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A mochila de seda que o exército russo recusou

Em 1911, o ator Gleb Kotelnikov dobrou uma cúpula de seda num estojo às costas; a Rússia disse não, e a patente saiu na França.

Estojo de paraquedas de 1911 com a cúpula de seda aberta sobre um boneco, desenho de patente.

São Petersburgo, 1911: o paraquedas RK-1

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Um estojo rígido do tamanho de uma mochila escolar, preso aos ombros por correias de lona. Dentro, uma cúpula de seda dobrada em camadas, as cordas enroladas e uma mola no fundo, pronta para empurrar o tecido para fora.

O desenho do estojo, com o tecido aberto acima de um boneco de braços estendidos, ocupa a folha da patente francesa 438.612, registrada em março de 1912.

O autor não era engenheiro nem aviador. Gleb Kotelnikov ganhava a vida no palco, como ator de uma companhia de teatro popular de São Petersburgo, a capital do Império Russo.

Antes do teatro, tinha passado anos no exército e no serviço público, e trazia do quartel o gosto por consertar peças e montar aparelhos com as próprias mãos.

O estojo trazia uma ideia simples: o paraquedas deixava de ficar pendurado num balão e passava a viajar no corpo do aviador. Bastava puxar uma argola para a mola empurrar a seda, o ar encher a cúpula e a queda virar descida.

Até aquele estojo, quem caía de um avião caía sem nada nas costas. Os aviões de 1910 eram estruturas de madeira, arame e lona, e uma peça solta em pleno voo bastava para o aparelho se desmanchar.

Os pilotos daquele ano voavam sentados ao ar livre, sem cabine e sem cinto que prendesse o corpo ao banco. Quando a estrutura cedia, o aviador descia junto com os pedaços, e a plateia dos festivais aéreos assistia a tudo do chão.

O governo russo leu o projeto e devolveu a resposta que ninguém esperava. O comando da aviação militar achou que o aparelho tornaria os pilotos medrosos.

Para entender como um ator chegou a esse estojo, é preciso olhar primeiro para o que havia dentro dele: a seda, as cordas e a mola que faziam a cúpula abrir sozinha.

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I  A invenção de hoje

Uma cúpula de seda presa às costas

Gleb Yevgenyevich Kotelnikov nasceu em São Petersburgo em 1872. Formou-se numa escola militar, serviu como oficial, trabalhou no fisco da província e, já perto dos 40 anos, voltou à capital para viver do teatro.

O paraquedas não era invenção nova. O francês André-Jacques Garnerin saltou de um balão sobre Paris em 1797 preso a uma cúpula de pano, e as feiras da Europa do século XIX tinham acrobatas que desciam de balões do mesmo modo.

Todos esses aparelhos dividiam um defeito: viviam abertos, ou quase, pendurados por fora do cesto. Eram grandes e pesados demais para caber num avião de um lugar, onde o piloto mal tinha espaço para as pernas.

O ESTOJO RK-1

Kotelnikov batizou o projeto de RK-1, sigla russa para Russo Kotelnikov número 1. A solução estava em dobrar a seda tão apertada que ela coubesse num volume que o piloto vestisse sem atrapalhar os comandos.

A escolha do tecido veio de casa. Segundo o relato que o próprio inventor deixou, ele testou a ideia apertando um xale de seda da esposa dentro da mão: o pano sumia num punhado e, solto, voltava a ocupar o espaço inteiro.

O funcionamento descrito na patente segue quatro etapas:

1.  O aviador veste o estojo como uma mochila, com correias que passam pelos ombros, pelo peito e pela cintura.

2.  Em perigo, puxa uma argola presa ao peito, e a tampa do estojo se solta.

3.  Uma mola no fundo empurra a cúpula de seda para fora, e o vento da queda acaba de abri-la.

4.  As cordas, divididas em feixes presos a cada ombro, seguram o corpo na vertical e deixam o aviador puxar um lado para mudar a direção.

O RK-1 tirou o paraquedas do balão e o pôs no corpo: seda dobrada num estojo, mola para empurrar e argola para abrir.

O detalhe dos feixes nos ombros fazia diferença. Nos paraquedas de feira, o corpo ficava preso por um único ponto e girava como um pião; no RK-1, o peso se repartia e o aviador descia de pé.

Kotelnikov montou os primeiros modelos em miniatura no próprio apartamento e soltou bonecos com o estojo do alto de prédios e de pipas. O protótipo em tamanho real ficou pronto em 1911.

Pronto e fechado, o RK-1 pesava poucos quilos e não passava da largura das costas de um homem. A seda vinha costurada em gomos, e um furo no topo da cúpula deixava escapar parte do ar para a descida não balançar de um lado para o outro.

 
 

II  Acidente ou projeto

Um ator na plateia de um festival aéreo

O RK-1 nasceu de uma cena vista da arquibancada. Em setembro de 1910, São Petersburgo recebeu o Primeiro Festival de Aeronáutica da Rússia, no campo de aviação de Komendantsky, e Kotelnikov estava entre o público.

