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Bi Sheng imprimiu com tipos de argila 400 anos antes de Gutenberg

Na China de 1041, um homem sem cargo queimou caracteres de argila no forno, e só um parágrafo de Shen Kuo conta onde eles foram parar.

Tipos móveis de argila cozida com caracteres chineses numa placa de ferro.

Os tipos de argila de Bi Sheng

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Um quadradinho de argila cozida, mais fino do que a borda de uma moeda de cobre, com um único caractere chinês esculpido ao contrário numa das faces. Esse bloco, menor do que a ponta de um dedo, prova que a China imprimia com peças soltas e reaproveitáveis quatro séculos antes da Europa.

Nenhum exemplar chegou até nós. Nenhum museu guarda uma peça, e nenhuma escavação devolveu um caractere de argila atribuído ao inventor. O que sobrou é texto: um parágrafo curto, escrito por volta de 1088 por um funcionário aposentado da dinastia Song.

O funcionário era Shen Kuo, astrônomo, engenheiro e ex-diplomata, que passou os últimos anos numa propriedade em Zhenjiang, no leste da China. Lá ele encheu cadernos com observações sobre bússolas, fósseis, eclipses e ofícios.

Os cadernos viraram o Mengxi Bitan (Conversas do Riacho dos Sonhos), batizado com a chácara onde ele vivia. Num dos capítulos dedicados a técnicas, aparece um homem descrito apenas como bùyī (homem de roupa de pano, ou seja, sem cargo no governo).

Esse homem se chamava Bi Sheng. Segundo Shen Kuo, entre 1041 e 1048, anos da era Qingli (o período de reinado do imperador Renzong), ele moldou caracteres em argila, queimou cada um no fogo e montou com eles páginas inteiras para imprimir.

Antes dele, imprimir na China significava entalhar uma prancha de madeira por página. Uma obra de mil páginas pedia mil pranchas, anos de trabalho de entalhadores e um depósito para guardá-las.

Bi Sheng trocou a prancha pelo caractere avulso. A mesma peça servia numa página de poesia e, desmontada a forma, voltava num tratado de medicina.

Shen Kuo não viu a invenção nascer, mas sabia onde as peças estavam quando escreveu. A última frase do parágrafo dele responde ao destino dos tipos, e o caminho até ela começa pelo método que os fez durar.

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I  A invenção de hoje

Argila, resina e duas placas de ferro

Bi Sheng aparece no registro de Shen Kuo sem cidade, sem família e sem data de nascimento. Tudo o que se sabe dele cabe no método, e o método está descrito com precisão de oficina.

A matéria-prima era uma argila pegajosa, do tipo usado para vedar juntas. Ele esculpia em cada bloquinho um caractere em relevo e invertido, como num carimbo, e depois levava a peça ao fogo até endurecer feito cerâmica.

O caractere de trás para frente tinha motivo: ao pressionar o papel sobre a face entintada, a imagem se inverte de novo e sai legível.

COMO BI SHENG MONTAVA UMA PÁGINA

Shen Kuo descreve a montagem em cinco etapas:

1.  Cobrir uma placa de ferro com uma mistura de resina de pinheiro, cera e cinza de papel.

2.  Assentar sobre a placa uma moldura de ferro e encher o quadro com os tipos, bem juntos.

3.  Aquecer a placa até a mistura amolecer e apertar uma tábua lisa por cima, para nivelar todas as faces.

4.  Esperar esfriar: a resina endurecia, prendia os tipos no lugar e a forma ficava pronta para a tinta.

5.  Depois da impressão, aquecer de novo a placa; a mistura derretia e as peças se soltavam limpas.

A cinza de papel tinha função própria na mistura: dava corpo à resina e à cera, para a camada não escorrer quando a placa esquentava, e deixava a superfície firme o bastante para a tábua nivelar os tipos sem afundá-los.

Bi Sheng trabalhava com duas placas. Enquanto uma imprimia, a outra recebia os tipos da página seguinte, e as duas se revezavam sem parar a produção.

A invenção de Bi Sheng não era só a peça de argila: era o par de placas de ferro, que transformava a impressão num rodízio contínuo.

Cada caractere tinha várias cópias. Segundo Shen Kuo, os mais frequentes, como zhi e ye (partículas gramaticais parecidas com o nosso “de” e o nosso “é”), ganhavam mais de vinte exemplares cada, para aparecer várias vezes na mesma página.

Quando faltava um caractere raro, Bi Sheng moldava a peça na hora e a queimava num fogo de palha. Em pouco tempo o tipo novo entrava na forma.

Os tipos fora de uso ficavam guardados em envelopes de papel, separados por rima, cada rima com sua etiqueta. Os envelopes iam para prateleiras de madeira.

Separar por rima seguia a lógica dos dicionários chineses da época, organizados pelo som final de cada sílaba. Bi Sheng copiou a ordem dos letrados para arrumar um estoque de oficina, e qualquer ajudante alfabetizado achava a peça certa sem decorar a posição de milhares de envelopes.

 
 

II  Acidente ou projeto

A madeira recusada

Shen Kuo registra um detalhe que separa tentativa de projeto: Bi Sheng testou a madeira e desistiu dela.

