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Daisuke Inoue montou 11 karaokês em Kobe, em 1971

Um baterista ligou um toca-fitas de carro a um microfone e a um moedeiro e deixou o bar inteiro cantar sem banda.

Caixa de karaokê 8 Juke com toca-fitas de cartucho, microfone e moedeiro, Kobe, 1971.

Kobe, 1971: a 8 Juke de Daisuke Inoue

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Um cartucho de fita de plástico com 10 centímetros por 13, encaixado num toca-fitas de carro, ligado a um amplificador pequeno, a um microfone e a uma caixa de moedas. Foi a máquina que o baterista Daisuke Inoue montou em Kobe, no Japão, em 1971, e ela provou que ninguém precisava de banda para cantar no bar.

Inoue chamou o aparelho de 8 Juke, junção de dois nomes: o cartucho de oito pistas (fita magnética em laço contínuo, comum nos carros da época) e o jukebox (a vitrola de bar que toca disco por moeda).

A fita não trazia voz. Trazia só a base instrumental das músicas, gravada por Inoue no tom em que os clientes dele costumavam cantar.

O cliente punha 100 ienes no moedeiro, escolhia a música e cantava no microfone. O aparelho tocava a base, e a voz saía pelo mesmo alto-falante, por cima dela.

Inoue montou onze unidades e alugou todas para bares de Kobe, cidade portuária a oeste de Osaka. Os donos de bar logo pediram mais.

O nome que a invenção ganhou no Japão já circulava nos estúdios: karaokê, junção de kara (vazio, em japonês) com oke, abreviação de ōkesutora (orquestra). Orquestra vazia, esperando o cantor.

Inoue nunca registrou patente da 8 Juke. O formato se espalhou pelo país, depois pela Ásia e pelo resto do mundo, e fabricantes grandes venderam aparelhos aos milhões sem pagar nada a ele.

Trinta e três anos depois, em 2004, o baterista de Kobe subiu ao palco da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, para receber o Ig Nobel (paródia do Nobel, entregue pela revista científica de humor Annals of Improbable Research), na categoria Paz.

Entre a caixa de moedas e o prêmio houve um palco de clube noturno, um músico que não lia partitura e um empresário que queria cantar numa viagem.

A história começa no palco onde Inoue tocava quase todas as noites.

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I  A invenção de hoje

A caixa de moedas de Kobe

Daisuke Inoue nasceu em 1940 e cresceu na região de Osaka. Aprendeu bateria na adolescência, de ouvido, e nunca chegou a ler partitura.

Nos anos 1960, tocava em clubes noturnos de Kobe. O trabalho dele ia além do ritmo: acompanhava os clientes que subiam ao palco para cantar, quase sempre homens de negócios sem treino vocal.

Inoue ajustava o andamento e o tom da banda à voz de cada cantor amador. Quem desafinava ou corria na letra ganhava um acompanhamento que corria junto, e o cliente descia do palco achando que tinha cantado bem.

Um desses clientes, dono de empresa, pediu que Inoue fosse junto numa viagem a uma estação de águas termais, onde haveria festa com música. O baterista não podia viajar.

A saída foi gravar. Inoue registrou numa fita as bases das músicas preferidas do cliente, no tom e no andamento que conhecia da voz dele, e entregou a fita para a viagem.

O cliente voltou contente. Tinha cantado a noite inteira sem banda, com o acompanhamento do músico de sempre saindo de um toca-fitas.

Ele contou aos amigos, e outros frequentadores do clube passaram a pedir fitas parecidas, cada uma gravada no tom de quem ia cantar.

O baterista percebeu ali um aparelho para vender. Se a fita servia a um cliente numa viagem, uma caixa com fita, microfone e moedeiro serviria a qualquer bar sem músico contratado.

COMO NASCEU A 8 JUKE

Inoue juntou, com ajuda de um conhecido que entendia de eletrônica, quatro peças que já existiam no mercado:

1.  Um toca-fitas de cartucho de oito pistas, do tipo instalado no painel dos carros.

2.  Um amplificador pequeno, com entrada para microfone e controle de volume.

3.  Um moedeiro, que liberava a música quando recebia 100 ienes.

4.  Cartuchos com as bases instrumentais, gravadas pelo próprio Inoue.

Nenhuma peça da 8 Juke era nova: a invenção estava em juntar fita, microfone e moedeiro numa caixa só, pronta para o balcão.

O cartucho de oito pistas foi a escolha prática da época. Rodava em laço contínuo, sem precisar rebobinar, e aguentava o uso pesado de um bar aberto até de madrugada.

Inoue não vendeu as onze máquinas. Alugou todas aos bares de Kobe e cuidava da troca dos cartuchos, levando músicas novas conforme os sucessos mudavam no rádio.

Os bares de Kobe atendiam homens que saíam do trabalho direto para a mesa, e cantar era parte do encontro. Até a 8 Juke, quem queria microfone dependia do músico da casa, e nem todo bar podia pagar um.

O modelo de aluguel dava ao bar um cantor por noite sem salário de banda. Dava ao baterista uma renda que não dependia de estar no palco.

