguentava ser cortada em gomos finos com dobradiça.
O AÇO DE SAMUEL FOX
A mudança veio da Inglaterra. Em 1852, o fabricante Samuel Fox lançou a armação Paragon, com varetas de aço em perfil de U, ocas no meio. Eram leves, fortes e baratas de produzir em série.
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Sem o aço fino e resistente, a armação de bolso não teria aguentado o primeiro vento.
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Setenta e seis anos depois, Haupt tinha o material que faltou a Marius. O aço permitia hastes de tubo fino e varetas curtas com articulação, capazes de suportar a tensão do tecido esticado.
Havia ainda o passo entre a patente e a loja. Haupt registrou o desenho, mas a produção em escala pedia fábrica, ferramenta e rede de vendas.
O guarda-chuva ganhou marca própria: Knirps, palavra alemã para criança pequena ou baixinho, um apelido carinhoso para alguém de pouca altura. O nome brincava com o tamanho do objeto fechado.
No começo dos anos 1930, a fabricante Bremshey, da cidade de Solingen, assumiu a produção do Knirps. Solingen era o centro alemão da cutelaria (a fabricação de facas e lâminas), com tradição em peças pequenas de aço.
O Knirps chegou às lojas como item de cavalheiro, com capa de pano e cabo curto. Logo apareceram versões para mulheres, menores e coloridas, para caber na bolsa.
O preço era mais alto que o de um guarda-chuva comum, porque cada unidade levava mais peças, mais emendas e mais montagem manual. Mesmo assim, o público aceitou pagar a diferença pela comodidade.
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III O problema que ela resolveu
O bolso do casaco
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O problema que o Knirps resolveu foi o do guarda-chuva como peso fixo. Antes dele, quem quisesse estar protegido da chuva carregava o objeto inteiro o dia todo, na mão ou no braço. Depois dele, o guarda-chuva passou a esperar no bolso.
Para Hans Haupt, a solução devolveu uma mão. Com a bengala numa e o Knirps guardado, ele podia abrir portas, segurar o corrimão e cumprimentar alguém, e só tirar o guarda-chuva quando a chuva começasse.
O mesmo benefício servia a quem não tinha ferimento nenhum. O trabalhador de escritório, o viajante de trem e a compradora de rua ganharam um objeto que ficava à disposição sem ocupar o corpo.
A PALAVRA QUE VIROU OBJETO
O Knirps vendeu tanto que o nome da marca saiu da loja e entrou no dicionário. O dicionário Duden, referência da língua alemã, registra knirps também como guarda-chuva dobrável de bolso.
Esse caminho é raro. Ele acontece quando a marca chega antes de qualquer concorrente e o público passa a chamar o produto pelo nome dela, como o brasileiro chama de gilete qualquer lâmina de barbear.
Em alemão, a palavra continuou servindo também para o sentido antigo. Um pai pode chamar o filho pequeno de knirps e, na mesma tarde, guardar um knirps no bolso antes de sair.
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A marca de uma fábrica virou, em alemão, a palavra comum para guarda-chuva dobrável.
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A fábrica de Solingen continuou aperfeiçoando o desenho depois de Haupt. As mudanças vieram em três frentes:
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• Mais seções na haste, para o guarda-chuva ficar ainda menor.
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• Mola de abertura, para abrir com um botão no cabo.
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• Varetas de outros materiais, como alumínio e fibra de vidro, mais leves que o aço.
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O princípio, porém, continuou o de 1928: haste que entra em si mesma e vareta que dobra em gomos. Os guarda-chuvas compactos vendidos hoje em farmácia e banca de jornal repetem essa arquitetura.
A marca Knirps continua em atividade na Alemanha e vende guarda-chuvas em vários países. A biografia de Hans Haupt, ao contrário, ficou curta nos registros: as fontes guardam o ferimento, a bengala, Berlim e a patente de 1928, mas não trazem com segurança a data e as circunstâncias do fim da vida dele, e nenhuma biografia detalhada foi publicada.
O tubo de pano escuro de um palmo e meio segue no bolso de milhões de casacos. Dentro dele, a haste de luneta e as varetas de canivete que Hans Haupt desenhou em Berlim, em 1928, para não precisar de uma terceira mão.
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Quiz da edição
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Em que ano o inglês Samuel Fox lançou a armação Paragon, de varetas de aço em perfil de U, que setenta e seis anos depois deu a Hans Haupt o material que faltava para o guarda-chuva de bolso?
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