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ED 004

A solução leitosa que virou colete

Em 1965, na DuPont, Stephanie Kwolek insistiu numa solução turva que o operador do fiandeiro se recusava a passar pela máquina.

Frasco de vidro com uma solução leitosa e opalescente sobre a bancada de um laboratório de polímeros, ao lado de um fiandeiro de metal.

O frasco leitoso na bancada da DuPont, 1965

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Parar uma bala sempre custou peso. Aço, cerâmica, camada sobre camada de tecido prensado: a conta da proteção pessoal foi a mesma por séculos, quanto mais o corpo aguenta, menos o corpo se move.

O colete que o exército americano levou para a Coreia e para o Vietnã era feito de náilon balístico costurado em camadas. Pesava perto de quatro quilos, cobria o tronco e funcionava contra estilhaço de granada. Contra o tiro de uma pistola comum, não funcionava.

Na rua a conta era pior. Policial de patrulha em 1965 saía para o turno sem nada debaixo da camisa. O que existia em catálogo era placa de aço presa ao peito, pesada, quente e visível, equipamento que ninguém veste oito horas por dia, seis dias por semana.

O impasse não era de material bruto, era de geometria molecular. Fibra que resiste muito costuma ser rígida, quebradiça e pesada. Fibra leve costuma esticar e deixar a energia atravessar. Ninguém tinha um fio leve, flexível e, ao mesmo tempo, mais resistente que o aço na mesma balança.

Havia ainda a exigência que não aparece na física: o equipamento precisa ser vestível. Colete que protege e ninguém usa protege zero. É por essa porta que a questão deixou de ser de balística e passou a ser de fibra.

E ninguém, em 1965, estava procurando esse fio. O laboratório que acabaria entregando a resposta trabalhava em outra encomenda, bem menos dramática: pneu. A DuPont queria tirar o aço da carcaça do pneu radial e colocar no lugar algo mais leve, para o carro gastar menos combustível.

A química encarregada de achar o polímero certo tinha entrado na empresa em 1946, aos 23 anos, para juntar dinheiro e pagar a faculdade de medicina. Nunca se matriculou e nunca saiu da bancada. O nome dela é Stephanie Kwolek, e o fio que ela fiou dentro do programa de pneu está hoje debaixo da camisa de policial em dezenas de países.

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I  A invenção de hoje

A fibra que já nasce alinhada

Solução de polímero, no vidro, é transparente e grossa como melaço. A que apareceu naquela bancada estava turva, leitosa e fina como água, e o procedimento do laboratório mandava jogar fora.

Stephanie Kwolek trabalhava com poliamidas aromáticas, uma família de plásticos de cadeia rígida que aguenta calor sem derreter. Para fiar qualquer polímero, primeiro é preciso dissolvê-lo num solvente e empurrar o líquido por um fiandeiro, a peça de metal cheia de furos finos de onde saem os filamentos.

A solução daquele dia estava fora do padrão em três pontos ao mesmo tempo: turva em vez de transparente, fluida em vez de viscosa, e opalescente quando agitada, com um brilho que se movia dentro do frasco.

A leitura óbvia era contaminação. Partícula sólida em suspensão entope furo de fiandeiro, e furo entupido significa uma manhã perdida desmontando a máquina. Kwolek olhou a solução contra a luz, não encontrou sinal de sujeira e pediu para fiar assim mesmo.

O operador do fiandeiro disse não. Charles Smullen, responsável pela máquina, passou dias recusando o pedido, convencido de que aquele líquido leitoso ia entupir os furos. Ela voltou a pedir todos os dias, até ele aceitar rodar.

O filamento saiu inteiro. Levado ao teste de tração, marcou rigidez nove vezes maior que a de qualquer fibra feita até ali, com resistência que, peso por peso, supera a do aço em cinco vezes.

O número ficou tão fora da escala conhecida que ela pediu para repetir a medição, achando que o equipamento estava com defeito. Repetiram. Deu o mesmo.

A turbidez era a resposta, não o defeito. As moléculas daquele polímero são bastões rígidos, e em concentração alta elas se organizam sozinhas dentro do líquido, apontadas na mesma direção, como palitos apertados numa caixa. O nome da coisa é cristal líquido.

Solução comum é um novelo de fios embolados, e fio embolado estica quando puxado. Ali as cadeias já entravam alinhadas no fiandeiro, saíam alinhadas do outro lado e travavam umas nas outras por pontes de hidrogênio, lado a lado, em camadas empilhadas.

A DuPont batizou o material de Kevlar e levou anos para transformar o achado de bancada em produção. Herbert Blades resolveu a fiação com ácido sulfúrico concentrado e um vão de ar entre o fiandeiro e o banho, o que permitiu concentrar o polímero e puxar o filamento já esticado.

A fibra chegou ao mercado em 1971. Amarela, leve, sem ferrugem, sem ponto de fusão, ela carboniza em vez de derreter, e um fio fino dela segura o que só um cabo de aço bem mais pesado seguraria.

 
 

II  Acidente ou projeto

A anomalia que não foi para a pia

A encomenda era projeto: um programa da DuPont, com prazo e orçamento, para achar uma fibra de pneu. O acaso apareceu num frasco de aparência errada. O que separa os dois é o que foi feito com o frasco.

A versão de almanaque diz que o Kevlar foi descoberto por acaso, e a palavra acaso faz um estrago aqui. Ela apaga o programa que pagou a bancada e apaga a decisão que salvou a amostra.

