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A argila de Conté decide a dureza do seu lápis

Sem o grafite inglês, um pintor francês misturou pó de grafite com argila, levou ao forno em 1795 e criou a mina graduada.

Lápis de cedro antigo ao lado de varetas de grafite e argila saídas do forno.

A mina de grafite e argila de Conté, 1795

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Um lápis de cedro de 17,5 centímetros, sextavado, com uma mina de 2 milímetros e duas letras gravadas perto da ponta: HB. As duas letras provam que a mina saiu de uma receita, e a receita pode ser mudada de propósito.

Até a década de 1790, quase todo lápis bom da Europa saía de um morro só, em Borrowdale, no norte da Inglaterra. Ali havia grafite puro e sólido, cortado em varetas com serrote e encaixado em madeira.

Os ingleses chamavam o mineral de plumbago (do latim, parecido com chumbo). Daí ficou o hábito de dizer mina de chumbo para o miolo do lápis, embora ali não houvesse chumbo nenhum.

O depósito valia tanto que o Parlamento britânico, em 1752, tornou crime grave roubar grafite da mina. A extração abria poucas semanas por ano, para o preço não cair, e homens armados vigiavam a entrada.

Em 1793, a França revolucionária entrou em guerra com a Grã-Bretanha. O grafite de Borrowdale parou de atravessar o Canal da Mancha, e com ele sumiu o lápis dos engenheiros, dos cartógrafos e dos oficiais do exército francês.

Os lápis alemães de Nuremberg, feitos de pó de grafite colado com enxofre e resina, serviam de remendo. Riscavam pálido, quebravam na ponta e deixavam os dedos melados.

O governo de Paris entregou o problema a um pintor de retratos que dirigia uma escola de balões militares. Em poucos meses, ele apresentou uma mina feita de pó, sem depender de pedra inteira nenhuma.

A mina misturava grafite moído com argila, era moldada em varetas e ia ao forno. Mais argila dava uma mina dura e clara; mais grafite, uma mina macia e escura.

A seção I conta quem era o pintor, por que um homem de balões recebeu a encomenda e quais etapas a patente de 1795 descrevia.

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I  A invenção de hoje

Um pintor no comando dos lápis

A resposta de ontem

Quanto George III pagou a Cumming pelo relógio?

O rei pagou 1.178 libras pelo relógio com barômetro, entregue em 1765, e mais 150 libras por ano para Cumming cuidar da peça, segundo a Royal Collection Trust, que guarda o aparelho. Somada ao longo das décadas, a taxa de manutenção rendeu ao relojoeiro bem mais do que o preço do próprio relógio.

O pintor se chamava Nicolas-Jacques Conté. Nasceu em 1755 perto de Sées, na Normandia, filho de agricultores, e ganhou a vida jovem pintando retratos antes de se dedicar à mecânica e à química em Paris.

Na Revolução, Conté trabalhou para o Comitê de Salvação Pública (o governo de emergência da França em guerra). Em 1794, ajudou a montar em Meudon, perto de Paris, a primeira escola de aerosteiros (os soldados que operavam balões de observação).

Os balões subiam com hidrogênio, e o gás exigia tubo, válvula e vedação bem feitos. Num teste no laboratório de Meudon, uma explosão custou a Conté o olho esquerdo, e os retratos dele pintados depois mostram a venda preta.

Lazare Carnot, o ministro que organizava o esforço de guerra, pediu a ele um lápis feito só com material francês. O pedido não era luxo: sem lápis, o exército não desenhava fortificação, mapa nem peça de artilharia.

Conté já tinha fama de resolver problema de oficina. Na escola de Meudon, desenhou aparelhos para produzir hidrogênio em quantidade e um verniz que deixava a seda dos balões impermeável ao gás.

A PATENTE DE 1795

Conté registrou o processo em 1795. A receita seguia quatro etapas, da pedra ao lápis pronto:

1.  A moagem: o grafite, mesmo o impuro, era triturado até virar pó fino.

2.  A mistura: o pó ia junto com argila lavada e água, numa pasta de proporção medida.

3.  O molde: a pasta era prensada em canaletas e cortada em varetas finas.

4.  O forno: as varetas secavam e iam ao fogo, onde a argila endurecia em volta das partículas de grafite.

A mina de Conté nascia de pó, e pó de grafite a França tinha.

O cozimento fazia a diferença. A argila, depois de queimada, vira cerâmica e prende o grafite numa malha rígida, e a mina deixa de esfarelar na mão de quem escreve.

Pronta, a vareta entrava numa tábua de cedro com um sulco, coberta por outra tábua colada por cima. O cedro corta fácil com canivete e não lasca quando se aponta.

O lápis de Conté também saía mais barato. O grafite em pó custava pouco, a argila vinha de barreiros franceses, e pedra de má qualidade, antes jogada fora, virava mina depois de moída e lavada.

Conté abriu a fábrica em Paris no mesmo ano. A firma leva o sobrenome dele e segue vendendo lápis e bastões de desenho na França, hoje sob o grupo BIC.

 
 

II  Acidente ou projeto

Uma proporção escolhida no papel

A mina de Conté foi projeto. Ele recebeu um problema com prazo e testou misturas até achar a que riscava preto, aguentava a pressão da mão e saía igual em todas as varetas.

