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A sacola plástica nasceu em 1965 para durar anos

Na Celloplast, Sten Gustaf Thulin cortou um tubo de plástico em forma de camiseta e criou uma sacola feita para voltar ao mercado.

Sacola de polietileno em forma de camiseta, com alças recortadas do próprio plástico, 1965.

Norrköping, 1965: a sacola de Thulin

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Uma folha de polietileno mais fina que uma folha de caderno, dobrada sobre si mesma, soldada no fundo e vazada no topo em forma de camiseta. Foi a sacola que o engenheiro sueco Sten Gustaf Thulin patenteou em 1965, em nome da Celloplast, empresa de Norrköping.

A peça não levava costura, cola nem alça pregada. As alças eram o próprio plástico: as duas tiras laterais que sobravam quando a máquina tirava o miolo do topo.

O polietileno (plástico feito do gás etileno, com as moléculas ligadas em cadeias longas) já embrulhava pão e verdura na Europa. A novidade de Thulin estava no desenho: uma peça só, cortada e soldada por máquina, em série, sem nenhuma etapa feita à mão.

O alvo era o saco de papel pardo, dono dos balcões de mercearia. O papel rasgava na chuva, soltava o fundo com o peso de uma garrafa e exigia árvore derrubada para existir.

A sacola nova aguentava compra molhada, pesava poucos gramas e, vazia, cabia dobrada no bolso do casaco.

Na cabeça do engenheiro, o comprador levaria a mesma sacola ao mercado durante anos, do jeito que levava a carteira. O plástico não apodrecia, não rasgava com a umidade e podia ser lavado na pia.

O filho dele, Raoul Thulin, contou à BBC em 2019 que o pai saía de casa com uma sacola dobrada no bolso, pronta para a compra seguinte.

O objeto que nasceu para durar anos virou, poucas décadas depois, o símbolo mundial do descartável. Supermercados passaram a entregar várias a cada compra, e países inteiros começaram a proibir a peça.

Entre a mesa de desenho e a proibição houve uma fábrica sueca de filme plástico, uma patente derrubada nos Estados Unidos e uma disputa entre redes de supermercado.

A história começa com o engenheiro de Norrköping e a máquina capaz de transformar um tubo de plástico em sacola com alça.

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I  A invenção de hoje

O tubo cortado em camiseta

A resposta de ontem

Que curso Marion Donovan concluiu em Yale em 1958?

Arquitetura. Marion Donovan se formou na Escola de Arquitetura da Universidade Yale em 1958, uma das três mulheres da turma, segundo o National Inventors Hall of Fame, que a incluiu em 2015. A inventora tinha deixado a carreira de revista quase duas décadas antes e voltou à faculdade depois de vender a Boater.

Sten Gustaf Thulin nasceu em 1914, na Suécia, e fez carreira como engenheiro na indústria de plásticos, que crescia no país depois da Segunda Guerra.

Trabalhava na Celloplast, fabricante de filme plástico com sede em Norrköping, cidade industrial do leste sueco conhecida pelas tecelagens à beira do rio Motala. A empresa vendia rolos de plástico para embalagem.

O ponto de partida dele foi a extrusão (processo em que o plástico derretido é empurrado por um molde). Na Celloplast, o molde era circular, e o polietileno saía como um balão comprido, inflado por ar, que esfriava e virava um tubo de parede fina.

Achatado, o tubo já formava duas camadas unidas pelas bordas. Thulin percebeu que bastava fechar uma ponta e abrir a outra para ter um saco sem uma única costura lateral.

O desafio estava na alça. Sacos de plástico com alça colada ou presa por ilhós (argola de metal cravada no furo) já existiam, mas pediam peça extra e trabalho manual, e a alça descolava com peso.

DO TUBO À SACOLA

O método patenteado seguia quatro movimentos de máquina:

1.  Dobrar as laterais do tubo achatado para dentro, formando o fole (a prega que dá volume à sacola cheia).

2.  Soldar a quente o fundo, derretendo e prensando as camadas numa linha só.

3.  Recortar o topo no centro, tirando um retângulo das camadas.

4.  Deixar as duas tiras laterais do recorte como alças, presas ao corpo pelo próprio plástico.

A alça e a sacola saíam do mesmo pedaço de plástico, e o ponto fraco da colagem desaparecia.

O formato aberto lembrava uma camiseta regata sem mangas. Nos Estados Unidos, a peça ganhou o apelido de T-shirt bag (sacola camiseta, em inglês), nome usado até hoje no comércio de embalagens.

O fole fazia a diferença na hora de encher. Fechada, a sacola ficava chata e empilhável; cheia, as pregas se abriam e a base ganhava largura para receber caixas e garrafas.

A solda a quente substituía a cola, e a peça inteira saía da máquina em segundos, pronta, cortada em sequência no rolo.

A Celloplast registrou o pedido na Suécia e obteve a patente em 1965. Nos Estados Unidos, o desenho recebeu a patente número 3.180.557, concedida no mesmo ano com o título de sacola com alças.

Com o registro na mão, a empresa passou a ter a exclusividade do formato nos países onde a patente valia.