No último dia de provas, o capitão Lev Matsievich, um dos aviadores mais conhecidos do país, voava num biplano Farman quando o aparelho se partiu no ar. O piloto foi lançado para fora e caiu diante da plateia. Foi a primeira perda de um aviador russo num acidente de avião.

Kotelnikov contou depois que saiu do campo decidido a dar ao piloto uma chance de sair vivo de um aparelho quebrado. O defeito que ele enxergou não estava no avião, e sim no corpo do piloto, que não levava nada para frear a queda.

O ANO DE TESTES

Durante 1911, o ator trocou o palco pela oficina. Gastou as próprias economias em seda, molas e correias, e em outubro levou o projeto ao comitê de invenções do Ministério da Guerra.

A solicitação russa ficou parada no comitê. Para não perder a autoria, Kotelnikov registrou o invento na França, onde a patente 438.612 saiu em 20 de março de 1912.

Em 1912, ele fez uma prova que virou parte da história do aparelho. Prendeu o estojo ao engate de um automóvel, mandou o motorista acelerar numa estrada perto de São Petersburgo e puxou a argola: a cúpula abriu e freou o carro até o motor apagar.

Meses depois, um boneco do peso de um adulto foi lançado de um balão com o RK-1 nas costas, num campo militar perto de Gatchina. A seda abriu e o boneco desceu inteiro.

Kotelnikov repetiu os lançamentos diante de oficiais convidados e anotou cada abertura. As provas mostravam que a cúpula enchia em poucos segundos e que as correias seguravam o boneco sem rasgar.

Nada no RK-1 foi acaso: um ator viu um piloto cair, apontou o que faltava e passou um ano construindo a peça.

A resposta oficial veio do grão-duque Alexandre Mikhailovich, primo do czar e chefe da aviação militar. Ele recusou a encomenda com o argumento de que, com um paraquedas nas costas, o piloto abandonaria o avião ao primeiro defeito, em vez de tentar salvá-lo.

Na Rússia de 1911, aviões eram caros e importados da França, e a perda de um aparelho pesava no orçamento militar. O grão-duque preferia arriscar o piloto a arriscar a máquina, e Kotelnikov voltou para casa sem contrato e sem patente no próprio país.

 

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III  O problema que ela resolveu

Uma porta de saída para quem estava no ar

O problema que o RK-1 resolvia era simples de enunciar: o avião quebrado no ar levava o piloto junto. Antes do estojo, a única aposta do aviador era manter o aparelho inteiro até o chão.

A prova pública que faltava veio do estrangeiro. Em janeiro de 1913, em Rouen, no norte da França, o estudante russo Vladimir Ossovsky saltou de uma ponte sobre o rio Sena com um RK-1 nas costas, e a seda abriu antes da água.

O salto saiu nos jornais franceses e mostrou que o estojo funcionava com um homem vivo, e não só com bonecos. Ainda assim, o governo russo manteve a recusa até a guerra.

A PRIMEIRA GUERRA MUDA A RESPOSTA

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914, o comando russo reviu a recusa. O exército encomendou estojos RK-1 para as tripulações dos bombardeiros Ilya Muromets, os grandes aviões de quatro motores do engenheiro Igor Sikorsky.

Ninguém sabe com precisão quantos estojos foram entregues nem quantos aviadores saltaram com eles durante a guerra: os registros da aviação russa se perderam em boa parte na revolução de 1917 e na guerra civil que veio em seguida.

Kotelnikov seguiu aperfeiçoando o desenho. Em 1923 apresentou o RK-2, e em 1924 registrou o RK-3, com estojo macio de tecido no lugar da caixa rígida, mais perto das mochilas usadas até hoje por paraquedistas.

Outros países chegaram ao mesmo princípio por conta própria. Nos Estados Unidos, o paraquedas de mochila com abertura manual foi adotado pelo Exército no começo dos anos 1920, e os pilotos que escapavam de aviões em queda com ele formaram o Caterpillar Club, nomeado em homenagem ao bicho-da-seda.

O RK-1 respondeu a uma pergunta que ninguém tinha feito antes da aviação: como sair de um aparelho que não volta inteiro ao chão.

A objeção do grão-duque não se confirmou. Os pilotos não passaram a abandonar aviões em bom estado; o estojo virou parte do equipamento obrigatório, e as forças aéreas passaram a treinar o salto como treinavam o voo.

Kotelnikov viveu até 1944 e está sepultado no cemitério de Novodevichy, em Moscou, sob uma lápide com uma cúpula de paraquedas gravada na pedra.

O estojo rígido de 1911, com a seda dobrada, as correias de lona e a mola no fundo, ficou registrado na patente 438.612, e não em papel russo, porque a Rússia disse não primeiro.

“Que objeto você leva sempre consigo pensando no dia em que vai precisar dele?”

 
 
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BO general Mikhail Alekseyev
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