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A borra escura que um químico de 18 anos não jogou fora

William Perkin tentava fazer quinino na Páscoa de 1856 e tirou do fundo do frasco o primeiro corante sintético da indústria.

Frasco de vidro com pó de malveína ao lado de um retalho de seda tingido de roxo.

Londres, 1856: o roxo de Perkin

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Um frasco de vidro da altura de um dedo, fechado com rolha, com um pó quase preto grudado no fundo. Uma pitada dele em álcool deixa o líquido roxo forte, da cor da flor de malva. O pó é malveína (o corante que deu nome ao tom malva), e um frasco do lote original está guardado no Museu de Ciência de Londres.

Quem fez o pó foi William Henry Perkin, estudante de química, em 1856. Ele tinha 18 anos e não procurava cor nenhuma. Procurava um remédio.

Naquela Páscoa, com a faculdade fechada para o feriado, Perkin trabalhava num quartinho da casa do pai, no leste de Londres. Tinha montado ali uma bancada com frascos, um fogareiro e poucos reagentes comprados com a própria mesada.

O plano era fabricar quinino (o remédio contra a malária tirado da casca de uma árvore dos Andes) a partir de restos de carvão. A tentativa deu errado. No fundo do frasco sobrou uma borra escura, com cara de sujeira, o tipo de resultado que um químico joga fora e anota no caderno como fracasso.

Perkin olhou de novo. Lavou a borra com álcool para limpar o vidro e viu o líquido ficar roxo. Molhou um pedaço de seda na solução, e a cor pegou no tecido, resistiu à água e não sumiu no sol da janela.

Até aquele ano, toda tinta de roupa vinha de planta, de bicho ou de pedra moída. O roxo era o tom mais caro de todos: por séculos saiu de caramujos do Mediterrâneo, abertos um a um, e vestir roxo era privilégio de imperador e de bispo.

Em menos de três anos, a borra do quartinho abriu uma fábrica, vestiu uma rainha e deixou as ruas de Londres cheias de roxo. O caminho começa no químico adolescente e no remédio que ele queria fazer.

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I  A invenção de hoje

O estudante e o frasco do quartinho

William Henry Perkin nasceu em Londres em 12 de março de 1838, filho de George Perkin, construtor de casas. O pai queria o menino arquiteto. O filho quis química depois de ver, aos 13 anos, um amigo mostrar como cristais se formavam num copo.

Aos 15 anos, Perkin entrou no Royal College of Chemistry (Colégio Real de Química), em Londres, e virou aluno de August Wilhelm von Hofmann, químico alemão que dirigia a escola. Em dois anos já era assistente do professor no laboratório.

Na casa da família, em Shadwell, perto do porto de Londres, ele montou um quartinho de experiências para seguir trabalhando à noite e nas férias, quando o laboratório da escola fechava. Foi ali, longe do professor, que tentou o quinino.

Hofmann tinha uma obsessão: a anilina (um líquido oleoso tirado do alcatrão de hulha, o resíduo preto das fábricas de gás de iluminação). O alcatrão sobrava aos barris em Londres, e Hofmann apostava que dele sairiam substâncias úteis, remédio inclusive.

O remédio mais cobiçado da época era o quinino. A Inglaterra mantinha soldados e funcionários na Índia e na África, onde a malária derrubava gente aos milhares, e a casca da cinchona, a árvore que dava o quinino, vinha de longe, cara e escassa.

COMO A BORRA VIROU TINTA

Perkin atacou o problema com as ferramentas de 1856, que conheciam a fórmula das substâncias, mas não a forma das moléculas. O trabalho no quartinho seguiu quatro passos:

1.  Ele comparou fórmulas: duas moléculas de aliltoluidina (um derivado do alcatrão) somadas a oxigênio davam, no papel, a mesma contagem de átomos do quinino, mais água.

2.  Oxidou a aliltoluidina com dicromato de potássio (um sal alaranjado que arranca hidrogênio das moléculas) e obteve um pó marrom avermelhado, sem nada de quinino.

3.  Repetiu a receita com anilina, a substância mais simples da família, e o frasco encheu de uma massa preta.

4.  Lavou a massa com álcool, e o álcool saiu roxo. Filtrado e seco, o roxo virou o pó do frasco.

A anilina que Perkin usou vinha impura, com toluidina (uma prima próxima da anilina) misturada. Sem essa sujeira, o roxo não teria aparecido. Só em 1994 os químicos Otto Meth-Cohn e Mandy Smith, analisando amostras antigas, mostraram que a malveína é uma mistura de várias moléculas parecidas.

A malveína nasceu de uma receita errada feita com anilina suja: Perkin mirou o quinino, errou a molécula e acertou a primeira tinta fabricada a partir do carvão.

 
 

II  Acidente ou projeto

O fracasso que ele levou ao tintureiro

O roxo foi acidente. O que Perkin fez com ele, a partir do dia seguinte, foi projeto, e é essa segunda metade que separa a malveína de tantas borras coloridas que outros químicos jogaram na pia.