 
 

II  Acidente ou projeto

Um palco sem patente

O karaokê de Inoue foi projeto, nascido de um pedido. O baterista conhecia o problema do bar por dentro, porque era ele o músico que o cliente chamava para cantar junto.

O acaso esteve só no gatilho: a viagem que o impediu de tocar ao vivo. A fita gravada para o empresário foi resposta direta a uma falta, e a caixa de moedas veio do cálculo de quem já vivia da noite.

Faltou a patente. Inoue contou em entrevistas, anos depois, que a ideia de registrar o aparelho nem passou pela cabeça dele, porque tinha só juntado peças que qualquer loja vendia.

Sem registro, o formato ficou livre. Fabricantes japoneses de eletrônicos passaram a produzir máquinas de karaokê nos anos 1970, e nenhum deles devia licença ao baterista.

O KARAOKÊ SEM DONO

Outros inventores reclamaram a mesma ideia. Nas Filipinas, o técnico Roberto del Rosario registrou a patente de um aparelho de cantar junto, o Sing-Along System, e muitos filipinos o chamam até hoje de pai do karaokê.

No Japão, o aparelho mudou de suporte a cada década. O cartucho deu lugar à fita cassete, e nos anos 1980 o disco laser passou a trazer a letra na tela, com a imagem por trás.

Em 1985, na cidade de Okayama, um empresário transformou contêineres de carga em salas fechadas de karaokê. A sala alugada por hora, só para o grupo de amigos, virou o formato dominante do país.

Inoue criou o aparelho e abriu mão do controle; o mercado multiplicou a caixa de moedas sem que ele recebesse por ela.

O valor do que Inoue deixou de ganhar nunca saiu da boca dele em número. Nas entrevistas, repetia que não guardava mágoa e que se via como quem juntou peças, sem o título de inventor.

O baterista seguiu no ramo por outro caminho. Abriu uma empresa que alugava e mantinha máquinas de karaokê e, mais tarde, desenvolveu um produto para afastar baratas e ratos da fiação dos aparelhos.

Esse produto ele patenteou. Os bichos roíam os cabos das máquinas instaladas em bares, e o repelente protegia o equipamento que ele nunca tinha registrado.

Em 1999, a revista Time incluiu Daisuke Inoue na lista dos asiáticos mais influentes do século 20 numa seleção que também trazia líderes políticos e cientistas. Foi o primeiro reconhecimento público grande ao baterista de Kobe.

 

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III  O problema que ela resolveu

Cantar sem banda nem partitura

O primeiro problema resolvido foi o custo do bar. Um músico ao vivo cobrava cachê toda noite; a 8 Juke cobrava aluguel fixo e ainda devolvia ao dono parte das moedas.

O segundo foi a timidez do cliente. Cantar na frente de uma banda profissional assustava o amador, e a fita gravada no tom certo tirava dele o medo de errar diante dos músicos.

O terceiro foi o repertório. Uma banda sabia poucas dezenas de músicas de cor; os cartuchos podiam ser trocados toda semana, e o bar acompanhava o rádio sem ensaio.

O quarto foi o horário. A máquina tocava enquanto houvesse moeda, até a última mesa ir embora, sem pausa para descanso nem fim de turno.

O quinto foi a distância entre plateia e palco. Com a máquina, qualquer mesa virava palco, e o bar deixava de ter quem toca de um lado e quem escuta do outro.

O PRÊMIO DE HARVARD

O Ig Nobel premia, desde 1991, pesquisas e invenções que primeiro fazem rir e depois fazem pensar. A cerimônia acontece no Sanders Theatre, auditório da Universidade Harvard.

Em 2004, a Annals of Improbable Research deu a Inoue o Ig Nobel da Paz. A justificativa oficial, escrita pelos organizadores naquele ano, dizia que ele foi premiado “por inventar o karaokê, oferecendo assim um jeito inteiramente novo de as pessoas aprenderem a se tolerar”.

Inoue viajou de Kobe a Cambridge, nos Estados Unidos, para receber o troféu. No palco, cantou “I'd Like to Teach the World to Sing” (“Eu queria ensinar o mundo a cantar”, em inglês), e a plateia cantou junto com ele.

A frase da justificativa resumia o efeito social da caixa. Colegas de escritório, chefes e subordinados passaram a dividir o microfone na mesma noite, e o karaokê virou ritual de empresa no Japão.

A 8 Juke resolveu o custo, a timidez, o repertório e o horário do bar com peças de loja e uma moeda de 100 ienes.

O cartucho de plástico de 10 por 13 centímetros sumiu das lojas nos anos 1980. O moedeiro de 100 ienes, o microfone e a base sem voz seguiram em cada sala de karaokê do mundo, com o mesmo formato que o baterista montou em Kobe, em 1971.

★ RARO

🔒

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Quiz da edição

Quantas máquinas 8 Juke Daisuke Inoue alugou pros bares de Kobe em 1971?

A8, uma por fabricante parceiro
B11, e os donos pediram mais
C15, divididas em dois bairros
D20, com fila de espera

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