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A patente 775.337 do padre que mandou a voz sem fio

Em junho de 1900, Roberto Landell de Moura levou a voz por 8 km em São Paulo, diante do cônsul britânico.

Padre de batina ao lado de um aparelho de bobinas e antena num morro de São Paulo, em 1900.

São Paulo, 1900: a voz cruzou 8 km sem fio

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Uma folha de patente impressa em Washington, com o número 775.337 no alto e a data de 22 de novembro de 1904. O título diz "telefone sem fio", e o nome do inventor é de um padre católico nascido em Porto Alegre.

A folha prova que um brasileiro registrou, nos Estados Unidos, um aparelho para levar a voz humana pelo ar, sem cabo nenhum entre quem fala e quem ouve. Naquele ano, a maior parte do mundo ainda achava que a fala só viajava por fio de cobre.

O documento tem duas irmãs. No mesmo mês e no mês anterior, o escritório americano de patentes concedeu ao mesmo homem outras duas cartas: uma para um transmissor de ondas e outra para um telégrafo sem fio. Três patentes, um só inventor de batina.

Para chegar àquelas folhas, o padre atravessou o oceano, morou três anos em Nova York e enfrentou examinadores que duvidavam do pedido. Cada folha passou por desenhos, descrições técnicas e respostas às dúvidas do escritório.

As patentes chegaram quatro anos depois de uma demonstração feita em São Paulo. Em junho de 1900, a voz saiu de um aparelho num morro da zona norte da cidade e foi ouvida a cerca de oito quilômetros, sem fio entre os dois pontos.

Entre as testemunhas estava o cônsul britânico na cidade. A presença dele importava: era um estrangeiro, sem interesse em inflar o feito de um padre brasileiro, e podia confirmar o que viu.

O jornal paulistano que noticiou a experiência descreveu a transmissão com cuidado, sem saber direito que nome dar ao aparelho. A palavra rádio ainda não era de uso comum, e o inventor também não tinha um nome definitivo para a máquina.

Antes dele, o italiano Guglielmo Marconi já mandava sinais pelo ar, mas em código Morse, feito de pontos e traços. O padre queria mandar a própria voz, com o timbre de quem fala.

O caminho até o morro de Santana começou longe dali, numa universidade de Roma.

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I  A invenção de hoje

O padre que estudou física em Roma

Roberto Landell de Moura nasceu em 21 de janeiro de 1861, em Porto Alegre, num casarão da família no centro da cidade. Era o quarto de doze irmãos, e cresceu entre livros de ciência e os da igreja.

Aos 18 anos, foi para Roma estudar no Colégio Pio Latino-Americano, que formava padres vindos da América do Sul. Frequentou também a Universidade Gregoriana, onde as aulas de física e química dividiam a grade com a teologia.

Ali ele leu sobre eletricidade e sobre as ondas eletromagnéticas (energia que se propaga pelo espaço, como a luz, sem precisar de fio). Em 1886, foi ordenado padre em Roma e voltou ao Brasil com duas vocações que não se separaram mais.

No Brasil, passou por paróquias do Rio Grande do Sul e de São Paulo: Uruguaiana, Campinas, Santos, Santana. Em cada uma, montava um laboratório pequeno nos fundos da casa paroquial, com pilhas, bobinas e lâmpadas.

AS IDEIAS DO PADRE

O que ele buscava era a transmissão da fala a distância. O telefone de Alexander Graham Bell, de 1876, já levava a voz, mas por fio. O telégrafo sem fio de Marconi, de 1896, dispensava o fio, mas só levava pontos e traços.

Landell de Moura queria juntar os dois. Para chegar lá, testou dois caminhos e uma peça comum aos dois:

1.  Mandar a voz por ondas de rádio, invisíveis, que atravessam paredes e alcançam longe.

2.  Mandar a voz por um feixe de luz, que a lâmpada acende e apaga no ritmo da fala.

3.  Captar o sinal do outro lado com um receptor que devolvesse o som ao ouvido.

O segundo caminho lembrava o fotofone (aparelho de Bell que levava som num raio de luz), mas o padre queria alcance maior. Em 1901, registrou no Brasil a patente de número 3.279, com o desenho de um aparelho que unia os dois métodos.

Na paróquia, nem todos entendiam aquelas bobinas. Uma história contada pelos biógrafos diz que fiéis de Campinas acharam o laboratório obra do demônio e quebraram parte dos aparelhos. Não há documento da época que confirme o episódio, e ele circula só pela tradição oral.

Landell de Moura juntou numa só cabeça o padre e o físico: a formação de Roma deu a ele a teoria das ondas, e as paróquias deram o tempo para testá-la.

 
 

II  Acidente ou projeto

Oito quilômetros entre Santana e a Paulista

A transmissão de 1900 foi projeto, preparado durante anos de laboratório improvisado. O padre sabia o que queria provar e escolheu a distância, os pontos e as testemunhas com antecedência.