Outros fabricantes que quisessem produzir a sacola camiseta precisavam pagar licença à Celloplast ou desenhar uma alça diferente, colada ou costurada, com o ponto fraco que Thulin tinha eliminado.

 
 

II  Acidente ou projeto

Projeto contra o saco de papel

A sacola de Thulin foi projeto do começo ao fim. O engenheiro conhecia a máquina, conhecia o material e desenhou a peça para resolver um alvo escolhido: o saco de papel.

Raoul Thulin, na mesma entrevista à BBC, disse que o pai via o saco de papel como um desperdício de floresta. A sacola plástica, forte e lavável, seria a troca que poupava árvores.

O plano dependia de uma condição: a sacola tinha de voltar. Usada dezenas de vezes, ela gastava menos material por compra que o papel jogado fora depois de uma viagem.

A Celloplast cresceu com a patente. Abriu fábricas fora da Suécia e espalhou o formato pelo comércio europeu ao longo dos anos 1970.

A PATENTE QUE CAIU

Nos Estados Unidos, o caminho foi outro. No fim dos anos 1970, a petrolífera Mobil, que também fabricava plástico, contestou a patente americana da Celloplast e conseguiu derrubá-la na Justiça.

Sem o registro, qualquer fábrica americana podia produzir a sacola camiseta sem pagar licença à empresa sueca. O preço da peça caiu com a concorrência.

Em 1982, Safeway e Kroger, duas das maiores redes de supermercado do país, adotaram a sacola plástica nos caixas. O saco de papel começou a perder o balcão americano.

A sacola venceu o papel pelo preço por unidade, e o preço baixo apagou o plano de reuso de Thulin.

O uso saiu do desenho do engenheiro. O mercado pegou a peça feita para durar e passou a entregá-la de graça, várias por compra, para ir ao lixo no fim do dia.

Nada na patente previa o descarte. A sacola continuava resistente, lavável e dobrável; o que mudou foi o hábito de quem a recebia no caixa, já que nenhum comprador guardava um objeto distribuído sem custo.

Thulin viu a mudança acontecer. Ele viveu até 2006 e, segundo o filho, nunca entendeu por que as pessoas jogavam fora uma sacola capaz de aguentar anos de uso.

A Celloplast seguiu como fabricante de filme plástico, e o nome do inventor ficou fora das embalagens que o formato dele ocupou no mundo inteiro.

 

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III  O problema que ela resolveu

Peso leve, alça forte, bolso

O primeiro problema resolvido foi o da chuva. O saco de papel molhado perdia a resistência e despejava a compra na calçada; o polietileno não absorvia água.

O segundo foi o peso das compras. A alça saía do corpo da sacola, sem ponto de cola, e segurava garrafas e latas sem rasgar no topo.

O terceiro foi o espaço. Achatadas, centenas de sacolas cabiam numa caixa pequena embaixo do caixa, e o transporte da fábrica até a loja ocupava menos caminhão que a mesma quantidade de sacos de papel.

O quarto, na cabeça de Thulin, era a floresta. Uma sacola durável no bolso de cada comprador tiraria o papel pardo do circuito.

O quinto foi o custo da loja. Produzida em rolo contínuo, sem cola e sem alça avulsa, a sacola saía mais barata por unidade que o saco de papel, a vantagem que mais tarde decidiu a disputa nos supermercados americanos.

O MATERIAL CONTRA O USO

A Agência Ambiental da Inglaterra publicou em 2011 um estudo de ciclo de vida (o impacto total do produto, da fábrica ao lixo) das sacolas de supermercado e chegou a números que dão razão ao desenho original:

•  O saco de papel precisa ser usado 3 vezes para empatar no impacto sobre o clima com uma sacola de polietileno usada uma vez só.

•  A sacola de algodão precisa de 131 usos para chegar ao mesmo empate.

•  A sacola plástica reaproveitada como saco de lixo reduz ainda mais o impacto dela.

O mesmo estudo mostra o outro lado: tudo depende do número de viagens. A vantagem do plástico existe quando a sacola volta ao mercado, como Thulin imaginava.

O descarte em massa criou o problema seguinte. Sacolas leves voam do lixo, entopem bueiros e chegam aos rios e ao mar, onde o polietileno leva séculos para se desfazer.

Bangladesh foi o primeiro país a proibir as sacolas plásticas finas, em 2002, depois de enchentes em que as peças entupiram o sistema de drenagem de Daca, a capital.

Outros países seguiram com proibição, cobrança no caixa ou exigência de sacola mais grossa, feita para durar. As regras novas tentam devolver a peça ao uso que o engenheiro sueco tinha previsto.

A sacola de Thulin resolvia a chuva, o peso e o espaço, e o descarte desfez o ganho ambiental do projeto.

A folha de polietileno mais fina que uma folha de caderno, soldada no fundo e vazada em camiseta, continua igual à da patente de 1965. Segundo o filho, o inventor de Norrköping levava a dele dobrada no bolso, pronta para voltar ao mercado.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual petrolífera americana contestou e derrubou a patente da Celloplast nos Estados Unidos, no fim dos anos 1970?

ADow Chemical
BMobil
CSafeway
DKroger

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