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A cortina de chuveiro virou capa de fralda em 1946

Em Westport, Marion Donovan cansou do lençol molhado, cortou o plástico do banheiro e trocou o alfinete por botão de pressão.

Capa de fralda costurada com plástico de cortina de chuveiro e botões de pressão, 1946.

Westport, 1946: a capa de Marion Donovan

▼
 

Um retângulo de plástico cortado da cortina do chuveiro, dobrado em forma de calça e fechado nos quadris por botões de pressão. Foi a peça que Marion Donovan costurou na própria máquina, em 1946, numa casa de Westport, no Connecticut.

A filha pequena dormia no berço de fralda de pano, presa com dois alfinetes de segurança. A fralda encharcava, o lençol encharcava junto, e a mãe trocava a roupa de cama várias vezes por noite.

Fralda de pano, naquela casa, significava balde de molho, fervura no fogão e varal cheio todos os dias da semana.

As calças de borracha vendidas na época seguravam a umidade contra a pele do bebê e deixavam assaduras. Donovan queria uma barreira capaz de reter o xixi sem abafar a criança.

A cortina resolveu a primeira parte. O plástico não deixava passar líquido, pesava pouco e secava rápido no varal.

Os botões resolveram a segunda. Os alfinetes espetavam a criança quando ela se mexia e a mão da mãe na hora da troca, e Donovan costurou nos quadris os mesmos fechos de pressão usados em roupa de adulto.

Depois de algumas cortinas sacrificadas, a capa trocou o plástico de banheiro por náilon de paraquedas, tecido que sobrava nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra. Donovan batizou o modelo de Boater (barqueiro, em inglês), nome que lembrava um barco boiando seco sobre a água.

Nenhum fabricante quis produzir a peça. Ela mesma levou a Boater à Saks Fifth Avenue, loja de departamentos de Nova York, que pôs a capa à venda em 1949.

Dois anos depois, a inventora vendeu os direitos por um milhão de dólares. A ideia seguinte dela, uma fralda inteira de papel para jogar fora, voltou recusada de todas as fábricas que visitou.

A história começa numa família de Indiana onde a menina passava as tardes no chão de uma fábrica de tornos.

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I  A invenção de hoje

A menina da fábrica de tornos

A resposta de ontem

Em que ano Richard Drew entrou no Hall da Fama dos Inventores?

Em 1978. O National Inventors Hall of Fame, mantido em parceria com o escritório de patentes americano, incluiu Richard Gurley Drew pela fita adesiva de celofane, patenteada por ele em 1939. Drew viveu até dezembro de 1980, aos 81 anos, e passou a carreira inteira no laboratório da 3M em St. Paul.

Marion O'Brien Donovan nasceu em 1917, em Fort Wayne, no estado de Indiana. Perdeu a mãe aos 7 anos e cresceu com o pai, Miles O'Brien, entre máquinas.

Miles e o irmão, John, tinham inventado um torno industrial (máquina que gira a peça de metal para cortá-la e dar forma) usado para fabricar engrenagens de automóvel e canos de canhão. A empresa da família, a South Bend Lathe Works, ficava em South Bend, no mesmo estado.

A filha passava as tardes na fábrica depois da escola. Via os operários ajustarem peças, ouvia o pai discutir problemas de projeto e aprendia, sem aula formal, que todo objeto tinha um defeito à espera de conserto.

O caminho dela, porém, saiu da oficina. Em 1939, Marion se formou em literatura inglesa no Rosemont College, na Pensilvânia, e foi trabalhar em Nova York como assistente de beleza na revista Harper's Bazaar.

Na revista, aprendeu a ler o que as leitoras pediam nas cartas e o que as lojas punham na vitrine, um treino de consumidora que ela levaria para o quarto dos filhos.

Casou com James Donovan, comerciante de couro, largou a revista e se mudou para Westport, no Connecticut, cidade de casas grandes a uma hora de trem de Manhattan. Ali vieram os filhos e, com eles, as pilhas de fralda.

PLÁSTICO, NÁILON E BOTÃO

A capa nasceu na sala de costura da casa. Donovan sabia costurar, conhecia o funcionamento de uma máquina e tinha em casa o material mais impermeável disponível: a cortina do box.

O primeiro protótipo dependia de três decisões:

1.  Plástico fino, para barrar o líquido sem pesar no corpo do bebê.

2.  Formato de calça, para fechar as pernas e segurar a fralda de pano por dentro.

3.  Botão de pressão, para abrir e fechar com uma mão só, sem ponta de metal.

A Boater embrulhava a fralda de pano numa casca seca e tirava o lençol do caminho do xixi.

O náilon de paraquedas entrou nas versões seguintes. Era mais macio que o plástico da cortina, aguentava a máquina de lavar e deixava o ar circular melhor, o que reduzia a assadura das calças de borracha.

Pronta a capa, Donovan bateu na porta dos fabricantes de roupa infantil. A resposta foi a mesma em todas as visitas: ninguém via motivo para trocar um produto que as mães já compravam.

A estreia na Saks Fifth Avenue, em 1949, desmentiu os fabricantes. A Boater saiu das prateleiras logo nos primeiros lotes, e em 1951 Donovan recebeu quatro patentes ligadas ao modelo.

