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A serra quebrada de John Deere arou a pradaria em 1837

Em Grand Detour, Illinois, um ferreiro de Vermont poliu aço de serra até a terra preta da pradaria parar de grudar no arado.

Arado de aço polido de 1837 sobre a terra preta da pradaria.

O arado de John Deere, Grand Detour, 1837

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Uma lâmina de aço de serraria, partida, com poucos milímetros de espessura e a face gasta de tanto cortar tora. A lâmina prova que, na pradaria americana, o arado travava por causa do metal da chapa, e o boi tinha força de sobra.

Em 1836, o interior de Illinois recebia carroças vindas da Nova Inglaterra, a região do nordeste dos Estados Unidos onde ficam Vermont e Massachusetts. As famílias compravam terra barata às margens dos rios e chegavam com o arado que usavam em casa.

A pradaria não se parecia com a terra que deixaram. O capim passava da altura de um homem, as raízes formavam um tapete de palmos de fundura e, embaixo dele, o solo era preto, fértil e pesado de argila.

O arado da época tinha corpo de madeira com tiras de ferro, ou peças de ferro fundido. No chão arenoso e pedregoso da Nova Inglaterra, a terra solta caía da aiveca (a chapa curva que vira a fatia de terra cortada) e o sulco seguia limpo.

Na pradaria úmida, a terra preta grudava no ferro áspero. Em poucos passos, a aiveca virava um bloco de barro, o arado deixava de cortar e o lavrador tinha de parar os bois.

O remédio era uma pá de madeira. O fazendeiro raspava a chapa, avançava mais um trecho e raspava de novo, o dia inteiro. Muitas famílias desistiram da lavoura e voltaram para o leste.

Num vilarejo novo à beira do rio Rock, um ferreiro recém-chegado consertava esses arados toda semana e ouvia a mesma queixa no balcão da forja.

O homem tinha passado a vida batendo ferro em Vermont e conhecia o arado de cor. Mesmo assim, nunca tinha visto uma terra prender a chapa daquele jeito, nem um freguês tão disposto a pagar por uma saída.

A seção I conta quem era o ferreiro, de onde veio o aço e como a chapa ganhou o polimento que soltava a terra.

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I  A invenção de hoje

Um ferreiro de Vermont no rio Rock

A resposta de ontem

Quem auscultou Laennec com o cilindro em 1826?

Foi o sobrinho dele, Mériadec Laennec, também médico. Em 1826, na casa de Kerlouanec, na Bretanha, Mériadec escutou o tio com o cilindro e ouviu os sinais de cavidade no pulmão descritos no tratado de 1819. René Laennec viveu até 13 de agosto daquele ano, aos 45 anos, de tuberculose.

O ferreiro era John Deere. Nasceu em 7 de fevereiro de 1804, em Rutland, Vermont, filho do alfaiate William Deere, que embarcou para a Inglaterra em 1808 e nunca voltou. A mãe, Sarah Yates, criou os filhos em Middlebury.

Aos 17 anos, em 1821, Deere entrou como aprendiz na forja de Benjamin Lawrence, em Middlebury, e ficou quatro anos aprendendo o ofício. Ganhou fama na região pelos forcados de feno e pelas pás de chapa bem polida, que os fregueses preferiam pela superfície lisa.

A década seguinte foi de dívida. Deere abriu oficinas em cidades de Vermont, perdeu duas para o fogo e viu a crise de 1837 se armar. Em 1836, deixou a mulher, Demarius Lamb, e os filhos em Vermont e partiu sozinho para o oeste com as ferramentas.

Parou em Grand Detour, Illinois, um povoado fundado pouco antes por Leonard Andrus, outro homem de Vermont, numa curva do rio Rock. Abriu a forja e, já na primeira semana, tinha serviço de sobra: ferrar cavalo, consertar roda e, acima de tudo, desentupir arado.

A família só se juntou a ele em 1838, quando a forja já tinha freguesia fixa e o povoado contava com ele para manter os arados andando.

A SERRA DA SERRARIA

Em 1837, Deere achou o material que procurava na serraria de Andrus: uma serra de aço quebrada, descartada. O aço de serra era duro, liso e polido pelo próprio trabalho de cortar madeira.

Ele cortou os dentes, aqueceu a lâmina na forja e a bateu até dar forma de relha e aiveca. Montou o arado em quatro partes:

1.  A relha: a borda de aço afiada que corta o chão por baixo, na horizontal.

2.  A aiveca: a chapa curva, feita do aço da serra, que levanta a fatia de terra e a vira de lado.

3.  A coluna: a peça de ferro forjado que prende a chapa à barra puxada pelos bois.

4.  As rabiças: os dois cabos de madeira que o lavrador segura atrás do arado.

O aço polido devolvia a terra que o ferro áspero segurava.

Os lavradores tinham uma palavra para o efeito, scour (limpar sozinho, em inglês): o arado que limpava a si mesmo enquanto andava. A terra preta deslizava pela aiveca lisa, caía virada no sulco e a chapa saía brilhando.

Deere vendeu o primeiro exemplar a um fazendeiro da vizinhança. Em 1838 fez três arados, e em 1839, dez, todos à mão, na mesma forja de Grand Detour.

