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ED 011

A patente da insulina saiu por um dólar

Em 23 de janeiro de 1922, um garoto de 14 anos internado em Toronto recebeu o extrato purificado que mudou o preço de uma doença.

Um leito de hospital em Toronto, em janeiro de 1922, com um frasco de extrato pancreático e uma seringa de vidro sobre a mesa de cabeceira.

Toronto, 1922: o segundo frasco deu certo

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Antes de 1922, o diagnóstico de diabetes numa criança era uma conta de tempo. O médico media o açúcar na urina, dava nome ao quadro e não tinha muito mais a oferecer.

O melhor tratamento disponível era a fome. A dieta desenhada por Frederick Allen, adotada nas clínicas americanas a partir de 1914, cortava o carboidrato quase a zero e deixava o paciente com poucas centenas de calorias por dia. Comprava meses. Não comprava anos.

Elizabeth Hughes, filha do secretário de Estado americano, foi diagnosticada aos 11 anos e passou três anos nesse regime. Quando chegou a Toronto em agosto de 1922, tinha 15 anos, um metro e meio de altura e pesava pouco mais de 20 quilos.

A pista biológica já era velha. Em 1889, em Estrasburgo, Oskar Minkowski e Josef von Mering tiraram o pâncreas de um cachorro e repararam nas moscas que se juntavam sobre a urina do animal, doce de açúcar. Vinte anos antes, Paul Langerhans tinha descrito no mesmo órgão umas ilhas de células diferentes das vizinhas.

Entre 1900 e 1921, muita gente puxou o mesmo fio. Georg Zuelzer, em Berlim, tratou pacientes com extrato pancreático em 1908 e recuou diante das convulsões que o preparo provocava. Nicolae Paulescu, em Bucareste, publicou em 1921 um extrato que derrubava o açúcar de cães.

Todos tinham a substância certa dentro do frasco, junto com um bocado de coisa que não deveria estar ali. No corpo humano a mistura cobrava caro: febre alta, abscesso no ponto da agulha, tremor.

O que faltava não era a suspeita do pâncreas. Era filtragem. Alguém precisava tirar de um órgão de matadouro um líquido limpo o bastante para entrar na perna de uma pessoa duas vezes por dia, todos os dias, pelo resto da vida dela.

Em janeiro de 1922, num hospital de Toronto, o mesmo paciente recebeu dois frascos diferentes com doze dias de intervalo. A ideia por trás dos dois era idêntica. A diferença estava no que tinha sido retirado do segundo.

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I  A invenção de hoje

O segundo frasco, doze dias depois

Toronto General Hospital, 11 de janeiro de 1922. Leonard Thompson, 14 anos, internado desde 2 de dezembro. A ficha de admissão registra 65 libras de peso, cerca de 29 quilos, pele pálida, cabelo caindo e cheiro de acetona na respiração.

Naquela manhã ele recebeu 15 centímetros cúbicos de extrato pancreático, metade em cada nádega. O preparo tinha saído da bancada de Frederick Banting e Charles Best, e a equipe do clínico Walter Campbell aplicou sem grande expectativa.

O resultado foi morno. O relatório dos próprios pesquisadores diz que houve uma queda discreta na eliminação de açúcar e uma redução de 25% no açúcar do sangue, e nenhum benefício clínico visível. No ponto da injeção se formou um abscesso.

Quem resolveu a sujeira do frasco foi um bioquímico de Alberta que estava em Toronto de licença sabática. James Bertram Collip passou dezembro no porão do prédio de fisiologia brigando com concentrações de álcool.

A descoberta dele era de faixa estreita. Numa concentração alcoólica específica, o princípio ativo continuava dissolvido enquanto boa parte das proteínas indesejadas precipitava e podia ser descartada. Repetindo o passo, sobrava um líquido bem mais limpo.

23 de janeiro de 1922. O mesmo garoto, o mesmo leito, o mesmo diagnóstico, um frasco diferente. As injeções passaram a ser diárias, de 23 de janeiro a 4 de fevereiro.

