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Brandenberger descolou o celofane do tecido

Por volta de 1900, um químico suíço tentou fazer toalha à prova de vinho e acabou com uma película transparente, patenteada em 1912.

Folha transparente de celofane, invenção de Jacques Brandenberger, 1912.

O celofane de Jacques Brandenberger, 1912

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Uma folha transparente de celulose, fina como papel de seda e do tamanho de uma toalha de mesa, descolada inteira de um pano de algodão. Ela prova que a fibra de planta, dissolvida e refeita, pode dar um material que se enxerga através e se dobra sem quebrar.

A folha não foi encomendada por ninguém. Saiu de um teste malsucedido, numa fábrica de acabamento de tecidos no leste da França, nos primeiros anos do século XX.

O teste queria resolver um problema velho de restaurante e de casa de família: a toalha branca de linho manchada de vinho tinto, que ia para a lavanderia depois de cada jantar.

Lavar toalha custava caro. Era água fervida, sabão, alvejante, horas de esfrega e de varal, e o tecido gastava a cada lavagem. Uma mancha de vinho, de molho ou de café pedia o ciclo inteiro de novo.

O plano parecia simples: cobrir o pano com uma camada fina e lisa, por onde o líquido escorresse sem entrar. A toalha seguiria macia por baixo e limpa por cima, e bastaria passar um pano úmido depois do jantar.

A camada escolhida era um líquido grosso, cor de mel, feito de celulose dissolvida. Espalhado sobre o tecido, ele secava e endurecia.

Secou e endureceu demais. O pano ficou rígido como papelão e rachava quando alguém tentava dobrar. Nenhum restaurante poria aquilo na mesa, e nenhuma lavadeira conseguiria passar a ferro.

Só que a camada fez um movimento inesperado. Na borda do pano, ela começou a se soltar do tecido sozinha, em lâminas lisas e transparentes, sem rasgar.

Faltava descobrir quem estava atrás do teste, por que ele desistiu da toalha e o que fez com a película que sobrou nas mãos.

A seção I conta quem era o químico da fábrica de tecidos e o jantar que deu início ao teste.

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I  A invenção de hoje

Um químico suíço e o vinho na toalha

O químico era Jacques Edwin Brandenberger, nascido em 1872 em Zurique, na Suíça. Formou-se em química pela Universidade de Berna e foi trabalhar na França, na indústria de tecidos, onde tinta, alvejante e acabamento davam emprego a muito químico jovem.

O patrão dele era a Blanchisserie et Teinturerie de Thaon (Lavanderia e Tinturaria de Thaon), uma das maiores fábricas de acabamento de tecido do país, em Thaon-les-Vosges, perto da fronteira com a Alemanha.

Ali, o trabalho de Brandenberger era pensar no pano depois do tear: como alvejar, tingir e dar ao algodão um toque mais firme ou mais brilhante. Tecido manchado era assunto do dia a dia na fábrica.

O jantar entrou na história por ele mesmo. Num restaurante, um cliente da mesa vizinha derrubou uma taça de vinho tinto na toalha, e o garçom recolheu o pano encharcado para pôr outro no lugar.

A data exata não ficou registrada. As biografias falam em 1900, algumas em 1904, e nenhuma guarda o nome do restaurante. Ficou o ponto de partida: um químico de tecido olhando uma toalha arruinada.

Para um químico de acabamento, a mancha tinha um culpado claro: o linho e o algodão bebem líquido porque são feitos de fibras ocas, cheias de vãos. Fechar esses vãos com uma película resolveria o jantar inteiro.

A VISCOSE NO PANO

O material escolhido foi a viscose (celulose dissolvida até virar um xarope grosso). Ela tinha sido criada em 1892 por três químicos ingleses, Charles Cross, Edward Bevan e Clayton Beadle, que patentearam o processo em Londres.

A receita da viscose tinha três passos:

1.  A celulose: polpa de madeira ou fibra de algodão, a mesma matéria do papel.

2.  A soda: um banho em soda cáustica, que incha a fibra e a deixa pronta para dissolver.

3.  O dissulfeto de carbono (líquido de cheiro forte usado na indústria): mistura a massa num xarope cor de mel, a viscose.

Na indústria de tecidos, a viscose já servia para fazer raiom (fio de celulose que imita a seda). Brandenberger quis usá-la de outro jeito, como verniz por cima do pano pronto.

O alvo era um pano onde o vinho escorresse sem deixar marca.

Os testes seguiam a mesma rotina. Ele espalhava a viscose no algodão, deixava secar e mergulhava o pano num banho ácido, que refazia a celulose em camada sólida.

O pano saía duro e quebradiço. Menos viscose deixava o tecido manchável; mais viscose deixava o tecido rígido. Nenhuma dose deu uma toalha macia e à prova de vinho.

A toalha à prova de vinho nunca saiu da fábrica de Thaon. Brandenberger, porém, guardou as lâminas transparentes que se soltavam do pano.

 
 

II  Acidente ou projeto

A película pedia uma máquina

O celofane foi metade acidente e metade projeto. A película surgiu sem ninguém procurar por ela; o material de fábrica levou quase dez anos de trabalho deliberado de Jacques Brandenberger.

