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As redes de pesca velhas que viraram folha

Cai Lun mostrou ao imperador He, em 105, uma folha feita de casca de amoreira, trapo e rede podre; retalhos bem mais velhos saíram de tumbas chinesas.

Gansu, China: um retalho de papel de cânhamo com um mapa desenhado a tinta, tirado de uma tumba do século II antes da era comum.

Gansu: o retalho de papel com um mapa desenhado

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Um retalho de papel de 5,6 por 2,6 centímetros, áspero, cor de palha suja, com traços de tinta que desenham cursos de água e um caminho de montanha. Saiu de uma tumba em Fangmatan, na província chinesa de Gansu, escavada em 1986, e o enxoval do sepultamento o coloca no século II antes da era comum. Aquele pedaço estraga a data redonda que os manuais repetem.

A data redonda é 105. Nesse ano, segundo a crônica oficial da dinastia, um funcionário da corte chamado Cai Lun levou ao imperador He, da dinastia Han do Leste, folhas de um material novo e barato. A corte aprovou, o material recebeu o nome do inventor e o calendário da escrita ganhou um marco fácil de decorar.

A receita que a crônica descreve não tem nada de nobre. Casca de amoreira, restos de cânhamo, pano velho rasgado e rede de pesca apodrecida: quatro materiais que qualquer aldeia jogava fora, cozidos, batidos e suspensos em água até virarem uma sopa de fibras soltas.

O concorrente que o material derrubou pesava. Documento oficial chinês daquele tempo era escrito em tiras estreitas de bambu costuradas com barbante, que se enrolavam como uma esteira, ou em rolo de seda, macio e leve, porém caro como roupa de corte. Uma biblioteca era um depósito de feixes, e um arquivo se media em carroças.

Entre o retalho de Gansu e a audiência de 105 existem uns duzentos anos de distância, e existe também uma diferença de qualidade que a arqueologia deixa ver a olho nu: o material antigo é grosso, irregular, bom para embrulhar um espelho de bronze e ruim para receber pincel. O que muda no palácio de 105 não é a ideia de macerar fibra, é o controle do processo.

Esse controle mora numa peneira, num tanque e numa sequência de passos que se pode cronometrar.

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I  A invenção de hoje

A peneira que pesca a fibra na água

O aparelho central da invenção é uma peneira retangular. Uma moldura de madeira segura uma tela feita de fios de bambu finíssimos, amarrados lado a lado com seda ou crina, apertados o bastante para reter fibra e abertos o bastante para deixar a água escorrer em segundos.

O trabalhador mergulha a peneira num tanque cheio de água turva de fibra, levanta na horizontal e sacode de leve. A água cai, a fibra fica presa na tela numa camada fina e emaranhada, e essa camada, seca, é a folha. Cada mergulho produz uma folha, e o ritmo de uma bancada se mede em centenas por dia.

O que entra no tanque passou antes por quatro etapas.

1.  Corte e maceração. A casca interna da amoreira, o trapo de cânhamo e a rede velha ficam de molho, às vezes semanas, até a sujeira e as gomas soltarem e a fibra amolecer.

2.  Cozimento alcalino. As fibras fervem em água com cinza vegetal ou cal, um banho de pH alto que dissolve a lignina, a cola natural que mantém as fibras da planta grudadas umas nas outras.

3.  Batedura. A massa cozida apanha de pilão ou martelo até cada fibra se separar e abrir em franjas microscópicas, o que no ofício se chama fibrilação, o desfiamento que faz uma fibra agarrar na outra.

4.  Suspensão. A massa batida vai para o tanque e recebe água em grande volume, porque folha fina exige fibra bem espalhada e pouca fibra por litro.

A folha não é tecida nem colada: ela se segura sozinha. Fibras de celulose abertas em franjas e prensadas úmidas formam ligações de hidrogênio entre si quando a água sai, e uma folha de papel comum tem resistência suficiente para ser dobrada centenas de vezes sem se partir.

Depois do mergulho vêm dois gestos de acabamento. A camada úmida é virada sobre uma pilha de folhas separadas por feltro ou pano, uma etapa que os europeus chamariam depois de coagem, e a pilha inteira vai para a prensa, que expulsa a água restante. Por fim cada folha é colada na parede quente de um forno de tijolo ou estendida ao sol até secar.

A escolha das fibras tem lógica de engenheiro. A casca interna da amoreira dá fibra longa e flexível, que garante resistência; o trapo de cânhamo e a rede de pesca já passaram por maceração, torção e uso, então chegam ao tanque meio prontos, com a lignina em parte eliminada pelo tempo e pela água.

A tela de bambu também explica a economia do ofício. Ela é removível da moldura: o artesão tira a tela com a folha úmida, vira a folha na pilha e recoloca a tela para o mergulho seguinte, sem esperar secagem. Uma peneira única atende uma bancada inteira ao longo do dia.

 
 

II  Acidente ou projeto

O funcionário de palácio e o retalho de Gansu

Cai Lun era eunuco da corte Han e chefe da Oficina Imperial, o setor que fabricava instrumentos, armas e objetos de uso do palácio. Entrou no serviço por volta de 75, subiu na hierarquia durante o reinado do imperador He e comandava um lugar onde havia artesãos, matéria-prima e ordem para experimentar.