O açúcar eliminado na urina caiu de mais de 100 gramas por dia para uma faixa entre 7,5 e 45,1 gramas. Os corpos cetônicos sumiram. O açúcar no sangue voltou a valores normais em cerca de um dia.

"O menino ficou mais desperto, mais ativo, com melhor aparência, e disse que se sentia mais forte."

Banting, Best, Collip, Campbell e Fletcher, Pancreatic Extracts in the Treatment of Diabetes Mellitus, Canadian Medical Association Journal, 1922

Leonard voltou a comer, ganhou peso e saiu do hospital. Viveu mais treze anos com injeções diárias e chegou aos 27.

O nome existia antes da substância. Em 1909, o belga Jean de Meyer batizou de insulina um hormônio que ninguém tinha isolado, do latim insula, ilha, em homenagem às ilhotas que Langerhans desenhou. Macleod adotou o termo em Toronto e ele pegou.

O que a equipe entregou naquele janeiro não foi a descoberta do hormônio. Foi um processo repetível: passos escritos que outra pessoa, em outro prédio, com pâncreas de matadouro, refazia e obtinha o mesmo frasco.

 
 

II  Acidente ou projeto

Uma nota escrita às duas da manhã

Projeto, com um artigo de revista lido na véspera de uma aula na entrada. O acaso foram vinte e cinco palavras rabiscadas de madrugada. O resto foram oito semanas de bancada emprestada, um bioquímico de licença e três anos até o frasco virar produto de prateleira.

Em 30 de outubro de 1920, Frederick Banting tinha 29 anos, um consultório de cirurgia quase vazio em London, Ontário, e uma aula para preparar sobre metabolismo de carboidratos.

Na véspera, ele leu um artigo de Moses Barron na Surgery, Gynecology and Obstetrics sobre cálculos que bloqueavam o ducto pancreático. Quando a pedra fechava o canal, as células que fabricam suco digestivo secavam, e as ilhotas continuavam intactas.

Às duas da manhã do dia 31 ele acordou e escreveu vinte e cinco palavras no caderno. A nota manda ligar o ducto pancreático de cães, esperar a parte digestiva degenerar, deixar as ilhotas de pé e tentar isolar a secreção interna delas. Ele escreveu diabetes e glicosúria com erro de grafia nas duas linhas.

Em 7 de novembro ele levou o caderno a John James Rickard Macleod, professor de fisiologia em Toronto e autoridade mundial em metabolismo de açúcar. Ele já tinha visto a ideia falhar em outras mãos.

O que concedeu foi modesto: uma bancada por oito semanas de verão, dez cães e um assistente estudante. Charles Best e Clark Noble disputaram a vaga no cara ou coroa. Best pegou o primeiro turno e ficou até o fim.

O trabalho começou em 17 de maio de 1921, num prédio sem refrigeração, no calor de Toronto. Em 30 de julho, um cão sem pâncreas recebeu cinco centímetros cúbicos do extrato e teve o açúcar do sangue caindo pela metade em uma hora.

Uma cadela chamada Marjorie, a número 33, viveu setenta dias à base de injeções. Era a prova que faltava: o extrato sustentava um animal sem pâncreas por semanas, não só derrubava um número por uma tarde.

Em dezembro, Macleod virou o laboratório inteiro para o problema e chamou Collip. Ali a aposta de dois desconhecidos virou projeto de linha de produção, e a linha exigia três coisas.

1.  Trocar o cão pelo boi. A ligadura de ducto era lenta e cara, e o pâncreas de gado comprado no matadouro, tratado com álcool, entregava o mesmo princípio ativo em quantidade industrial.

2.  Limpar o extrato. A fração alcoólica de Collip tirou a maior parte do que provocava febre e abscesso, e transformou um líquido de bancada em algo injetável todos os dias.