 
 

II  Acidente ou projeto

A segunda vida do aço de serra

A serra quebrada foi acaso: era o pedaço de aço bom mais perto da forja num vilarejo sem fornecedor de chapa. Já o uso dela tinha método, e o método vinha de Vermont, dos forcados polidos que Deere fazia desde aprendiz.

Ele também não foi o primeiro a pensar no aço. Em 1833, John Lane, ferreiro de Lockport, também em Illinois, pregou tiras de aço de serra sobre uma aiveca de madeira, e a terra soltava. Lane não patenteou o arranjo e trabalhava por encomenda, um arado por vez.

O arado de ferro tinha uma história própria. Charles Newbold, de Nova Jersey, patenteou um arado de ferro fundido em 1797, e Jethro Wood, de Nova York, outro em 1819, com peças trocáveis. Os dois serviam bem no leste e entupiam na pradaria.

Antes deles, Thomas Jefferson tinha calculado, nos anos 1790, a curva de uma aiveca de menor resistência, e ganhou por ela uma medalha de uma sociedade de agricultura francesa. O modelo dele, porém, era de madeira.

A diferença de Deere foi a chapa inteira de aço, curvada numa peça só, e a decisão de fabricar em série. Ele fazia arado antes de ter freguês, carregava a carroça e saía pelos povoados oferecendo, um costume raro entre ferreiros da época.

DE DEZ A MIL ARADOS

Os números cresceram ano a ano. Dos dez de 1839, a forja passou a cerca de 40 em 1840 e 75 em 1841. Em 1843, Deere virou sócio de Leonard Andrus, e a oficina chegou a perto de 400 arados.

O gargalo era o aço. Serra quebrada não dava para todo mundo, e a chapa vinha da Inglaterra, de Sheffield, por navio até Nova Orleans e depois rio acima, em viagem de meses.

Segundo a história da própria Deere & Company, a primeira chapa de aço para arado laminada nos Estados Unidos saiu de Pittsburgh, nos anos 1840, encomendada para a fábrica dele.

A serra quebrada iniciou o arado; a encomenda de aço em escala fez a fábrica.

Deere também mexia no desenho sem parar. Mudava a curva da aiveca a cada safra, conforme a queixa dos fregueses, e respondia a quem dizia para deixar o modelo quieto que, se ele não melhorasse o arado, outro ferreiro melhoraria.

A sociedade com Andrus terminou em 1848. Deere desmontou a oficina de Grand Detour e levou tudo para Moline, a cerca de 110 quilômetros, na margem do rio Mississippi.

 

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III  O problema que ela resolveu

A pradaria vira lavoura

O problema resolvido pelo arado de aço foi o tempo perdido na raspagem. Com a aiveca limpando sozinha, o lavrador abria o sulco sem parar, e um dia de aração voltava a render um dia inteiro.

A chapa lisa também pedia menos força. A terra deslizava em vez de arrastar, e uma parelha de cavalos dava conta de um campo onde antes se atrelavam várias juntas de bois.

As famílias que tinham vindo do leste ficaram. Illinois, Iowa e Wisconsin passaram a plantar trigo e milho em escala, e a ferrovia chegou em seguida para escoar os grãos até Chicago.

O arado de chapa de aço virou o padrão da região em poucos anos. Fabricantes concorrentes copiaram a ideia, e os catálogos passaram a anunciar o arado autolimpante como item de série.

Em 1868, a fábrica de Moline virou Deere & Company, com o filho Charles Deere na gerência. John Deere foi prefeito de Moline nos anos 1870 e viveu até 17 de maio de 1886, na mesma cidade, aos 82 anos.

O CUSTO DO CAPIM

O arado de aço, porém, também apagou a pradaria. O tapete de raízes que travava o ferro era o próprio capim nativo, e o sulco contínuo o virou de cabeça para baixo, safra após safra, até sobrarem só fragmentos em Illinois.

Em 1936, o cineasta Pare Lorentz dirigiu para o governo americano o documentário The Plow That Broke the Plains (O arado que rompeu as planícies). O filme culpava a aração intensiva das Grandes Planícies pelas tempestades de poeira daquela década.

As tempestades atingiram sobretudo Oklahoma, Texas e Kansas, onde o trator já tinha substituído o boi. O filme, ainda assim, traçava a origem do estrago até o sulco contínuo aberto pela chapa de aço quase um século antes.

O mesmo aço que salvou a lavoura deixou o solo sem a raiz que o segurava.

A oficina original também sumiu do mapa por um século. Em 1962, uma escavação arqueológica achou o piso da forja de Deere em Grand Detour, e o lugar hoje recebe visitantes como John Deere Historic Site.

A lâmina de serra de poucos milímetros, que saiu da serraria de Leonard Andrus em 1837, virou dez arados em 1839 e uma fábrica de milhares de arados à beira do Mississippi.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Por que John Deere tirou a oficina de Grand Detour e levou tudo para Moline em 1848?

 
 
Quiz da edição

Qual material John Deere usou para forjar a relha e a aiveca do primeiro arado autolimpante, em 1837?

AUma chapa de aço importada de Sheffield, na Inglaterra
BUma peça de ferro fundido comprada em Nova Orleans
CUma serra de aço quebrada, descartada na serraria de Andrus
DUma barra de aço laminada em Pittsburgh

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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