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A lata que passou 48 anos sem abridor

Peter Durand patenteou a conserva em folha de flandres em 1810, e até 1858 a instrução impressa no rótulo era cortar a tampa com talhadeira e martelo.

Bancada de oficina: o abridor de lâminas de Ezra Warner, de 1858, ao lado de uma lata de ferro estanhado com a tampa cortada a talhadeira.

Waterbury, 1858: o abridor de duas lâminas

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Um cilindro de ferro estanhado do tamanho de um pote de tinta, parede espessa, costura lateral fechada com solda de chumbo, tampa cravada e sem nenhuma saliência para segurar. Não tem alça, não tem sulco, não tem língua para puxar. Tem um rótulo de papel colado na lateral, e no rótulo vem impressa a forma prevista pelo fabricante para chegar à carne que está lá dentro: cortar em volta do topo, junto à borda de fora, com talhadeira e martelo.

A tecnologia que fecha aquele recipiente era a mais moderna do planeta. Peter Durand, comerciante em Londres, obteve em 1810 uma patente britânica para conservar alimentos de origem animal e vegetal dentro de vasilhames de vidro, cerâmica ou folha de flandres, quer dizer, chapa fina de ferro revestida de estanho, vedados de maneira que o ar de fora não alcance o conteúdo.

Dois anos depois Durand vendeu o direito a Bryan Donkin e John Hall, que montaram em Bermondsey, na margem sul do Tâmisa, a primeira fábrica de comida enlatada do mundo. De lá saíram as latas de carne cozida que abasteceram a Marinha Real britânica e viajaram no porão das expedições ao Ártico, comida que atravessava o oceano sem apodrecer numa época em que carne de bordo era salgada em barril.

A ferramenta de abrir só apareceu em 5 de janeiro de 1858, quando Ezra Warner, de Waterbury, Connecticut, registrou nos Estados Unidos a patente número 19.063 de um can opener, abridor de latas. Quarenta e oito anos separam o alimento lacrado do instrumento feito para alcançá-lo.

O atraso não veio de falta de gente com fome nem de falta de engenhosidade mecânica. Veio da espessura da chapa. Enquanto a lata era um caldeirão de ferro batido à mão por funileiro, nenhuma lâmina de punho vencia a parede, e a marreta do arsenal resolvia o serviço sem precisar de invenção nova. A peça de Warner só passa a fazer sentido depois que o vasilhame emagreceu. Comece pela lâmina que ele desenhou.

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I  A invenção de hoje

Uma baioneta e uma foice no mesmo cabo

O abridor que Ezra Warner patenteou em janeiro de 1858 cabe na palma da mão e não se parece nada com o que existe hoje na gaveta da cozinha. É uma peça de aço forjado presa a um cabo de madeira, com duas lâminas trabalhando em sequência e uma guarda de metal entre elas.

A primeira lâmina é reta, rígida e terminada em ponta, no formato que os catálogos da época chamavam de baioneta. Ela existe para furar. O usuário apoia a lata sobre a mesa, encosta a ponta na tampa perto da borda cravada e empurra com o peso do corpo até perfurar a folha de flandres.

A segunda lâmina é curva, afiada no lado de dentro da curva, feita para serrar. Depois que a ponta entrou, o operador inclina o cabo e essa foice desce para dentro do furo. Daí em diante o movimento é de alavanca repetida: levanta e crava, levanta e crava, avançando um pedaço da circunferência a cada golpe, até dar a volta completa na tampa.

Entre as duas lâminas há uma guarda soldada, uma aba que encosta na superfície da tampa e impede a ferramenta de afundar. Sem ela a lâmina mergulharia no conteúdo a cada pancada e a mão do operador acompanharia o mergulho contra a borda recém-cortada, que fica com fio de faca.

O trabalho completo obedece a quatro movimentos, na ordem em que a mão executa.

1.  Perfurar. A ponta reta entra na tampa a poucos milímetros da borda cravada, empurrada com a palma sobre o cabo.

2.  Ancorar. A guarda encosta na tampa e fixa a profundidade, para a lâmina curva trabalhar sempre no mesmo plano.

3.  Serrar. Golpes curtos de alavanca avançam o corte pela circunferência, com a lata segura pela outra mão.

4.  Levantar. O disco recortado sai pela ponta de uma faca, e a borda restante fica serrilhada e cortante.

Nenhuma dessas etapas é delicada. O abridor de Warner pede força de braço, deixa uma coroa de metal afiada na boca da lata e permite que lascas de folha de flandres caiam no alimento. Ele resolve um problema de acesso, não um problema de conforto, e essa distinção explica por que ele foi adotado primeiro por quartel e mercearia, e só muito depois por dona de casa.

 
 

II  Acidente ou projeto

A lata precisou emagrecer primeiro

O abridor não nasceu de acidente de bancada. Ezra Warner não tropeçou numa lâmina curva enquanto fazia outra coisa: ele desenhou, mediu e registrou uma ferramenta para um recipiente que já existia havia quase meio século. O que mudou entre 1810 e 1858 foi o objeto a ser aberto.