O quinino, aliás, estava fora do alcance de qualquer um em 1856. A molécula tem uma forma complicada, que ninguém conhecia. Ela só foi montada em laboratório em 1944, pelos químicos americanos Robert Woodward e William Doering, na Universidade Harvard, 88 anos depois da Páscoa de Perkin.

Perkin percebeu que tinha nas mãos outro produto. Com o irmão Thomas e o amigo Arthur Church, repetiu a reação escondido de Hofmann, que não via futuro em tinta, e juntou pó suficiente para testar em tecido de verdade.

A CARTA DE PERTH

Em junho de 1856, ele mandou retalhos tingidos para a Pullars, uma tinturaria de Perth, na Escócia. A resposta de Robert Pullar, um dos donos, chegou em 12 de junho e virou peça de museu.

"Se a sua descoberta não encarecer demais os tecidos, é decididamente uma das mais valiosas que surgiram em muito tempo", escreveu Pullar, na carta a Perkin de 1856. A mesma carta trazia um aviso: na seda o roxo pegava bem, mas no algodão, o tecido mais vendido da Inglaterra, desbotava.

Perkin tratou o aviso como a próxima tarefa. Descobriu que o algodão aceitava o corante se antes passasse por um mordente (a substância que prende a tinta à fibra), e usou tanino, o mesmo composto que amarga o chá.

Em agosto de 1856, com 18 anos, registrou a patente do processo na Inglaterra. Em seguida largou o Royal College of Chemistry, contra o conselho de Hofmann, que achou a decisão um desperdício de talento para a pesquisa.

A patente garantia a posse da ideia, mas não a fabricação. Em 1856 ninguém produzia anilina em quantidade: ela era reagente de laboratório, vendida em frascos pequenos. Perkin precisou desenhar o processo inteiro, do benzeno do alcatrão até a anilina e da anilina até o pó roxo.

O acaso pôs o roxo no frasco; o projeto veio depois, com a carta ao tintureiro, o tanino para o algodão e a patente registrada aos 18 anos.

 

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III  O problema que ela resolveu

O roxo que deixou de ser de rei

O problema que a malveína resolveu era de preço e de firmeza. O roxo antigo, chamado púrpura de Tiro, saía de uma glândula de caramujos marinhos. Em 1909, o químico alemão Paul Friedländer abriu 12 mil caramujos para obter 1,4 grama do corante puro.

As tintas vegetais baratas, por outro lado, desbotavam em poucas lavagens. Um vestido roxo firme era caro, raro e reservado a quem tinha fortuna. A malveína prometia roxo firme feito de lixo industrial.

George Perkin, o pai que queria um arquiteto, pôs as economias da família no negócio. Em 1857, os Perkin abriram uma fábrica em Greenford Green, perto de Londres, e tiveram de inventar quase todo o equipamento, porque ninguém antes produzia corante químico em tonéis.

O rendimento era baixo. Da massa preta de cada reação, só uma pequena parte virava corante, e o resto ia para o descarte. Ainda assim, o pó tingia com tanta força que pouca quantidade bastava para um banho de tecido inteiro, e a conta da fábrica fechou.

A MODA MALVA

O nome pegou na França, onde a cor foi batizada de mauve, a palavra francesa para a flor de malva. A imperatriz Eugênia, mulher de Napoleão III, adotou o tom, e a corte de Paris foi atrás.

Em janeiro de 1858, a rainha Vitória usou veludo roxo no casamento da filha mais velha. Em 1859, a revista humorística Punch já brincava que Londres sofria de "sarampo malva", tanto roxo havia nas vitrines e nas ruas.

O efeito passou da moda. A malveína mostrou que o alcatrão valia dinheiro, e químicos da Alemanha correram atrás de novas cores: a BASF, a Hoechst e a Bayer, fundadas nos anos 1860 como fábricas de corante, viraram gigantes da química e, mais tarde, dos remédios.

Perkin vendeu a fábrica em 1874, aos 36 anos, rico o bastante para voltar à pesquisa pura. Recebeu o título de cavaleiro em 1906, no aniversário de 50 anos da descoberta, e se foi no ano seguinte, em 1907.

A malveína tirou o roxo dos caramujos e dos reis, levou a cor para a roupa comum e provou que do lixo do carvão podia nascer uma indústria inteira.

O frasco de pó quase preto continua no Museu de Ciência de Londres, rotulado com o nome de Perkin: é a sobra de uma tentativa de fazer quinino que nunca deu certo, e da qual saiu a primeira tinta fabricada a partir do carvão.

“Que fracasso seu, olhado de novo, poderia ter servido para outra tarefa?”

 
 
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O que William Perkin tentava fabricar quando criou sem querer a malveína, na Páscoa de 1856?

ACorante roxo para tecidos
BSabão industrial
CQuinino contra a malária
DExplosivo de mineração

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