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O problema atacado por Bi Sheng era o estoque. A escrita chinesa usa milhares de caracteres, e cada prancha entalhada em madeira prendia aqueles caracteres numa ordem única, para sempre.
Uma prancha servia a um texto. Terminada a tiragem, ela ia para o depósito ou para o fogo, e um texto novo pedia entalhe novo, caractere por caractere.
Com os tipos de argila, o trabalho de esculpir era feito uma vez. A peça voltava ao envelope depois da impressão e saía de novo na página seguinte, de qualquer obra.
OS TIPOS DEPOIS DE BI SHENG
A técnica sobreviveu ao inventor. Em 1313, o funcionário Wang Zhen publicou o Nong Shu (Tratado de Agricultura) com um apêndice sobre tipos de madeira, guardados em mesas giratórias para o compositor alcançar os caracteres sem levantar da cadeira.
Na Coreia, monges imprimiram em 1377 o Jikji, coletânea de ensinamentos budistas, com tipos de metal fundido. É a obra mais antiga impressa com tipos de metal ainda existente, guardada na Biblioteca Nacional da França.
Os coreanos enfrentaram o mesmo estoque gigante de caracteres chineses, e a escolha do metal resolveu a fragilidade da argila: o tipo fundido aguentava milhares de prensadas sem lascar nas bordas.
Na Europa, Johannes Gutenberg montou a prensa de tipos de metal em Mainz por volta de 1450. Nenhum documento liga Gutenberg ao relato chinês, e a maioria dos historiadores trata as duas invenções como independentes.
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O alfabeto latino tem poucas dezenas de letras; o chinês, milhares de caracteres. Bi Sheng resolveu o tipo móvel na escrita mais difícil para ele.
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Em 1990, moradores do condado de Yingshan, na província de Hubei, acharam uma lápide gravada com os caracteres Bi Sheng. Pesquisadores discordam se a pedra pertence ao homem do relato, e a questão continua aberta porque a lápide não menciona impressão.
O destino dos tipos, esse, Shen Kuo deixou escrito. Na última linha do parágrafo, ele conta: “Quando Sheng se foi, os tipos dele passaram às mãos dos meus parentes, e até hoje são guardados como tesouro.”
O verbo escolhido por Shen Kuo pesa. Ele não escreve “usados”, escreve “guardados como tesouro”: em 1088, as peças já tinham deixado de imprimir e viviam como lembrança de família, sem ninguém da casa disposto a montar páginas com elas.
Os parentes de Shen Kuo guardavam as peças por volta de 1088. Depois disso, nenhuma fonte volta a mencioná-las, e ninguém sabe se quebraram, se foram enterradas ou se se espalharam entre herdeiros.
Os quadradinhos de argila, finos como a borda de uma moeda, terminaram na casa da família de quem escreveu sobre eles, guardados como relíquia. O parágrafo de Shen Kuo é tudo o que restou deles.
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