A fonte que dá a ele o título de inventor é o "Livro dos Han Posteriores", crônica dinástica compilada pelo historiador Fan Ye no século V, quase trezentos anos depois da cena. A distância entre o fato e o registro é o primeiro problema de qualquer julgamento aqui.

"Cai Lun concebeu então fabricar papel com casca de árvore, restos de cânhamo, panos rasgados e redes de pesca. Em 105 apresentou o resultado ao trono, e o imperador o elogiou pela capacidade."

Fan Ye, "Livro dos Han Posteriores", século V

A arqueologia contradiz o crédito de invenção com objetos datados. Além do retalho com mapa de Fangmatan, escavações em Baqiao, perto de Xi'an, tiraram do chão em 1957 pedaços de papel de cânhamo atribuídos à dinastia Han do Oeste, e o sítio de Xuanquanzhi, no corredor de Gansu, devolveu dezenas de fragmentos, alguns com escrita, de um posto postal em funcionamento entre os séculos II antes e II depois da era comum.

O julgamento entre acaso e projeto fica dividido nesta invenção: a ideia de macerar fibra e secar a massa numa tela é anterior a Cai Lun em pelo menos dois séculos. O passo deliberado dele foi outro: transformar uma técnica de aldeia, que produzia embrulho grosseiro, num produto de escrita com receita fixa, fibra escolhida e escala de oficina do Estado.

O reconhecimento veio em forma de título e de nome. Cai Lun foi feito marquês de Longting em 114, e por séculos o material bom foi vendido na China como papel do marquês Cai, uma marca de origem antes de existir marca registrada.

O fim dele nada tem de oficina. Envolvido numa intriga de sucessão da corte, acusado por um caso antigo de calúnia contra uma consorte imperial, Cai Lun recebeu ordem de se apresentar à prisão em 121; tomou banho, vestiu a melhor roupa e bebeu veneno antes de sair de casa.

O que não se sabe é o tamanho exato da mão dele na bancada. Nenhum documento contemporâneo ao ano de 105 descreve o experimento, nenhum nome de artesão da Oficina Imperial chegou até aqui, e não existe folha guardada que se possa apontar como a peça mostrada ao imperador. O que sobrou é a crônica de Fan Ye, o título de marquês e a expressão papel do marquês Cai repetida em registros posteriores.

 

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III  O problema que ela resolveu

O fardo de bambu que ninguém carregava

O problema: escrever pesava. Um único memorial entregue ao imperador Wu pelo cortesão Dongfang Shuo, contado no "Livro dos Han" de Ban Gu, do século I, ocupava mais de três mil tiras de bambu e exigiu dois homens para ser levado até o trono; o imperador levou dois meses para terminar a leitura.

A troca: o papel entregou leveza, superfície lisa para pincel e custo baixo de matéria-prima, e cobrou fragilidade diante de umidade, fogo e inseto, além de exigir um ofício inteiro de maceração, cozimento e prensa que o bambu cortado dispensava.

O que mudou: a escrita saiu do arquivo do Estado. Texto barato circula, e circular significa cópia, escola, contrato de comerciante, receita de médico e panfleto religioso na mão de quem não vive de palácio.

O corredor de saída foi o comércio e a guerra. Em 751, na batalha do rio Talas, na Ásia Central, tropas do califado abássida derrotaram um exército chinês e fizeram prisioneiros; a tradição árabe registra que entre eles havia homens que conheciam o ofício, e Samarcanda passou a produzir papel logo depois. Bagdá abriu a própria oficina em 794, e o material substituiu o pergaminho na administração do califado.

A rota seguiu para o oeste pelo Mediterrâneo. O Egito fabricava papel no século X, Xàtiva, na península Ibérica sob domínio muçulmano, exportava folhas no século XII, e Fabriano, na Itália, montou oficinas no fim do século XIII com duas melhorias nossas conhecidas: martelos movidos por roda d'água, que faziam a batedura sem braço humano, e tela de arame metálico, que deixou marca própria na folha e criou a filigrana, o desenho que aparece contra a luz.

A fibra demorou a mudar. Até o século XIX o papel europeu se fazia de trapo de linho e algodão, e a escassez de trapo limitava a tiragem dos jornais; a massa de madeira, moída mecanicamente, entrou na indústria a partir dos anos 1840 e derrubou o preço do impresso outra vez.

O gesto central, porém, continua o mesmo desde o tanque chinês: fibra separada, dispersa em água e pescada por uma tela. Uma máquina de papel moderna faz o mesmo movimento numa tela sem fim, que corre a velocidade de trem sob um jato de massa diluída.

Aquele retalho de 5,6 por 2,6 centímetros de Fangmatan está guardado no museu de Tianshui, em Gansu, catalogado como o mapa em papel mais antigo já encontrado, e a fibra dele é cânhamo, não casca de amoreira. Ele prova que a China fazia folha antes de Cai Lun, e a crônica de Fan Ye prova que alguém, em 105, fez a folha boa o bastante para a corte trocar o bambu por ela. As duas coisas cabem na mesma história, desde que o crédito mude de palavra: a invenção não é a folha, é a receita.

"O que você chama de invenção sua é a ideia, ou é a receita que fez a ideia funcionar?"

 
 

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