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A fita sovina dos pintores de carro de 1925

Em St. Paul, Richard Drew viu pintores borrarem carros de duas cores e voltou à 3M com uma tira de papel crepe.

Rolo de fita crepe sobre a lataria de um carro de duas cores, St. Paul, 1925.

St. Paul, 1925: a fita de Richard Drew

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Uma tira de papel crepe de 5 centímetros de largura, enrolada num carretel de papelão, com cola só nas duas bordas. Foi com ela, em 1925, numa oficina de pintura de St. Paul, no Minnesota, que um pintor de carro perdeu a paciência.

A tira tinha sido feita para separar duas cores na lataria. Nos anos 1920, os carros de duas cores viraram moda nos Estados Unidos, com a parte de cima num tom e a de baixo noutro, e a linha entre os dois precisava sair reta.

O pintor colou a fita, encostou o papel na carroceria e viu o miolo da tira levantar. Sem cola no centro, o papel se soltava, e a tinta escorria por baixo dele.

Irritado, ele mandou o rapaz da fábrica levar o rolo embora e pedir mais cola aos patrões “escoceses”. Nos Estados Unidos da época, chamar alguém de Scotch (escocês, em inglês) era chamar de sovina, por causa da fama de pão-duro dos escoceses.

O rapaz era Richard Drew, técnico de laboratório da 3M, a Minnesota Mining and Manufacturing Company (Companhia de Mineração e Manufatura de Minnesota), fabricante de lixas. A empresa tinha economizado cola para baratear o rolo, e o pintor percebeu o corte na primeira tentativa.

Drew voltou ao laboratório com a reclamação e com a palavra. O apelido, nascido de uma bronca de oficina, grudou no produto com mais força do que a cola grudou na lataria.

Cinco anos depois, a mesma palavra estava impressa na caixa de outra fita, transparente, feita do material usado para embrulhar pão e bala. A fita de celofane chegou às lojas em 1930 e herdou o sobrenome dado pelo pintor.

O caminho entre a tira de papel crepe e o rolo transparente começa com um vendedor de lixa visitando oficinas de carro.

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I  A invenção de hoje

O vendedor de lixa na oficina

A resposta de ontem

Onde Santa Anna passou os últimos anos de vida?

Na Cidade do México. Em 1874, o presidente Sebastián Lerdo de Tejada concedeu anistia a Santa Anna, que voltou ao país pobre e quase cego. Viveu na capital até 1876 e foi enterrado no Panteão do Tepeyac, cemitério junto à Basílica de Guadalupe, sem honras de chefe de Estado.

Richard Gurley Drew nasceu em 1899, em St. Paul. Tocava banjo em bandas de baile para pagar as contas e cursou pouco mais de um ano de engenharia na Universidade de Minnesota antes de largar o curso.

Em 1921, respondeu a um anúncio de emprego da 3M. A empresa tinha acabado de lançar a Wetordry (lixa à prova d'água, usada molhada para não levantar pó), e o produto mais vendido dela ia justamente para as oficinas de pintura de automóveis.

O trabalho de Drew era levar amostras dessa lixa às oficinas e voltar com a opinião dos pintores. Foi numa dessas visitas, em 1923, que ele ouviu uma série de palavrões vindos do fundo do galpão.

Um pintor tinha acabado de arrancar o papel que protegia metade de um carro. A tinta da outra metade veio junto, e o serviço inteiro precisava ser refeito.

O método da época era improvisado. Os pintores colavam jornal ou papel de açougue na lataria com cola de marceneiro, ou com esparadrapo de farmácia, e na hora de tirar a proteção a cola levava a tinta fresca.

O prejuízo caía no bolso da oficina. Cada lataria estragada voltava para a lixa e para uma nova demão, e o cliente esperava mais dias pelo carro de duas cores pelo qual já tinha pagado mais caro.

O PAPEL CERTO PARA A COLA FRACA

Drew prometeu aos pintores uma fita melhor sem ter ideia de como fazê-la. Passou cerca de dois anos testando materiais no laboratório da 3M, e o produto final dependia de três escolhas:

1.  Papel crepe, enrugado como o de presente, para dobrar em curvas da carroceria sem rasgar.

2.  Cola fraca, firme o bastante para segurar o papel e solta o bastante para sair sem levar tinta.

3.  Rolo estreito, para o pintor cortar a tira no tamanho do serviço.

A fita de Drew foi desenhada para descolar: a virtude dela era largar a lataria limpa.

A cola foi a parte mais difícil. Drew testou óleos vegetais, resinas e glicerina, e chegou a uma mistura capaz de soltar sem deixar resíduo na tinta ainda nova.

Em 1925, as primeiras tiras foram para as oficinas. Era essa versão econômica, com cola só nas bordas, a reprovada pelo pintor irritado.

A 3M ouviu a bronca e passou a cobrir a tira inteira de cola. O produto corrigido vendeu com o nome dado pela oficina: Scotch Brand Masking Tape (fita de mascarar marca Scotch, a fita crepe usada para proteger o que não deve ser pintado).