O programa existia desde 1964. A DuPont trabalhava com a previsão de escassez de combustível e queria tirar o aço da carcaça do pneu radial: carcaça mais leve, carro mais leve, menos consumo. A meta era uma fibra rígida e resistente que pudesse ser fiada em escala industrial.

Kwolek estava naquele grupo porque já tinha feito o caminho difícil antes. Em 1959, com Paul Morgan, ela demonstrou a policondensação em baixa temperatura, o experimento em que um fio de náilon é puxado continuamente da interface entre dois líquidos, à temperatura ambiente.

Quem passou quase vinte anos dissolvendo polímero sabe qual é a cara de uma solução boa. É exatamente por essa razão que a solução ruim tinha destino certo: a pia. Três decisões evitaram o ralo.

1.  Guardar a amostra fora do padrão e tratar a aparência estranha como informação, não como erro de preparo.

2.  Insistir no fiandeiro por dias, contra a recusa de quem operava a máquina e tinha bom motivo para recusar.

3.  Repetir o teste de tração em vez de sair comemorando o número, para separar descoberta de defeito de equipamento.

Nenhuma das três é sorte. As três são procedimento, e as três podiam ter sido puladas sem que ninguém no prédio notasse a falta.

Ela contou depois o que sentiu quando o número apareceu de novo na segunda medição.

"Eu sabia que tinha feito uma descoberta. Não gritei eureca, mas fiquei muito animada, e o laboratório inteiro também."

Stephanie Kwolek, entrevista de história oral, Chemical Heritage Foundation, 1998

O acaso do Kevlar não está na descoberta, está na aplicação. Ninguém na DuPont pediu material de proteção pessoal. O alvo era pneu, e pneu de fato virou uma das primeiras aplicações comerciais da fibra, em correia e carcaça.

A ideia do colete veio de fora do laboratório. Lester Shubin, do instituto federal de pesquisa em justiça criminal dos Estados Unidos, propôs testar a fibra nova contra tiro de arma curta e conseguiu dinheiro público para o programa, no começo dos anos 1970.

Kwolek nunca trabalhou em blindagem nem em armamento. Ela entregou um fio e outras pessoas descobriram o que fazer com ele, incluindo umas quantas que ela nunca conheceu.

Carimbo do dia: projeto na encomenda, anomalia no frasco, teimosia na fila do fiandeiro. Chame de acaso só a parte que ninguém pediu.

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III  O problema que ela resolveu

Parar a bala sem vestir aço

O problema: deter um projétil exige absorver energia, e até 1965 absorver energia significava carregar massa. Placa de aço protege e imobiliza. Náilon balístico em camadas segura estilhaço e pesa perto de quatro quilos. Nenhum dos dois cabe num turno de oito horas.

A troca: a fibra de aramida é tecida em pano e empilhada em camadas finas. O fio, resistente e capaz de esticar um pouco antes de romper, freia o projétil espalhando a energia pela trama inteira, em vez de encarar o impacto num ponto só.

O que mudou: proteção virou roupa. O colete de sete camadas dos primeiros testes pesava cerca de um quilo, ficava debaixo da camisa e parava munição de arma curta, o que dispensou a escolha entre estar protegido e conseguir trabalhar.

O programa que provou a coisa foi público. Entre 1972 e 1975, o instituto federal de pesquisa em justiça criminal financiou os ensaios de balística, definiu o primeiro padrão oficial de desempenho para colete e distribuiu peças a departamentos de polícia para acompanhar o uso na rua.

A contagem existe. O clube de sobreviventes mantido pela DuPont com associações de polícia desde 1987 registra mais de três mil agentes que voltaram para casa depois de um disparo absorvido pelo colete, cada caso documentado com laudo técnico e número de série da peça.

A peça tem limite, e o limite faz parte da explicação. Trama de aramida segura projétil de arma curta e estilhaço de granada, não segura munição de fuzil sem placa rígida junto, e perde desempenho com umidade e luz do sol. Por essa razão colete tem prazo de validade e sai de uso depois de cerca de cinco anos.

A mesma fibra saiu do colete e entrou em centenas de outros lugares. Pneu, pastilha de freio, luva à prova de corte, roupa de bombeiro, capacete, casco de barco, capa de cabo de fibra óptica, cabo de amarração. Onde o projeto pedia resistência sem peso, o aço saiu e o fio amarelo entrou.

Nada dessa expansão voltou em dinheiro para a inventora. Como todo químico contratado da época, Kwolek assinou dezessete patentes cedidas à empresa e nunca recebeu royalty por nenhuma delas.

O reconhecimento veio em placa. Ela entrou para o Hall da Fama dos Inventores dos Estados Unidos em 1994, recebeu a Medalha Nacional de Tecnologia em 1996 e passou os anos seguintes repetindo o truque do fio de náilon para plateias de estudantes, com dois líquidos e uma pinça.

O Kevlar não deixou o corpo mais duro; ele tirou o aço do corpo e deixou a resistência no pano.

"Quantas coisas que protegem você hoje quase foram para a pia por parecerem erro de preparo?"

 
 
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Por que o operador do fiandeiro passou dias se recusando a rodar a solução que Stephanie Kwolek levou até a máquina?

AEstava turva e ele temia entupir os furos do fiandeiro
BEstava grossa como melaço e não passaria pelos furos
CO laboratório não tinha autorização para usar a máquina
DO ácido da solução ia corroer o metal do fiandeiro

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