No mesmo ano, vendeu os direitos à Keko Corporation, empresa de produtos infantis, por um milhão de dólares. A mãe de Westport saiu do negócio da capa com o cheque na mão.

 
 

II  Acidente ou projeto

O papel que nenhuma fábrica comprou

A capa foi projeto do começo ao fim. Donovan viu o problema no próprio berço, testou materiais por tentativa e erro e levou o produto pronto à loja. O acaso não entrou na história.

Com o dinheiro da venda e a fábrica longe das mãos dela, a inventora mirou o passo seguinte. A capa resolvia o lençol, mas a fralda de pano por dentro continuava ali, para lavar, ferver e secar.

Ela queria uma fralda inteira descartável. O desafio era o papel: os papéis comuns viravam pasta quando molhados e grudavam na pele do bebê.

Donovan passou meses testando combinações até chegar a um papel absorvente que puxava a umidade para longe da pele e não se desmanchava. Dobrado em camadas e encaixado numa capa, ele formava a primeira versão da fralda de jogar fora.

O ROTEIRO DAS RECUSAS

Ela levou o protótipo às grandes fabricantes de papel do país. Visitou a Scott Paper, a Kimberly-Clark e a Johnson & Johnson, entre outras, e ouviu de executivos homens que o produto era desnecessário e caro demais para fabricar.

O argumento deles tinha base no mercado da época. As famílias lavavam fralda em casa, o serviço de lavanderia de fraldas era um negócio estabelecido e um produto de uso único parecia luxo de rico.

Havia ainda a questão técnica. As máquinas das fábricas de papel faziam lenço, guardanapo e papel higiênico, e uma fralda pedia camadas dobradas, capa e formato de calça, uma linha de produção nova.

Donovan acertou o produto dez anos cedo, e as fábricas recusaram a fralda pelo custo.

A ideia voltou pelas mãos de outra pessoa. Em 1956, Victor Mills, engenheiro químico da Procter & Gamble, começou a desenvolver uma fralda descartável depois de trocar as fraldas de pano do neto.

Mills tinha a seu favor o que faltou a Donovan: uma fábrica, um laboratório e o dinheiro de uma das maiores empresas de produtos de higiene do país.

O primeiro teste de venda, em Peoria, no Illinois, em 1961, fracassou pelo preço: cada fralda saía a dez centavos de dólar, e as mães acharam caro. A empresa baixou o custo de produção e lançou a marca Pampers no país inteiro nos anos seguintes.

Donovan não recebeu nada pela fralda de papel. A patente dela cobria a capa à prova de vazamento, e o projeto descartável ficou nas gavetas, sem registro nem comprador.

Ela seguiu inventando. Ao longo da vida, registrou 20 patentes, quase todas para problemas domésticos que ela mesma enfrentava.

 

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III  O problema que ela resolveu

Lençol seco e mão sem furo

O primeiro problema resolvido foi o do lençol. A capa segurava o xixi dentro da calça, e a roupa de cama deixou de ir para o tanque a cada troca de fralda.

O segundo foi a pele. O plástico grosso e a borracha das calças anteriores abafavam o corpo do bebê, e o náilon da Boater deixava a pele respirar o bastante para reduzir as assaduras.

O terceiro foi o alfinete. Antes do botão de pressão, cada troca exigia segurar o bebê com uma mão e enfiar a ponta de metal no pano com a outra, a centímetros da barriga da criança.

O quarto foi o trabalho da mãe. Menos lençol sujo significava menos água fervida, menos horas no tanque e menos peças no varal, numa época em que a máquina de lavar automática ainda era rara nas casas americanas.

O alívio chegou também ao bolso. A capa durava meses, aguentava dezenas de lavagens e poupava a família de comprar lençol novo a cada estação.

AS OUTRAS INVENÇÕES DA CASA

Donovan aplicou o mesmo método a outros incômodos da rotina:

•  Big Hang-Up, um cabide que guardava 30 peças de roupa no espaço de um só.

•  Zippity-Do, uma haste para fechar sozinha o zíper nas costas do vestido.

•  DentaLoop, um laço de fio dental para usar sem enrolar o fio nos dedos.

•  Um porta-sabonete que escoava a água e deixava a barra secar.

Cada patente de Donovan partia de um gesto repetido em casa e cortava a etapa que doía.

O método se repetia em todas: observar a mão no gesto difícil, cortar a etapa que exigia duas mãos ou machucava os dedos e entregar a peça pronta, quase sempre feita com material barato.

A fralda descartável, recusada nos anos 1950, virou item de supermercado em todo o mundo na segunda metade do século. A capa impermeável, a parte que ela patenteou, continua no desenho de toda fralda vendida hoje.

Marion Donovan viveu até 1998 e entrou no National Inventors Hall of Fame, o Hall da Fama dos Inventores dos Estados Unidos, em 2015, como autora da fralda à prova de vazamento.

O retângulo de cortina de chuveiro, costurado em 1946 com botões de pressão, virou náilon de paraquedas, vitrine da Saks e um cheque de um milhão de dólares.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que curso Marion Donovan concluiu na Universidade Yale em 1958, aos 41 anos?

 
 
Quiz da edição

Em 1951, Marion Donovan vendeu os direitos da capa Boater por um milhão de dólares para qual empresa?

AScott Paper
BJohnson & Johnson
CKeko Corporation
DKimberly-Clark

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