O motivo vem nas palavras do próprio Shen Kuo, no Mengxi Bitan, de 1088: “Não usava madeira porque os veios são ora densos, ora ralos, e ela incha ao tocar a água, ficando desigual; além disso, gruda na resina e não se solta.”

A frase mostra uma comparação de materiais. Um inventor por acidente teria ficado com a primeira opção funcional; Bi Sheng comparou porosidade, inchaço e aderência antes de escolher.

O ACASO E O PLANO

Nada no relato sugere acidente. A argila foi escolhida por endurecer no forno sem empenar, e a mistura de resina com cera, por derreter em fogo baixo e soltar as peças sem quebrá-las.

O acaso, se houve, estava no mundo ao redor. A China dos Song tinha papel barato, tinta de fuligem e séculos de selos entalhados. O selo pessoal, um caractere invertido em pedra ou osso, já era um tipo móvel com uma letra só.

Bi Sheng não inventou o carimbo; ele juntou milhares de carimbos numa moldura de ferro e os tratou como alfabeto.

Shen Kuo também avalia a velocidade. Para duas ou três cópias, escreve ele, o método não compensava. Para centenas ou milhares de cópias, era rapidíssimo.

A observação revela o limite. Montar uma página com tipos soltos exigia achar cada caractere entre milhares de envelopes; a prancha de madeira, uma vez entalhada, imprimia de novo sem montagem. O ganho só aparecia nas tiragens grandes.

Havia ainda a questão da tinta. A tinta chinesa de fuligem era feita para madeira e papel, e a argila cozida a absorvia de outro jeito. Shen Kuo não comenta a qualidade das páginas, e nenhuma folha impressa por Bi Sheng sobreviveu para comparação.

O que também não se sabe é o que Bi Sheng imprimiu. Shen Kuo não cita nenhum título, nenhuma tiragem e nenhum cliente. Nenhuma obra impressa com os tipos dele foi identificada, e a lacuna existe porque o único relator descreveu o método, não os produtos.

 

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III  O problema que ela resolveu

Milhares de caracteres numa estante

O problema atacado por Bi Sheng era o estoque. A escrita chinesa usa milhares de caracteres, e cada prancha entalhada em madeira prendia aqueles caracteres numa ordem única, para sempre.

Uma prancha servia a um texto. Terminada a tiragem, ela ia para o depósito ou para o fogo, e um texto novo pedia entalhe novo, caractere por caractere.

Com os tipos de argila, o trabalho de esculpir era feito uma vez. A peça voltava ao envelope depois da impressão e saía de novo na página seguinte, de qualquer obra.

OS TIPOS DEPOIS DE BI SHENG

A técnica sobreviveu ao inventor. Em 1313, o funcionário Wang Zhen publicou o Nong Shu (Tratado de Agricultura) com um apêndice sobre tipos de madeira, guardados em mesas giratórias para o compositor alcançar os caracteres sem levantar da cadeira.

Na Coreia, monges imprimiram em 1377 o Jikji, coletânea de ensinamentos budistas, com tipos de metal fundido. É a obra mais antiga impressa com tipos de metal ainda existente, guardada na Biblioteca Nacional da França.

Os coreanos enfrentaram o mesmo estoque gigante de caracteres chineses, e a escolha do metal resolveu a fragilidade da argila: o tipo fundido aguentava milhares de prensadas sem lascar nas bordas.

Na Europa, Johannes Gutenberg montou a prensa de tipos de metal em Mainz por volta de 1450. Nenhum documento liga Gutenberg ao relato chinês, e a maioria dos historiadores trata as duas invenções como independentes.

O alfabeto latino tem poucas dezenas de letras; o chinês, milhares de caracteres. Bi Sheng resolveu o tipo móvel na escrita mais difícil para ele.

Em 1990, moradores do condado de Yingshan, na província de Hubei, acharam uma lápide gravada com os caracteres Bi Sheng. Pesquisadores discordam se a pedra pertence ao homem do relato, e a questão continua aberta porque a lápide não menciona impressão.

O destino dos tipos, esse, Shen Kuo deixou escrito. Na última linha do parágrafo, ele conta: “Quando Sheng se foi, os tipos dele passaram às mãos dos meus parentes, e até hoje são guardados como tesouro.”

O verbo escolhido por Shen Kuo pesa. Ele não escreve “usados”, escreve “guardados como tesouro”: em 1088, as peças já tinham deixado de imprimir e viviam como lembrança de família, sem ninguém da casa disposto a montar páginas com elas.

Os parentes de Shen Kuo guardavam as peças por volta de 1088. Depois disso, nenhuma fonte volta a mencioná-las, e ninguém sabe se quebraram, se foram enterradas ou se se espalharam entre herdeiros.

Os quadradinhos de argila, finos como a borda de uma moeda, terminaram na casa da família de quem escreveu sobre eles, guardados como relíquia. O parágrafo de Shen Kuo é tudo o que restou deles.

★ RARO

🔒

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Quiz da edição

Segundo o parágrafo de Shen Kuo no Mengxi Bitan, por que Bi Sheng abandonou a madeira como material para os tipos?

APorque a madeira era cara e escassa na China dos Song
BPorque a madeira não aceitava bem a tinta de fuligem usada pelos entalhadores
CPorque os veios da madeira incham com a água e a peça gruda na resina sem soltar
DPorque entalhar caracteres em madeira era mais lento do que moldar em argila

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