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Dunlop encheu de ar o triciclo do filho

Em 1888, um veterinário de Belfast patenteou o pneu de ar e perdeu a patente para um escocês de 1845.

Triciclo com pneus de ar de John Boyd Dunlop, Belfast, 1888.

O pneu de ar de John Dunlop, Belfast, 1888

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Um disco de madeira maciça, cortado à mão, com um tubo de borracha fina cheio de ar preso em volta por uma tira de lona e uma fileira de tachas. Ele prova que ar fechado num tubo segura o peso de uma roda e ainda a deixa correr solta.

O disco não servia para andar em nada. Foi feito para um teste, num quintal de Belfast, na Irlanda, no outono de 1887, e jogado rolando pelo chão ao lado de uma roda comum, de borracha maciça.

A roda maciça perdeu força e parou no meio do quintal. O disco com ar seguiu até bater no portão do fundo e voltou quicando.

Naquela época, roda de bicicleta e de triciclo era de ferro ou de borracha maciça. A borracha ajudava pouco: endurecia no frio, amolecia no calor e passava cada pedra da rua direto para o corpo de quem pedalava.

As ruas de Belfast eram calçadas com blocos de granito, com vão entre um e outro. Carroça, bonde de cavalo e triciclo sacudiam o dia inteiro. Na Inglaterra, a bicicleta de rodas de ferro tinha ganhado um apelido que dizia tudo: boneshaker (chacoalha-ossos).

O dono do quintal tinha um filho de nove anos que pedalava um triciclo nessas pedras e voltava para casa reclamando do tranco. O pai queria uma roda mais macia para o menino e não achou nenhuma à venda.

Por isso montou a dele, com material de quem nunca tinha trabalhado como mecânico: folha de borracha, tira de lona, cola de borracha e uma bomba de encher bola de futebol.

O teste do quintal respondeu a pergunta mais simples, se o ar aguentava o peso e rolava melhor. Faltava o resto: quem era aquele pai, o que ele faria com o disco depois do portão e por que a ideia, tão bem-sucedida, acabou tirada dele.

A seção I conta quem era o homem do quintal e como o tubo de ar foi parar nas rodas do triciclo do filho.

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I  A invenção de hoje

Um veterinário no quintal de Belfast

O pai era John Boyd Dunlop, veterinário escocês nascido em 1840 em Dreghorn, no condado de Ayrshire. Formou-se em Edimburgo e, em 1867, mudou-se para Belfast, onde abriu uma clínica que chegou a ser uma das maiores da Irlanda.

Ele cuidava de cavalo de carroça, vaca leiteira e cachorro de família. Não tinha formação de engenheiro nem oficina de máquinas. Tinha um quintal nos fundos da casa, na May Street, e a paciência de quem passa o dia examinando bicho.

O filho também se chamava John, mas em casa era Johnnie. O triciclo dele tinha rodas de borracha maciça, e o menino queria andar mais rápido nas corridas com os outros garotos do bairro.

Depois do teste do quintal, Dunlop passou para o triciclo. Fez rodas novas para trás, com aro de madeira, e prendeu em cada uma o tubo de ar coberto de lona, colado e pregado ao aro.

O primeiro passeio de Johnnie com as rodas novas é datado de 28 de fevereiro de 1888, à noite. O menino saiu pela rua de pedra e voltou mais rápido, sem o tranco de antes.

Dunlop ainda fez um teste maior. Encomendou a um fabricante de Belfast uma bicicleta com as rodas de ar e pôs o pneu à prova em ruas e estradas da cidade, antes de ir atrás do papel.

A PATENTE DE 1888

Em 23 de julho de 1888, Dunlop pediu a patente britânica de um “aperfeiçoamento em pneus de rodas para triciclos, bicicletas e outros veículos de estrada”. Ela saiu em 7 de dezembro do mesmo ano, com o número 10.607.

O pedido descrevia três peças:

1.  O tubo: uma câmara de borracha fina, fechada, que recebia ar por uma válvula.

2.  A capa: uma tira de lona por cima do tubo, para segurar a forma e aguentar o atrito com o chão.

3.  A fixação: a capa colada e presa ao aro de madeira, sem jeito de soltar na rua.

Dunlop não amorteceu a roda; pôs a roda em cima de uma almofada de ar.

A palavra pneumático (que funciona com ar) vem do grego pneuma, que quer dizer sopro. Em português, a roda de Dunlop ganhou o nome inteiro, pneumático, e depois o apelido curto, pneu.

Dunlop não pensou em automóvel. Em 1888 o carro a gasolina mal tinha saído da oficina, e o alvo da patente eram bicicleta e triciclo, os veículos que mais sofriam com a pedra da rua.

Com o papel na mão, o veterinário tinha a exclusividade do pneu de ar no Reino Unido. Pelo menos era o que ele achava.

 
 

II  Acidente ou projeto

A roda de ar de 1845

O pneu de Dunlop foi projeto, feito de caso pensado para resolver o tranco do triciclo do filho. Só não foi o primeiro. Quarenta e três anos antes, outro escocês tinha registrado a mesma ideia em Londres.