A lata de Bryan Donkin era peça de funilaria fina. Um homem cortava a chapa, dobrava o cilindro, fechava a costura com solda de chumbo, encaixava fundo e tampa e soldava tudo à mão. A produção saía na casa de poucas dezenas de unidades por dia por trabalhador, o custo por unidade era alto e o conteúdo se destinava a quem pagava caro por comida que não estraga: almirantado, expedição polar, hospital, exploração.

Aquela chapa era grossa porque a solda manual precisava de material que aguentasse o calor do ferro de soldar sem derreter junto, e porque a lata viajava anos em porão de navio levando pancada. Um vasilhame desses não se abre com lâmina de punho. Ele se abre no convés, com as ferramentas do carpinteiro de bordo.

"Cortar em volta do topo, perto da borda de fora, com talhadeira e martelo."

Rótulo de lata de vitela assada da fábrica de Bryan Donkin, levada na expedição ártica de William Edward Parry, 1824

Entre as décadas de 1840 e 1850 a folha de flandres laminada ficou mais fina e mais barata, a prensa mecânica substituiu parte do trabalho de funileiro e a costura passou a ser feita em série. A lata desceu de equipamento de expedição para mercadoria de prateleira, e a comida enlatada entrou na mercearia de esquina das cidades americanas. Uma parede que a mão consegue perfurar é o pré-requisito físico do abridor portátil.

Warner registrou a patente em plena véspera da Guerra Civil Americana, e o Exército da União comprou o abridor dele para abrir as rações enlatadas que seguiam com a tropa. A ferramenta viajava junto com o suprimento, pendurada no caixote, e não na cozinha de cada soldado.

A cronologia desmonta a ideia de inventor atrasado. Durand patenteou o lacre em 1810 e Warner patenteou o acesso em 1858 porque cada um respondeu à lata do seu tempo: uma feita para resistir ao mar, outra feita para ser vendida por quilo. A ferramenta chegou quando o material deixou de exigir marreta, nem um dia antes.

 

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III  O problema que ela resolveu

Quem abria a lata era o dono da mercearia

Durante quase cinquenta anos a comida enlatada teve um porteiro. Na mercearia americana das décadas de 1850 e 1860 era comum o comerciante abrir a lata no balcão antes de entregar a compra, porque o freguês não tinha em casa ferramenta adequada para aquela tampa. Comprar carne enlatada significava sair da loja com a lata já violada e consumir o conteúdo antes que estragasse.

No campo de batalha a solução era pior e mais criativa. Soldado da Guerra Civil abria ração com baioneta, com a ponta do canivete, com pedra, com a coronha do fuzil, e há registro de tropa disparando contra a lata quando faltava lâmina. O alimento chegava intacto e a embalagem virava o inimigo mais próximo.

"Eu, Ezra J. Warner, de Waterbury, no condado de New Haven e estado de Connecticut, inventei um aperfeiçoamento novo e útil em abridores de latas."

Ezra Warner, patente americana número 19.063, 1858

A peça de Warner resolveu o acesso e manteve o desconforto. Continuava sendo uma lâmina que exigia força e deixava metal afiado à mostra, então a evolução seguinte atacou o gesto, não o corte. Em 1870, o americano William Lyman patenteou um aparelho com lógica invertida: uma ponta central espeta o meio da tampa e vira eixo, um braço ajustável ao diâmetro da lata leva uma roda cortante na extremidade, e o operador gira a ferramenta em círculo em torno do próprio eixo. O corte deixou de ser pancada e virou rotação.

O desenho de Lyman tinha um defeito prático: a roda lisa escorregava e precisava de pressão constante da mão para morder a chapa. Em 1925, a Star Can Opener Company, de São Francisco, acrescentou uma segunda roda dentada que se apoia por baixo na borda cravada e traciona a lata enquanto a roda cortante trabalha por cima. A ferramenta passou a puxar sozinha o material contra a lâmina, e o abridor de duas manoplas que existe até hoje na gaveta de cozinha nasceu nessa combinação.

A conta final favoreceu quem chegou depois. Peter Durand vendeu a patente da conserva a Donkin e Hall em 1812 e saiu de cena. Ezra Warner viu o abridor virar item de fornecimento militar e ferramenta de balcão, sem se tornar objeto doméstico. Quem ficou com a cozinha do mundo inteiro foi o mecanismo de duas rodas aperfeiçoado sessenta e sete anos depois da patente de Warner.

O rótulo com a instrução de talhadeira e martelo ainda pode ser lido. Latas fechadas na fábrica de Bermondsey e levadas ao Ártico na década de 1820 sobreviveram em coleções britânicas, com o papel colado na lateral e a receita de abertura impressa em letra miúda, testemunho de meio século em que a humanidade soube guardar comida por anos antes de saber alcançá-la.

"Que porta você já lacrou bem antes de fabricar a chave?"

 
 

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Qual era o papel da guarda de metal entre as duas lâminas do abridor que Ezra Warner patenteou em 1858?

AServir de apoio para o polegar ao empurrar a ponta reta contra a tampa
BLevantar o disco recortado depois do último golpe de serra
CEncostar na tampa e fixar a profundidade do corte
DSegurar a lata firme contra a mesa durante a serragem

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