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A lata de leite condensado que virou chocolate ao leite em 1875

Daniel Peter passou 8 anos brigando com a água do leite em Vevey, até achar a saída na lata do vizinho Henri Nestlé.

Lata de leite condensado aberta sobre uma bancada, com barras de chocolate ao leite.

Vevey, 1875: o leite que entrou no chocolate

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Uma lata de folha de flandres, do tamanho de um punho, cheia de leite engrossado com açúcar. Aberta sobre uma bancada de Vevey, na Suíça, em 1875, ela prova que a água era a inimiga do chocolate, e que dava para tirá-la do leite antes da mistura.

Quem abriu a lata foi Daniel Peter, fabricante de chocolate na beira do lago Léman. Ele tentava, havia anos, juntar leite à massa de cacau e sempre esbarrava no mesmo defeito: a barra estragava antes de ser vendida.

O chocolate daquele tempo era escuro, amargo e quase sempre bebido em xícara. A barra sólida de comer existia fazia poucas décadas, e a receita levava só cacau, manteiga de cacau e açúcar, tudo seco e gorduroso.

O leite fresco é quase todo água. Despejado na massa quente, ele não se mistura com a gordura do cacau, forma grumos e deixa a barra úmida por dentro. Em poucos dias aparecia mofo, e o gosto azedava.

Peter tentou ferver o leite, tentou secar a mistura no forno, tentou mudar a proporção dos ingredientes. A massa empelotava ou queimava. Nenhuma versão chegava à loja em condição de ficar na prateleira.

A lata resolveu a conta. O leite condensado já saía da fábrica com boa parte da água evaporada e muito açúcar, que ajuda a conservar. Com menos água para expulsar, Peter conseguia secar a mistura sem queimar o cacau.

O leite da lata vinha de uma fábrica a poucas ruas da oficina de Peter, tocada por um farmacêutico que tinha aprendido a secar leite para alimentar bebês. A solução para o chocolate nasceu, portanto, de um produto pensado para berçário.

A barra que saiu dessa lata é a avó de quase todo chocolate ao leite vendido hoje no mundo. O caminho até ela começa longe do cacau, numa fábrica de velas que estava perdendo a freguesia para uma luz nova.

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I  A invenção de hoje

O fabricante de velas que trocou de ramo

Daniel Peter nasceu em 9 de março de 1836 em Moudon, no cantão de Vaud, na parte da Suíça que fala francês. Ainda menino, mudou-se para Vevey, cidade à beira do lago Léman, onde virou aprendiz numa fábrica de velas.

Com o irmão Julien, ele assumiu o negócio de velas da cidade. As velas eram de sebo e de cera, e a freguesia eram casas, igrejas e oficinas que ainda dependiam de chama para enxergar depois do anoitecer.

O ofício começou a encolher nos anos 1860. O querosene (combustível tirado do petróleo) chegava barato à Europa, e o lampião a querosene iluminava mais que qualquer vela. A oficina dos irmãos Peter vendia menos a cada ano.

A saída apareceu pela família. Em 1863 Daniel casou com Fanny Cailler, filha de François-Louis Cailler, que em 1819 tinha aberto uma das primeiras fábricas de chocolate da Suíça, em Corsier, cidade vizinha de Vevey.

Peter mudou de negócio. Em 1867 abriu em Vevey a Peter-Cailler et Compagnie, com o nome do sogro na fachada e a prática de quem sabia derreter gordura, encher forma e embalar em série. Vela e tablete saem do mesmo gesto: massa quente derramada no molde.

O QUE ENTRAVA NA BARRA

O chocolate de comer que Peter herdou tinha três ingredientes, e cada um cumpria um papel:

1.  Massa de cacau, a semente torrada e moída, que dá a cor escura e o sabor amargo.

2.  Manteiga de cacau, a gordura extraída da semente, que deixa a barra firme no frio e faz ela derreter na boca.

3.  Açúcar, para quebrar o amargo e ajudar a conservar a massa.

Nenhum dos três leva água. Por esse motivo a barra escura durava meses na prateleira sem estragar. Qualquer ingrediente molhado que entrasse na receita trazia de volta o risco de mofo.

Peter queria um chocolate mais suave, que agradasse criança e quem achava o cacau amargo demais. Na Suíça, o ingrediente óbvio para amaciar o sabor era o leite, que sobrava nas fazendas de gado das montanhas.

Havia também uma aposta comercial. Chocolate escuro era luxo de adulto e de confeitaria fina. Uma barra doce e clara podia chegar a um público muito maior, e a fábrica nova precisava de um produto que as outras não tivessem.

Peter chegou ao chocolate pela porta das velas: sabia lidar com gordura derretida, e foi justamente a gordura que depois brigou com o leite.