3.  Medir a dose. Sem uma unidade padrão, dois frascos do mesmo rótulo derrubavam o açúcar de formas diferentes, e o erro era perigoso nas duas direções.

A escala veio de fora da universidade. No fim de maio de 1922, Toronto assinou com a Eli Lilly, e o químico George Walden achou o ponto isoelétrico da substância, o que multiplicou a potência de cada lote.

O carimbo do dia fecha assim. O acaso foi uma revista aberta na noite anterior a uma aula. O projeto foram oito semanas viradas em três anos, um bioquímico, uma fábrica e uma patente.

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III  O problema que ela resolveu

O preço que a patente tentou travar

O problema: um extrato que funciona não vale nada se cada frasco tiver uma força diferente e se qualquer laboratório puder registrar o processo em nome próprio e cobrar o que quiser por ele.

A troca: os três inventores assinaram a cessão da patente à Universidade de Toronto por um dólar cada, e a universidade passou a licenciar fabricantes com exigência de pureza, padrão de dose e devolução das melhorias.

O que mudou: a patente deixou de ser instrumento de monopólio e virou bloqueio contra o monopólio dos outros. Ninguém mais podia fechar o processo, porque o processo já tinha titular e o titular não queria exclusividade.

Banting resistiu a assinar. A medicina da época tratava patente em nome de médico como coisa suja. O advogado americano George Schley avisou que a lei exigia o nome de todos os inventores reais, e em 18 de dezembro de 1922 ele cedeu.

A carta que decidiu a questão é de 12 de abril de 1922, assinada por Banting, Best, Collip, Macleod e John FitzGerald, diretor do Connaught. O argumento não é generoso, é defensivo: seria arriscado não deter a patente do método, porque um processo parecido poderia ser registrado por terceiros e travar o trabalho de todos.

Em 19 de dezembro de 1922 a cessão foi assinada. A patente americana 1.469.994 saiu em 9 de outubro de 1923 com os três nomes e a universidade como titular. Cada inventor recebeu um dólar.

O Comitê de Insulina de Toronto cuidou do resto. Licenciou fabricantes, fixou o padrão de unidade e, em abril de 1923, criou a regra de que toda melhoria patenteada por um licenciado voltava para a universidade e era repassada aos concorrentes.

Entre 1923 e 1967, a universidade recebeu cerca de 8 milhões de dólares canadenses em royalties, destinados à pesquisa. Só no primeiro ano, a Eli Lilly passou de um milhão de dólares em vendas de insulina.

A blindagem tinha prazo e tinha alcance. Cobria o processo de 1923, não a molécula que viria depois. Quando a engenharia genética permitiu desenhar análogos de insulina, cada versão nova entrou no mundo com patente nova.

O frasco de dez mililitros do Humalog, lançado em 1996 a 21 dólares nos Estados Unidos, chegou perto de 275 dólares em 2018. Um levantamento do centro de diabetes de Yale, publicado no JAMA Internal Medicine em 2019, encontrou 1 em cada 4 pacientes usando menos insulina do que a receita pedia por causa do preço.

Em março de 2023, a Eli Lilly cortou o preço de tabela do Humalog em 70%, para 66,40 dólares o frasco, e limitou o desembolso do paciente a 35 dólares por mês. Cem anos depois, o número voltou a andar perto do ponto de partida.

O dólar de 1922 não foi gesto de renúncia. Foi engenharia jurídica, e ela segurou exatamente aquilo que sabia segurar: o processo daquele ano. Cada geração seguinte da molécula precisou de uma trava nova, e ninguém mais assinou por um dólar.

"Quantos remédios da sua prateleira dependem de alguém ter decidido não ser dono deles?"

 
 
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Depois das injeções diárias do extrato purificado por Collip, em quanto tempo o açúcar no sangue de Leonard Thompson voltou a valores normais?

AEm três semanas
BEm doze dias, o mesmo intervalo entre os dois frascos
CEm cerca de um dia
DNunca voltou ao normal, só estabilizou

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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