A química daquela década ajudava. Em 1779, o sueco Carl Wilhelm Scheele mostrou que o plumbago era carbono, e não chumbo. Em 1789, o alemão Abraham Gottlob Werner batizou o mineral de grafite, do grego graphein (escrever).

Sabendo do que o mineral era feito, Conté tratou o grafite como ingrediente, igual a um pigmento de pintor. Um retratista mistura terra e óleo para chegar ao tom; ele misturou grafite e argila para chegar ao traço.

A argila tinha função dupla. Colava o pó e, por ser clara e dura, diluía o preto do grafite. Cada parte a mais de argila deixava a mina mais firme e o risco mais cinza.

O forno entrava na conta. Quanto mais quente e mais longo o cozimento, mais dura saía a vareta, e a fábrica controlava temperatura e tempo junto com a proporção da mistura, para repetir o resultado no lote seguinte.

O ATALHO DE VIENA

Conté não estava sozinho na ideia. Em Viena, o austríaco Joseph Hardtmuth, arquiteto e fabricante de louça, também cozia grafite com argila na mesma década, e a fábrica dele, fundada em 1790, deu origem à Koh-i-Noor.

Não se sabe ao certo quem chegou antes, porque os papéis austríacos da época são escassos. A patente de Conté tem data registrada, 1795, e por ela a França ficou com o crédito na maioria dos livros.

Os dois partiram do mesmo raciocínio: se o grafite inteiro faltava ou custava caro, o pó podia ser refeito em vareta, na espessura e na dureza escolhidas pela fábrica.

A dureza saiu da mina de Borrowdale e entrou na mão do fabricante.

Conté numerou as misturas. Os lápis dele saíam em graus, do mais macio ao mais duro, e o desenhista escolhia o número conforme o trabalho: macio para sombra, duro para linha fina de planta.

Os artistas notaram a diferença. Um desenhista podia comprar três lápis da mesma marca, cada um com dureza conhecida, e trocar de um para outro no mesmo desenho sem surpresa no traço.

O método sobreviveu à guerra. Depois da paz, os fabricantes ingleses também adotaram a mistura com argila, porque Borrowdale se esgotava ao longo do século 19 e o grafite puro encarecia a cada ano.

Quando o comércio entre os dois países voltou, depois de 1815, os lápis ingleses reencontraram uma França abastecida. A fábrica de Paris já vendia graus que a pedra de Borrowdale, cortada inteira, nunca tinha oferecido.

 

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III  O problema que ela resolveu

O preto escrito na madeira

O problema resolvido pela mina de Conté foi a dependência de uma jazida só. Antes de 1795, quem não comprava de Borrowdale escrevia com lápis fraco; depois, qualquer país com grafite em pó e argila fabricava lápis bom.

A França ganhou primeiro. A fábrica de Paris abasteceu o exército e as escolas de engenharia, e Conté seguiu inventando: em 1798 embarcou na expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito e montou no Cairo oficinas de ferramentas e instrumentos para os cientistas da viagem.

De volta à França, trabalhou nas gravuras da Description de l'Égypte (Descrição do Egito), a enciclopédia da expedição, e criou uma máquina de gravar para acelerar as pranchas. Conté viveu em Paris até 1805.

DO NÚMERO ÀS LETRAS

A graduação mudou de cara no século 19. Os ingleses marcaram os lápis com letras: H, de hard (duro), e B, de black (preto). O HB fica no meio da escala, e o F, de firm (firme), entre o HB e o H.

Em 1889, a Koh-i-Noor Hardtmuth, então dirigida por Franz von Hardtmuth, neto de Joseph, lançou um lápis amarelo vendido em vários graus, e a escala de letras e números se espalhou pelas papelarias.

Na década de 1840, em Concord, Massachusetts, o escritor Henry David Thoreau, que trabalhava na fábrica de lápis do pai, refez a receita com argila da Baviera e deixou os lápis da família entre os melhores do país.

Thoreau também mudou a moagem: soprava o grafite numa câmara alta, onde só o pó mais fino subia até o topo, e usava esse pó na mina.

Cada letra gravada no lápis é a proporção de argila e grafite escrita do lado de fora.

No século 20, o lápis amarelo virou material escolar em muitos países, e o HB ficou como o grau pedido nos cartões de prova lidos por máquina, porque risca escuro o bastante para o leitor ótico e não borra.

A receita de base continua a de 1795. Fabricantes atuais acrescentam cera à mina depois do forno, para o traço deslizar no papel, mas o miolo segue grafite e argila cozidos juntos.

O lápis de cedro de 17,5 centímetros com HB perto da ponta guarda pó de grafite e argila cozida na proporção do meio da escala, a mesma conta feita por Nicolas-Jacques Conté num forno de Paris em 1795, quando o grafite inglês parou de chegar.

 
 
Quiz da edição

No texto, quem pediu a Nicolas-Jacques Conté que criasse um lápis feito só com material francês, durante a guerra com a Grã-Bretanha?

ANapoleão Bonaparte
BCarl Wilhelm Scheele
CLazare Carnot
DJoseph Hardtmuth

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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