 
 

II  Acidente ou projeto

Oito anos contra a água do leite

O chocolate ao leite foi projeto, sustentado por teimosia de muitos invernos. Peter começou as tentativas pouco depois de abrir a fábrica, em 1867, e só chegou a uma receita vendável em 1875.

Leite com cacau já existia como bebida quente. O que ninguém tinha feito era uma barra sólida com leite dentro, que aguentasse viagem e prateleira. Esse era o alvo de Peter.

O obstáculo é química de cozinha. Gordura e água se repelem. A manteiga de cacau envolve os grãos secos de açúcar e cacau, mas não abraça gota de água, e o leite fresco é quase todo água.

Peter tentou secar o leite fresco dentro da própria massa, aquecendo a mistura por horas. O calor demorado queimava o açúcar e amargava o cacau, estragando justo o sabor que ele queria suavizar.

A resposta estava a poucas ruas. Henri Nestlé, farmacêutico alemão instalado em Vevey, tinha lançado em 1867 a farinha láctea (papinha de leite, farinha de trigo e açúcar para bebês que não podiam mamar) e dominava a técnica de tirar água do leite sem estragá-lo.

Os dois se conheciam como vizinhos e homens de negócio da mesma cidade pequena. Com o leite condensado da fábrica de Nestlé, Peter recebia o leite já grosso, adoçado e com boa parte da água evaporada.

A RECEITA DE 1875

O acerto final seguiu uma ordem que a fábrica de Vevey repetiria por décadas:

1.  Misturar o leite condensado com açúcar e massa de cacau, formando uma pasta grossa.

2.  Aquecer e mexer devagar até a pasta perder quase toda a água que ainda restava.

3.  Moer a massa seca e juntar manteiga de cacau, para devolver a gordura que deixa a barra lisa.

4.  Derramar a massa quente em formas e deixar esfriar até ficar firme.

A primeira versão saiu em 1875 e ainda tinha defeitos: esfarelava e ganhava manchas esbranquiçadas com o tempo. Peter continuou mexendo na receita por mais de dez anos, ajustando a secagem e a proporção de leite.

Em 1887 ele lançou a versão que ficou, com o nome Gala Peter. Gala quer dizer leite em grego, e a palavra ia estampada no papel para avisar o freguês do que havia dentro da barra.

Ninguém tropeçou no chocolate ao leite por sorte: Peter atacou o mesmo problema por 8 anos e resolveu com a técnica que um vizinho tinha criado para alimentar bebês.

 

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III  O problema que ela resolveu

Do amargo da xícara à barra no bolso

O problema que o chocolate ao leite resolveu foi o do amargo. O cacau puro agrada a poucos, e a barra escura do século 19 era um prazer de adulto. Com leite, o chocolate ficou doce, macio e bom para criança.

A barra também passou a durar. Sem água sobrando na massa, o chocolate de Peter viajava de trem e de navio sem mofar, e a Suíça passou a exportar tabletes para a Inglaterra e para o resto da Europa.

Faltava textura. A barra de Peter ainda arranhava a língua, com grãos de açúcar e cacau que se sentiam na boca. Em 1879, Rodolphe Lindt, em Berna, criou a concha (máquina que mexe o chocolate quente por horas até a massa ficar lisa), e o chocolate ao leite ganhou a cremosidade que se conhece hoje.

O CAMINHO DA MARCA

Em 1904 a empresa de Peter se uniu à de Charles-Amédée Kohler, outro chocolateiro do cantão de Vaud. Em 1911 a sociedade juntou-se à Cailler, a antiga fábrica do sogro, e em 1929 o grupo inteiro foi incorporado à Nestlé.

O vizinho que fornecia o leite acabou dando nome ao dono da receita. Henri Nestlé tinha vendido a própria empresa em 1875 e faleceu em 1890, décadas antes da fusão que juntou o nome dele ao chocolate de Peter.

Daniel Peter viveu até 1919, em Vevey, tempo de ver a barra de leite espalhada pelas confeitarias e mercearias da Europa inteira.

Os americanos adotaram a ideia suíça na virada do século. Milton Hershey, confeiteiro da Pensilvânia, começou a vender barras de chocolate ao leite em 1900 e abriu em 1905 uma fábrica dedicada a produzi-las em grande escala, a preço de centavos.

No Brasil, a Lacta abriu em 1912, em São Paulo, e a Garoto em 1929, em Vila Velha, no Espírito Santo, as duas com o chocolate ao leite no centro do catálogo.

O chocolate ao leite tirou o cacau da xícara amarga dos adultos e pôs uma barra doce, durável e barata no bolso de qualquer criança.

A lata de folha de flandres com leite engrossado continua na receita, com outra roupa: as fábricas trocaram o condensado pelo leite em pó, que leva ainda menos água, e seguem o princípio aberto em Vevey em 1875, tirar a água do leite antes que ela chegue ao cacau.

“Que ingrediente da sua cozinha só funciona depois que alguém tira a água dele?”

 
 
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