 
 

II  Acidente ou projeto

Uma bronca virou marca

A fita foi projeto do começo ao fim. Drew viu um problema concreto numa oficina, prometeu a solução e passou dois anos atrás dela. O acaso entrou só no nome.

A 3M, na verdade, quase não deixou o projeto acontecer. William McKnight, então gerente-geral da empresa, chegou a mandar Drew parar com a fita e voltar à lixa, segundo a história oficial da companhia.

Drew continuou nas horas vagas e comprou material com pedidos de valor pequeno, abaixo do limite exigido para a assinatura do chefe. Quando a fita deu certo, McKnight virou o maior defensor do produto.

O episódio mudou a regra da casa. Em 1948, já presidente da 3M, McKnight oficializou a permissão para os técnicos gastarem parte do expediente em projetos próprios, a política conhecida na empresa como regra dos 15%.

A bronca do pintor ficou registrada na própria memória da empresa:

“Take this tape back to those Scotch bosses of yours and tell them to put more adhesive on it!” (fala atribuída ao pintor no livro A Century of Innovation: The 3M Story, publicado pela 3M em 2002; em português, “Leve esta fita de volta para os seus patrões escoceses e diga a eles para botar mais cola!”)

O nome Scotch nasceu de um xingamento: a marca guardou a reclamação do cliente como sobrenome.

DO PAPEL AO CELOFANE

O segundo produto também saiu de um cliente. Em 1929, a Flaxlinum, fabricante de isolamento térmico para vagões de trem refrigerados, pediu à 3M um jeito de vedar as mantas contra a umidade.

Drew pensou no celofane, a película transparente de celulose inventada em 1908 pelo químico suíço Jacques Brandenberger e vendida nos Estados Unidos pela DuPont, desde 1927 numa versão à prova d'água.

O cliente desistiu do pedido, mas Drew seguiu testando. A película dava trabalho: enrolava com o calor, rasgava na máquina de cobrir e amarelava com a cola usada na fita crepe.

Ele levou quase um ano para chegar a uma cola transparente e a uma máquina capaz de espalhá-la por igual. A fita de celofane foi lançada em 8 de setembro de 1930.

O primeiro lote foi para a Shellmar Products, empresa de embalagens que fechava pacotes de pão e de bala. O nome da fita crepe veio junto: a nova fita saiu como Scotch Cellulose Tape.

Drew registrou a patente da fita transparente, a de número 2.177.627, concedida em 1939. Ficou na 3M até se aposentar, à frente de um laboratório próprio de produtos novos.

 

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III  O problema que ela resolveu

A linha reta entre duas cores

O primeiro problema foi o do pintor. Antes da fita crepe, separar duas cores na carroceria custava horas de retrabalho, porque a proteção colada arrancava a tinta da metade já pronta.

A fita de Drew deixou a linha reta e a tinta intacta. O pintor colava a tira, pintava a outra metade e puxava o papel no fim, sem raspar nem retocar.

A demanda passou das oficinas para as fábricas. As montadoras de Detroit adotaram a fita crepe nas linhas de pintura, e o produto virou o primeiro grande sucesso da 3M fora das lixas.

A fita transparente resolveu outro problema, e numa época ruim. Lançada no começo da Grande Depressão, a crise econômica aberta pela quebra da Bolsa de Nova York em 1929, ela chegou a famílias sem dinheiro para comprar nada novo.

O REMENDO DA CRISE

As pessoas passaram a usar a fita para remendar o que já tinham:

•  Páginas rasgadas de livros e de cadernos.

•  Cédulas de dinheiro partidas ao meio.

•  Cortinas, abajures e brinquedos de papel.

•  Embalagens de comida abertas, para guardar o resto.

A fita transparente vendeu na crise porque fazia o objeto velho durar mais um ano.

O rolo ainda tinha um defeito: a ponta grudava no próprio rolo e sumia. Em 1932, John Borden, gerente de vendas da 3M, desenhou o primeiro suporte com lâmina embutida, uma peça pesada de ferro fundido.

O suporte deixou o corte limpo e a ponta sempre à mão. O desenho básico, com o rolo no eixo e a lâmina serrilhada na frente, continua nas mesas de escritório.

A fita crepe também seguiu viva fora das montadoras. Pintores de parede, eletricistas e professores de jardim de infância passaram a usar o rolo bege para marcar, prender e rotular, sem nunca terem visto um carro de duas cores.

A palavra Scotch atravessou o oceano junto com o produto. Em vários países, o nome da marca virou o nome da própria fita transparente, sinal de um produto que tomou o lugar da categoria inteira.

A tira de papel crepe de 5 centímetros, com cola só nas bordas, voltou da oficina de St. Paul como reclamação e saiu da 3M com cola inteira, nome de sovina e uma irmã transparente.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que ano Richard Drew entrou no Hall da Fama dos Inventores dos Estados Unidos?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que data a fita de celofane transparente da Scotch chegou às lojas?

AEm 1925, junto com a fita de papel crepe
BEm 8 de setembro de 1930
CEm 1929, quando a Flaxlinum fez o pedido
DEm 1939, ano da patente de Drew

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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