O transmissor ficou no alto de Santana, bairro da zona norte de São Paulo, onde ele vivia. O receptor foi instalado na Avenida Paulista, no ponto mais alto da cidade. Entre os dois, cerca de oito quilômetros de casas, rios e várzea.

A data registrada é 3 de junho de 1900. O padre falou no aparelho de Santana, e quem estava na Paulista ouviu a voz no receptor. O cônsul britânico, Charles Percy Lupton, acompanhou a prova e assinou como testemunha.

O Jornal do Commercio publicou a notícia em 10 de junho de 1900. O texto contava que o padre havia transmitido a palavra falada a grande distância, sem qualquer condutor, e que a experiência fora feita diante de pessoas de crédito.

COMO O APARELHO FALAVA

O princípio da transmissão seguia três passos:

1.  A voz fazia vibrar uma placa fina, que variava a força de uma corrente elétrica.

2.  A corrente alterada alimentava o transmissor, que lançava no ar ondas no mesmo ritmo da fala.

3.  No receptor, as ondas voltavam a ser corrente e moviam outra placa, que repetia o som no ouvido.

Esse trabalho de moldar a onda pela voz tem nome técnico, modulação (variar a onda para que ela carregue uma informação). Sem ela, o rádio só serve para mandar sinal de liga e desliga.

Para ter as patentes nos Estados Unidos, Landell de Moura embarcou para Nova York em 1901. Lá, os examinadores exigiram que o aparelho funcionasse diante deles, e um deles duvidou do pedido. Ele refez os modelos e conseguiu as três cartas em 1904.

A patente 771.917, de 11 de outubro, cobria o transmissor de ondas. As de número 775.337 e 775.846, ambas de 22 de novembro, cobriam o telefone sem fio e o telégrafo sem fio.

A voz de Santana chegou à Paulista porque o padre preparou cada passo: os pontos altos, a testemunha estrangeira e a notícia no jornal, que deixaram a prova por escrito.

 

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III  O problema que ela resolveu

A voz que o telégrafo não carregava

O problema que o aparelho resolvia era o silêncio da distância. Antes dele, conversar com alguém a quilômetros exigia um fio esticado entre as duas pontas, e onde o fio não chegava, como no mar, só restava o código.

Navios em alto-mar dependiam de pontos e traços para pedir socorro. Cidades sem rede telefônica ficavam fora da conversa. A voz pelo ar abria um caminho sem poste, sem cabo e sem a demora de traduzir a fala em código.

De volta ao Brasil em 1904, o padre quis provar o invento em grande escala. Escreveu ao governo do presidente Rodrigues Alves e pediu dois navios para uma demonstração entre embarcações distantes.

O pedido não foi atendido. Biógrafos contam que um assessor do palácio tratou o padre como desequilibrado, mas a resposta oficial, se existiu por escrito, não foi encontrada. O que se sabe ao certo é que os navios nunca foram cedidos.

O QUE FICOU DA INVENÇÃO

Sem apoio e sem dinheiro para fabricar os aparelhos, Landell de Moura voltou ao trabalho de padre. Seguiu nas paróquias gaúchas e escreveu sobre ciência e fé até o fim da vida.

Nesses anos, a radiodifusão nasceu em outros países. Em 1906, o canadense Reginald Fessenden transmitiu voz e música para navios na costa dos Estados Unidos. Nos anos 1920, as primeiras emissoras regulares entraram no ar.

O padre acompanhou de longe a chegada do rádio ao Brasil, com a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, de 1923. Viveu até 30 de junho de 1928, em Porto Alegre, aos 67 anos, sem ter fabricado um único aparelho em série.

A distância entre a prova e a fábrica ajuda a medir o tamanho da perda. Marconi, que mandava só código em 1900, montou empresa na Inglaterra, vendeu equipamento para marinhas e ganhou o Nobel de Física em 1909. O padre tinha a patente da voz, mas não tinha capital, rede de contatos nem governo disposto a apostar.

O reconhecimento veio depois. Em 2011, uma lei federal o declarou Patrono dos Radioamadores do Brasil, e o nome dele batiza ruas, escolas e um museu de telecomunicações em Porto Alegre.

O padre de Porto Alegre provou a voz pelo ar antes de quase todo mundo, e a falta de navio, de fábrica e de sócio deixou a invenção no papel.

A folha 775.337 continua nos arquivos do escritório de patentes dos Estados Unidos, consultável por qualquer pessoa. Nela, o desenho do telefone sem fio leva a assinatura de Roberto Landell de Moura, padre e inventor, com data de 22 de novembro de 1904.

“Que invenção brasileira você conhece que ficou no papel por falta de quem a fabricasse?”

 
 
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Em que data foi registrada a transmissão de voz de Santana até a Avenida Paulista?

A22 de novembro de 1904
B10 de junho de 1900
C3 de junho de 1900
D11 de outubro de 1904

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