|
|
A foto instantânea nasceu numa caminhada
Em 1943, a filha de 3 anos de Edwin Land quis ver o retrato na hora, e a resposta saiu de uma volta a pé por Santa Fé.
|
Santa Fé, 1943: a caminhada que virou câmera
|
| ▼ |
| |
|
Em 1943, apertar o botão da câmera era o começo de uma espera. O filme ficava enrolado dentro do aparelho até a última pose, o rolo saía pela tampa de trás, ia para o balcão de uma farmácia ou de uma loja de fotografia e voltava dias depois num envelope de papel pardo.
A espera cobrava adiantado. Revelação e cópia se pagavam antes de qualquer certeza sobre o resultado, e o rolo inteiro entrava na conta mesmo quando metade voltava tremida, escura ou com o dedo do fotógrafo atravessado na frente da lente.
O prejuízo maior não era o dinheiro. Quando o envelope chegava, a criança já tinha trocado de dente, a viagem tinha acabado e a mesa de aniversário estava desmontada havia uma semana. Nenhum erro dava para refazer, porque a cena que estava na frente da câmera não existia mais.
Quem quisesse encurtar o prazo precisava de um quarto escuro. Revelar em casa pedia revelador, banho de parada, fixador, água corrente, termômetro e um cômodo sem nenhuma fresta de luz, um trabalho de horas para chegar a uma tira de papel molhada pendurada no varal.
O sistema também tinha plateia. O rolo passava por um laboratório central, era manuseado por um funcionário que via cada imagem antes do dono da câmera e voltava catalogado por um estranho, com retrato de família e tudo.
A câmera doméstica, essa, já era barata e popular. O que continuava caro era o intervalo entre o clique e a imagem, e ninguém no mercado vendia uma forma de encurtar o intervalo.
A indústria tratava a demora como lei da natureza. Química de filme pedia tempo, tempo pedia escuro, escuro pedia laboratório, e o cliente pagava para esperar em cada uma das três etapas.
A quebra não veio de uma fábrica de filme, de uma marca de câmeras nem de uma rede de revelação. Veio de um físico que vivia de vender filtros polarizadores e que ouviu, em plenas férias, uma pergunta que não sabia responder.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A invenção de hoje
A caminhada de uma hora em Santa Fé
|
|
Uma rua de Santa Fé, no Novo México, em dezembro de 1943, e uma família em férias com uma câmera a tiracolo. A volta a pé que começou ali durou cerca de uma hora e terminou com um sistema inteiro de fotografia montado na cabeça de um homem.
Edwin Land tinha 34 anos, largou Harvard duas vezes e nunca terminou a faculdade. Comandava a Polaroid, uma empresa que vivia de filtros polarizadores, óculos de sol e visores ópticos encomendados pelo esforço de guerra.
A filha, Jennifer, tinha 3 anos e acabara de ser fotografada. Ela quis ver o retrato na mesma hora. O pai explicou que o filme precisava ir para o laboratório, e a menina perguntou por que não dava para ver logo.
Land não tinha resposta. Saiu para andar pelas ruas da cidade e voltou pouco depois com a câmera, o filme e a química desenhados, os três ao mesmo tempo, porque nenhum dos três funcionaria sem os outros dois.
|
"Em uma hora, a câmera, o filme e a química física ficaram tão claros para mim."
Edwin H. Land sobre a caminhada de Santa Fé, citado por Victor McElheny em Insisting on the Impossible: The Life of Edwin Land, 1998
|
A ideia não era acelerar o laboratório. Era colocar o laboratório dentro do filme, em dose única, e fazer a revelação acontecer no escuro criado pelo próprio papel.
Cada unidade de filme era um sanduíche. Uma folha negativa sensível à luz, uma folha positiva de papel e, colada na borda, uma cápsula lacrada com um gel alcalino de revelação.
Ao puxar a aba para fora da câmera, o par passava entre dois rolos de metal. A pressão estourava a cápsula e espalhava o gel numa camada fina e uniforme entre as duas folhas.
