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I A invenção de hoje
Um ferreiro de Vermont no rio Rock
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A resposta de ontem Quem auscultou Laennec com o cilindro em 1826? Foi o sobrinho dele, Mériadec Laennec, também médico. Em 1826, na casa de Kerlouanec, na Bretanha, Mériadec escutou o tio com o cilindro e ouviu os sinais de cavidade no pulmão descritos no tratado de 1819. René Laennec viveu até 13 de agosto daquele ano, aos 45 anos, de tuberculose. |
O ferreiro era John Deere. Nasceu em 7 de fevereiro de 1804, em Rutland, Vermont, filho do alfaiate William Deere, que embarcou para a Inglaterra em 1808 e nunca voltou. A mãe, Sarah Yates, criou os filhos em Middlebury.
Aos 17 anos, em 1821, Deere entrou como aprendiz na forja de Benjamin Lawrence, em Middlebury, e ficou quatro anos aprendendo o ofício. Ganhou fama na região pelos forcados de feno e pelas pás de chapa bem polida, que os fregueses preferiam pela superfície lisa.
A década seguinte foi de dívida. Deere abriu oficinas em cidades de Vermont, perdeu duas para o fogo e viu a crise de 1837 se armar. Em 1836, deixou a mulher, Demarius Lamb, e os filhos em Vermont e partiu sozinho para o oeste com as ferramentas.
Parou em Grand Detour, Illinois, um povoado fundado pouco antes por Leonard Andrus, outro homem de Vermont, numa curva do rio Rock. Abriu a forja e, já na primeira semana, tinha serviço de sobra: ferrar cavalo, consertar roda e, acima de tudo, desentupir arado.
A família só se juntou a ele em 1838, quando a forja já tinha freguesia fixa e o povoado contava com ele para manter os arados andando.
A SERRA DA SERRARIA
Em 1837, Deere achou o material que procurava na serraria de Andrus: uma serra de aço quebrada, descartada. O aço de serra era duro, liso e polido pelo próprio trabalho de cortar madeira.
Ele cortou os dentes, aqueceu a lâmina na forja e a bateu até dar forma de relha e aiveca. Montou o arado em quatro partes:
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1. A relha: a borda de aço afiada que corta o chão por baixo, na horizontal.
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2. A aiveca: a chapa curva, feita do aço da serra, que levanta a fatia de terra e a vira de lado.
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3. A coluna: a peça de ferro forjado que prende a chapa à barra puxada pelos bois.
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4. As rabiças: os dois cabos de madeira que o lavrador segura atrás do arado.
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O aço polido devolvia a terra que o ferro áspero segurava.
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Os lavradores tinham uma palavra para o efeito, scour (limpar sozinho, em inglês): o arado que limpava a si mesmo enquanto andava. A terra preta deslizava pela aiveca lisa, caía virada no sulco e a chapa saía brilhando.
Deere vendeu o primeiro exemplar a um fazendeiro da vizinhança. Em 1838 fez três arados, e em 1839, dez, todos à mão, na mesma forja de Grand Detour.
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II Acidente ou projeto
A segunda vida do aço de serra
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A serra quebrada foi acaso: era o pedaço de aço bom mais perto da forja num vilarejo sem fornecedor de chapa. Já o uso dela tinha método, e o método vinha de Vermont, dos forcados polidos que Deere fazia desde aprendiz.
Ele também não foi o primeiro a pensar no aço. Em 1833, John Lane, ferreiro de Lockport, também em Illinois, pregou tiras de aço de serra sobre uma aiveca de madeira, e a terra soltava. Lane não patenteou o arranjo e trabalhava por encomenda, um arado por vez.
O arado de ferro tinha uma história própria. Charles Newbold, de Nova Jersey, patenteou um arado de ferro fundido em 1797, e Jethro Wood, de Nova York, outro em 1819, com peças trocáveis. Os dois serviam bem no leste e entupiam na pradaria.
Antes deles, Thomas Jefferson tinha calculado, nos anos 1790, a curva de uma aiveca de menor resistência, e ganhou por ela uma medalha de uma sociedade de agricultura francesa. O modelo dele, porém, era de madeira.
A diferença de Deere foi a chapa inteira de aço, curvada numa peça só, e a decisão de fabricar em série. Ele fazia arado antes de ter freguês, carregava a carroça e saía pelos povoados oferecendo, um costume raro entre ferreiros da época.
DE DEZ A MIL ARADOS
Os números cresceram ano a ano. Dos dez de 1839, a forja passou a cerca de 40 em 1840 e 75 em 1841. Em 1843, Deere virou sócio de Leonard Andrus, e a oficina chegou a perto de 400 arados.
O gargalo era o aço. Serra quebrada não dava para todo mundo, e a chapa vinha da Inglaterra, de Sheffield, por navio até Nova Orleans e depois rio acima, em viagem de meses.
Segundo a história da própria Deere & Company, a primeira chapa de aço para arado laminada nos Estados Unidos saiu de Pittsburgh, nos anos 1840, encomendada para a fábrica dele.
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A serra quebrada iniciou o arado; a encomenda de aço em escala fez a fábrica.
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Deere também mexia no desenho sem parar. Mudava a curva da aiveca a cada safra, conforme a queixa dos fregueses, e respondia a quem dizia para deixar o modelo quieto que, se ele não melhorasse o arado, outro ferreiro melhoraria.
A sociedade com Andrus terminou em 1848. Deere desmontou a oficina de Grand Detour e levou tudo para Moline, a cerca de 110 quilômetros, na margem do rio Mississippi.
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