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A água parada na curva de Cummings barra o esgoto

Em 1775, um relojoeiro escocês patenteou em Londres um cano dobrado que guarda água e fecha a passagem do mau cheiro.

Vaso sanitário antigo de louça com o cano dobrado em S por baixo, cheio de água.

O cano em S do vaso de Cummings, 1775

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Um cano de chumbo dobrado em S, da grossura de um punho, com um palmo de água parada no fundo da curva. Esse pouco de água, sem mola e sem tampa, prova que um vaso sanitário pode ficar dentro de casa sem encher os quartos com o cheiro do esgoto.

Na Londres do século 18, o cheiro vinha junto com o encanamento. As casas ricas tinham latrinas ligadas a fossas no porão ou a canos que desciam direto para valas, e o ar da fossa subia pelo mesmo caminho por onde a água descia.

Os médicos da época culpavam o ar podre pelas febres. A teoria do miasma (a ideia de que as doenças nasciam de vapores fétidos) fazia do fedor um perigo, e não um simples incômodo.

Daí o costume de manter a latrina longe dos quartos, num anexo do quintal ou num canto do porão. Quem tinha dinheiro usava o penico de louça, esvaziado pelos criados toda manhã.

Nas ruas, o conteúdo dos penicos ia parar nas valas a céu aberto, e as valas desciam para o rio Tâmisa, de onde boa fatia da cidade tirava a água de beber.

Vasos com descarga já existiam havia quase dois séculos. Todos esbarravam no mesmo obstáculo: um cano aberto liga a sala ao esgoto, e uma válvula de metal ou de couro nunca veda bem por muitos anos.

Em 1775, um relojoeiro escocês com oficina em Londres resolveu o problema com uma dobra no cano. A água da descarga enchia a curva e ficava ali, parada, entre a casa e a fossa.

O ar do esgoto não atravessa água. Enquanto a curva estivesse cheia, o cheiro ficava do lado de baixo, e a cada descarga a água velha descia e a nova ocupava o lugar dela.

A seção I conta quem era o relojoeiro, o que dizia a patente registrada naquele ano e por que um fabricante de relógios entendia tanto de vedação.

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I  A invenção de hoje

A patente de um relojoeiro

A resposta de ontem

Em qual igreja de Haia Fahrenheit foi sepultado?

Na Kloosterkerk, a antiga igreja do convento dos dominicanos no centro de Haia. Fahrenheit faleceu na cidade em 16 de setembro de 1736, aos 50 anos, solteiro e sem fortuna, e foi enterrado ali poucos dias depois. Os termômetros dele, assinados no vidro, ficaram nas mãos de médicos e físicos da Holanda.

O relojoeiro se chamava Alexander Cumming, grafado Cummings em muitos livros de história do saneamento. Nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 1733, e se mudou ainda jovem para Londres, onde abriu oficina de relógios de precisão.

Em 1766, publicou The Elements of Clock and Watch-Work (Os elementos da relojoaria), um tratado sobre engrenagens e escapamentos (a peça que solta o movimento do relógio aos poucos, dente por dente).

O livro circulou entre os relojoeiros ingleses e deu a Cumming um lugar entre os mecânicos respeitados da cidade. Em 1765, o Board of Longitude (a comissão do governo britânico que premiava quem medisse a longitude no mar) o chamou para examinar o cronômetro marítimo de John Harrison.

O rei George III encomendou a ele um relógio com barômetro embutido, capaz de desenhar num cartão a pressão do ar ao longo do ano inteiro. A peça segue guardada na Royal Collection, a coleção de arte da família real britânica.

A PATENTE NÚMERO 1105

Em 1775, Cumming registrou em Londres a patente 1105, com o título “A Water Closet upon a New Construction” (um vaso sanitário de construção nova). O desenho reunia três peças, de cima para baixo:

1.  A bacia: o vaso onde o usuário se sentava, abastecido por uma cisterna acima dele.

2.  A válvula deslizante: uma chapa no fundo da bacia, puxada por uma alavanca para soltar o conteúdo.

3.  O sifão: o cano dobrado em S logo abaixo da válvula, sempre com água parada na curva.

A novidade da patente estava na terceira peça: um selo de água no lugar de uma tampa de metal.

Cumming conhecia vedação pelo ofício. Num relógio fino, poeira e umidade estragam o mecanismo, e ele montava caixas fechadas contra o ar de fora havia mais de vinte anos quando desenhou o vaso.

O sifão obedece à física dos vasos comunicantes (dois tubos ligados pelo fundo, onde a água se nivela na mesma altura). A água da descarga desce por um braço do S, sobe pelo outro e para quando os dois lados se igualam.

A água que sobra no fundo da curva tampa o cano por inteiro. O gás do esgoto, sem força para empurrar a coluna de água, fica preso do lado da fossa.

Cumming nunca largou os relógios. Foi eleito membro da Royal Society of Edinburgh (a academia de ciências da Escócia) em 1783 e viveu em Pentonville, no norte de Londres, até 1814.