O gel revelava o negativo e, ao mesmo tempo, dissolvia a prata que a luz não tinha atingido e a levava para o papel vizinho, onde ela se depositava e formava a imagem positiva.
Nada precisava de quarto escuro porque a reação corria dentro do sanduíche fechado. Passado o tempo marcado, a pessoa descolava as duas folhas e ficava com a foto pronta na mão.
A primeira demonstração pública foi em 21 de fevereiro de 1947, numa reunião da Optical Society of America, em Nova York. Land fotografou o próprio rosto e mostrou o retrato sépia pronto em menos de um minuto.
A venda ao público começou em 26 de novembro de 1948, na loja de departamentos Jordan Marsh, em Boston. A Model 95 custava 89 dólares e 75 centavos, preço de móvel de sala.
O estoque da loja tinha 57 aparelhos, e todos saíram no mesmo dia, junto com o filme que estava na prateleira.
A câmera pesava perto de dois quilos, fechava em fole sanfonado e pedia um gesto a mais que qualquer outra: puxar a aba, contar o tempo no relógio e descolar as folhas na frente do retratado.
|
|
|
|
|
II Acidente ou projeto
Cinco anos entre a pergunta e o balcão
|
|
Projeto, do primeiro dia ao último. O acaso coube inteiro na pergunta de uma criança de 3 anos, e o que veio depois foram cinco anos de laboratório, uma demonstração marcada com data e uma fábrica esperando a estreia.
|
A promessa de foto na hora já circulava havia décadas. Fotógrafos de praça trabalhavam com ferrótipo desde o século XIX e entregavam a placa em poucos minutos, ainda úmida, com o químico num balde pendurado no tripé.
O que ninguém tinha tirado da cena era o químico. A revelação continuava sendo serviço de quem sabia dosar banho, tempo e temperatura, dentro de um cômodo preparado.
A prova de projeto está no calendário. Pergunta em dezembro de 1943, demonstração pública em fevereiro de 1947, venda no balcão em novembro de 1948. Ninguém percorre esse caminho por acaso.
O ponto de partida também não era um homem qualquer. Land já tinha empresa, laboratório, contrato de guerra e uma pilha de patentes quando ouviu a pergunta da filha.
Aos 17 anos ele largou Harvard, foi morar em Nova York, estudava óptica na biblioteca pública e usava um laboratório da Universidade Columbia sem estar matriculado.
A folha de plástico polarizadora que ele criou ali virou empresa em 1937. No fim da vida, Land tinha 535 patentes americanas no nome, atrás apenas de Thomas Edison.
O filme prometido na rua de Santa Fé precisava passar em três testes ao mesmo tempo.
|
1. Revelar sem quarto escuro, dentro de um envelope que a própria luz não atravessa.
|
|
2. Espalhar o gel numa camada de espessura constante, porque sobra de reagente mancha a imagem e falta deixa o canto sem revelar.
|
|
3. Funcionar na mão do cliente, no frio da rua e no calor do carro, sem termômetro e sem cronômetro de laboratório.
|
O terceiro teste foi o que mais custou. Reação química desacelera no frio, e as instruções da caixa pediam para guardar a cópia dentro do casaco enquanto a imagem se formava no inverno.
A primeira versão também entregava pouco. O retrato saía em sépia, cor de café com leite, porque a química de tom neutro ainda não estava pronta para o cliente.
O preto e branco chegou em 1950 e veio com um bastão de verniz dentro da caixa. A cópia precisava ser passada com o bastão logo depois de descolada, ou a imagem desbotava em poucas semanas.
A cor levou vinte anos. O Polacolor saiu em 1963, com o mesmo gesto de puxar a aba e esperar, e transformou o aparelho em item de férias e de festa.
O formato definitivo veio em 1972, com a SX-70. O filme virou peça única que revelava sozinha na claridade, sem descolar nada, sem sobra de papel na mão e sem contar tempo no relógio.
Guarde o carimbo do dia assim. O acaso durou o tempo de uma pergunta de criança. O projeto levou cinco anos até o balcão, vinte até a cor e quase trinta até a foto que se revela sozinha na palma da mão.
|
|
|