Ele notou que a camada, sem o tecido embaixo, era o produto. Lavada, ela perdia o cheiro do banho químico e ficava lisa, transparente e flexível como uma folha de papel.

O problema estava no jeito de fazer. A lâmina descolada do pano saía irregular, grossa num canto e fina no outro, e rasgava ao menor puxão. Ninguém venderia aquilo em rolo.

A MÁQUINA DE 1908

Em 1908, Brandenberger montou a primeira máquina para fazer a película sem pano nenhum. A viscose passava por uma fenda estreita e caía direto num banho ácido, onde a celulose se refazia em folha contínua.

Depois vinham a lavagem, para tirar o ácido, e um banho de glicerina (líquido grosso e adocicado que mantém a umidade), para a folha não secar quebradiça. No fim, a película seca era enrolada como tecido.

O vinho na toalha deu a camada; a fenda da máquina deu a folha.

A fenda decidia a espessura. Com a abertura sempre igual, a folha saía igual de ponta a ponta, sem o canto grosso e o canto fino da lâmina arrancada do pano. O ajuste dessa fenda tomou anos de tentativa.

Faltava um nome. Brandenberger juntou duas palavras francesas: cellulose (celulose) e diaphane (transparente, que deixa passar a luz). Saiu cellophane, que em português virou celofane.

Em 1912, ele patenteou a máquina e o processo de fabricar a película contínua. A patente cobria o que tinha custado mais esforço: a folha de espessura igual, saída de uma fenda, e não o achado da toalha.

Em 1913, com o grupo Comptoir des Textiles Artificiels (Balcão dos Têxteis Artificiais), que já fabricava raiom, Brandenberger fundou a empresa La Cellophane, com fábrica em Bezons, perto de Paris.

A guerra chegou no ano seguinte. O primeiro uso grande do celofane foi militar: a lâmina transparente servia de visor nas máscaras de gás dos soldados franceses.

Brandenberger recebeu em 1937 a Medalha Elliott Cresson, do Franklin Institute, na Filadélfia, uma das honrarias científicas mais antigas dos Estados Unidos. Viveu até 1954 e terminou a vida em Zurique, a cidade onde tinha nascido.

 

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III  O problema que ela resolveu

Ver o pão sem tocar nele

O problema que o celofane resolveu foi o da embalagem cega. Até então, produto embalado vinha em papel, lata ou caixa, e o freguês comprava sem ver. Produto à vista ficava exposto a poeira, mosca e mão.

Vidro deixava ver, mas era pesado, caro e quebrava. Papel encerado protegia, mas escondia. A folha de Brandenberger fazia as duas tarefas ao mesmo tempo: guardava o produto e o deixava à mostra.

A fabricante de chocolates americana Whitman's começou em 1912 a embrulhar as caixas em celofane importado da França. Era luxo: a folha custava caro e chegava de navio.

Em 1923, a química americana DuPont comprou os direitos de fabricação nos Estados Unidos e criou a DuPont Cellophane Company. A primeira fábrica abriu no ano seguinte, em Buffalo, no estado de Nova York.

O DEFEITO DA ÁGUA

O celofane tinha um problema sério: deixava passar o vapor de água. Bala embrulhada grudava, biscoito amolecia e pão ressecava dentro da folha transparente.

Em 1927, os químicos William Hale Charch e Karl Prindle, da DuPont, cobriram a folha com uma camada finíssima de nitrocelulose (celulose tratada com ácido nítrico) e cera. Nascia o celofane à prova de umidade.

A partir dali, a película entrou em três frentes do comércio:

1.  O pão fatiado: vendido embrulhado, sem secar na prateleira.

2.  O maço de cigarro: lacrado na folha, com a tirinha de abrir.

3.  O supermercado: carne, fruta e queijo em bandeja, escolhidos pelo próprio freguês.

Com o celofane, o freguês passou a escolher com os olhos.

A palavra virou sinônimo de moderno. Em 1934, Cole Porter pôs na canção “You're the Top” (Você é o máximo), do musical Anything Goes, uma lista de maravilhas da época, e uma delas era “You're cellophane” (Você é celofane).

Depois dos anos 1960, os plásticos de petróleo, como o polipropileno, tomaram quase todo o mercado: custavam menos e vedavam melhor. O celofane ficou com nichos, do papel de presente à bala embrulhada e ao buquê de flores.

Sobrou ao celofane uma vantagem de origem. Feito de celulose, ele se decompõe no solo, como o papel, enquanto o plástico de petróleo fica por décadas. Por esse motivo, voltou a ser procurado por fabricantes de embalagem.

A folha transparente que se soltou do pano de algodão em Thaon, fina como papel de seda, virou o celofane de Jacques Brandenberger, patenteado em 1912. A toalha manchada de vinho continuou indo para a lavanderia; a camada que falhou nela passou a embrulhar o pão, o chocolate e o buquê.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que a DuPont fez em 1923?

AAbriu a primeira fábrica de celofane em Buffalo
BComprou os direitos de fabricação do celofane nos Estados Unidos
CPatenteou a máquina que produzia a película contínua
DFundou a empresa La Cellophane junto com a Comptoir des Textiles Artificiels

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