 
 

II  Acidente ou projeto

Uma dobra desenhada de propósito

O sifão de Cumming nasceu de projeto. Ele não tropeçou numa curva cheia de água: desenhou a dobra para guardar água e descreveu a função dela no texto da patente.

A ideia de um vaso com descarga era antiga. Em 1596, o inglês John Harington, afilhado da rainha Elizabeth I, publicou A New Discourse of a Stale Subject, called the Metamorphosis of Ajax (Um novo discurso sobre um assunto velho, chamado a metamorfose de Ajax), com o desenho de uma privada com cisterna.

O livro misturava piada e manual de montagem. Harington listava as peças, as medidas da cisterna e o custo da obra, e prometia uma casa sem fedor a quem seguisse as instruções.

O título fazia trocadilho com “a jakes”, gíria inglesa da época para latrina. Harington instalou um exemplar em casa, em Kelston, perto de Bath, e outro para a madrinha, no palácio de Richmond.

O aparelho de Harington tinha cisterna e válvula, mas o cano seguia aberto para a fossa. O cheiro voltava pelo mesmo caminho, e a invenção ficou quase esquecida por perto de dois séculos.

O QUE O RELOJOEIRO ACRESCENTOU

Cumming acrescentou o sifão porque conhecia o defeito das válvulas. Couro seca e racha, metal empena, e uma chapa que fecha mal deixa o ar passar pela fresta.

A água não tem fresta. Ela se molda à curva do cano e veda por inteiro, sem desgaste, enquanto houver nível.

O desenho também resolvia a manutenção. Uma válvula gasta exige troca de peça; um selo de água se refaz sozinho a cada descarga, sem ferramenta e sem encanador.

A válvula de Cumming podia falhar à vontade: quem segurava o cheiro era a água da curva.

A válvula, porém, cobrou o preço. A chapa deslizante emperrava com a sujeira e, nos invernos de Londres, a água parada acima dela congelava e travava o vaso.

Três anos depois, em 1778, o marceneiro Joseph Bramah patenteou um vaso com válvula de charneira (uma tampa presa por dobradiça) no lugar da chapa deslizante. Bramah manteve o sifão, e o modelo dele foi fabricado em Londres por décadas.

O S guardava ainda um defeito próprio, entendido só no século seguinte. Numa descarga forte, a água corre toda de uma vez e pode puxar a curva vazia por sucção, deixando o cano aberto para o esgoto. Encanadores chamam a falha de quebra do selo.

O sinal da falha é um gorgolejo no ralo vizinho e o cheiro de volta no cômodo. A curva seca pelo mesmo caminho em casa fechada por meses: a água evapora devagar, o selo some e o esgoto encontra a passagem livre.

 

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III  O problema que ela resolveu

O cheiro preso do lado de baixo

O problema resolvido pelo sifão foi trazer o vaso para dentro de casa. Sem a curva de água, a privada com descarga era um cano aberto entre o quarto e a fossa.

Com o selo de água, o banheiro subiu do quintal para o andar dos quartos. Os vasos de Bramah e dos concorrentes entraram nos casarões londrinos nas últimas décadas do século 18, primeiro nas casas de nobres e comerciantes ricos.

A classe média inglesa chegou ao vaso com sifão só no século 19, quando a louça barateou e as cidades ganharam água encanada sob pressão, capaz de encher a cisterna sem balde nem criado.

DO S AO U

No século 19, o sifão mudou de desenho. A curva em U, mais rasa e fácil de limpar, tomou o lugar do S em muitos vasos, e o encanador londrino Thomas Crapper vendeu em série louças sanitárias com essa curva.

A quebra do selo ganhou remédio nos prédios: o tubo de ventilação, um cano que deixa o ar entrar na rede de esgoto e impede a descarga de sugar a água da curva.

Londres ainda tinha um problema maior embaixo da terra. No verão de 1858, o Tâmisa cheirou tão mal que o Parlamento pendurou nas janelas cortinas embebidas em cloreto de cal, e a imprensa batizou o episódio de Great Stink (o Grande Fedor).

O engenheiro Joseph Bazalgette começou em 1859 a rede de esgotos que levou o despejo da cidade para longe do centro. Os sifões das casas seguravam o cheiro dentro dos canos, e os coletores novos tiravam o esgoto de perto das casas.

Todo vaso sanitário vendido hoje guarda água na curva pelo mesmo motivo descrito em 1775.

A peça ficou tão comum que some da vista. Pias, ralos de chuveiro e tanques de lavar roupa levam embaixo uma curva parecida, com o mesmo palmo de água fazendo o mesmo serviço.

O cano de chumbo dobrado em S virou louça branca, e a água parada continua no fundo de cada vaso, do jeito descrito na patente 1105. O homem que desenhou a curva já era famoso em Londres por outro aparelho, feito para o rei.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quanto o rei George III pagou a Alexander Cumming pelo relógio com barômetro?

 
 
Quiz da edição

Qual é o número da patente que Alexander Cumming registrou em Londres, em 1775, para o vaso sanitário com sifão?

A1596
B1778
C1105
D1733

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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