Era Robert William Thomson, engenheiro nascido em 1822 em Stonehaven, no nordeste da Escócia. Em 10 de dezembro de 1845, ele recebeu a patente britânica de uma roda que chamou de aerial wheel (roda aérea).

A roda aérea tinha um tubo de borracha cheio de ar, dentro de uma capa de couro presa ao aro com parafusos. Era a mesma almofada de ar, só que pensada para carruagem puxada a cavalo, e não para bicicleta.

Em 1847, Thomson montou as rodas numa carruagem e fez demonstrações no Regent's Park, em Londres. Quem andou nela notou a diferença na hora: a carruagem corria quieta, sem o barulho das rodas de ferro na pedra.

POR QUE A RODA AÉREA SUMIU

A roda de Thomson tinha dois problemas. A borracha era cara e difícil de trabalhar, e a capa de couro pedia ajuste constante. Para a carruagem, a roda de ferro custava pouco e durava anos.

Faltava também o veículo certo. A bicicleta com pedal só apareceu nos anos 1860, e a roda leve e macia de Thomson não tinha onde morar em 1845.

Thomson foi cuidar de outras invenções: uma caneta-tinteiro, um guindaste a vapor e uma locomotiva de estrada com rodas de borracha maciça. A roda aérea ficou no arquivo de patentes, e ele saiu de cena em 1873, quinze anos antes do triciclo de Johnnie.

Dunlop nunca tinha ouvido falar da roda aérea quando colou a lona no disco de madeira. Chegou ao mesmo desenho por outro caminho, o do pai que queria poupar o filho das pedras.

Thomson chegou cedo demais para o mercado; Dunlop chegou tarde demais para a patente.

Em 1892, a patente de Dunlop foi declarada inválida. O registro de Thomson, de 1845, já descrevia o tubo de ar dentro de uma capa presa ao aro. Para a lei, a ideia não era nova, e a exclusividade de Dunlop acabou.

Dunlop recebeu pouco pela invenção. Vendeu a sua parte no negócio, voltou a cuidar de assuntos menores em Dublin e viveu até 1921 sem fortuna de inventor. O nome dele, porém, ficou na empresa e no pneu.

 

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III  O problema que ela resolveu

O pneu gordo nas pistas de 1889

O problema que o pneu resolveu foi a vibração. A roda maciça passava cada pedra para o quadro, o quadro passava para o selim e o selim passava para a coluna de quem pedalava.

O ar mudou a conta. O tubo cheio se deforma no ponto em que toca a pedra e volta à forma logo depois, então a roda passa por cima do obstáculo em vez de bater nele e pular.

Menos pulo quer dizer menos força perdida. Na bicicleta, a energia que ia embora no chacoalho virou velocidade, e foi numa pista de corrida que Belfast viu a diferença.

AS CORRIDAS DE BELFAST

Em 18 de maio de 1889, o ciclista Willie Hume, do clube Belfast Cruisers, correu nas provas do Queen's College, em Belfast, com pneus de Dunlop. Ganhou as quatro corridas de que participou.

Os rivais riram das rodas gordas antes da largada. Entre os derrotados estavam os filhos de Harvey du Cros, presidente da associação de ciclistas da Irlanda, e o pai entendeu o recado.

Ainda em 1889, du Cros juntou investidores e fundou em Dublin, com Dunlop, a Pneumatic Tyre and Booth's Cycle Agency (Agência de Pneus Pneumáticos e Bicicletas Booth). Foi a semente da Dunlop, a fábrica de pneus que levou o nome do veterinário.

A empresa contornou a perda da patente com outras patentes. O pneu de Dunlop era colado ao aro, e trocar um furado levava horas de cola e espera. As melhorias vieram em três peças:

1.  O aro com encaixe: em 1890, Charles Kingston Welch patenteou um pneu com borda de arame presa num aro com canal, e a empresa comprou a patente.

2.  A câmara solta: o tubo de ar passou a sair de dentro da capa, e o ciclista consertava o furo na beira da estrada.

3.  A válvula: em 1891, Charles Woods criou um bico com vedação que deixava encher e esvaziar o pneu com bomba de mão.

O pneu pegou quando passou a sair do aro em minutos, sem cola.

Em 1895, os irmãos André e Édouard Michelin puseram pneus de ar num automóvel na corrida Paris-Bordeaux-Paris. O carro, apelidado de L'Éclair (o relâmpago), furou pneu atrás de pneu e chegou fora do prazo.

Mesmo assim, a prova mostrou que o carro aguentava rodar sobre ar. Em poucos anos, automóvel, caminhão e, mais tarde, avião passaram a pousar e rodar sobre um tubo de borracha cheio, a mesma ideia de Thomson e de Dunlop.

O disco de madeira com o tubo de ar e a tira de lona, rolado no quintal da May Street no outono de 1887, foi o primeiro pneu de John Boyd Dunlop. Perdeu a patente para a roda aérea de 1845, mas foi ele que bateu no portão do fundo e levou o nome Dunlop para as rodas do mundo inteiro.

 
 
Quiz da edição

Em que ano a patente do pneu de ar de John Boyd Dunlop foi declarada inválida pela Justiça britânica?

A1888, ano em que a patente foi concedida
B1892, quatro anos depois do registro
C1889, ano das corridas de Belfast
D1873, ano da morte de Robert Thomson

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