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O sifão de Cumming nasceu de projeto. Ele não tropeçou numa curva cheia de água: desenhou a dobra para guardar água e descreveu a função dela no texto da patente.
A ideia de um vaso com descarga era antiga. Em 1596, o inglês John Harington, afilhado da rainha Elizabeth I, publicou A New Discourse of a Stale Subject, called the Metamorphosis of Ajax (Um novo discurso sobre um assunto velho, chamado a metamorfose de Ajax), com o desenho de uma privada com cisterna.
O livro misturava piada e manual de montagem. Harington listava as peças, as medidas da cisterna e o custo da obra, e prometia uma casa sem fedor a quem seguisse as instruções.
O título fazia trocadilho com “a jakes”, gíria inglesa da época para latrina. Harington instalou um exemplar em casa, em Kelston, perto de Bath, e outro para a madrinha, no palácio de Richmond.
O aparelho de Harington tinha cisterna e válvula, mas o cano seguia aberto para a fossa. O cheiro voltava pelo mesmo caminho, e a invenção ficou quase esquecida por perto de dois séculos.
O QUE O RELOJOEIRO ACRESCENTOU
Cumming acrescentou o sifão porque conhecia o defeito das válvulas. Couro seca e racha, metal empena, e uma chapa que fecha mal deixa o ar passar pela fresta.
A água não tem fresta. Ela se molda à curva do cano e veda por inteiro, sem desgaste, enquanto houver nível.
O desenho também resolvia a manutenção. Uma válvula gasta exige troca de peça; um selo de água se refaz sozinho a cada descarga, sem ferramenta e sem encanador.
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A válvula de Cumming podia falhar à vontade: quem segurava o cheiro era a água da curva.
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A válvula, porém, cobrou o preço. A chapa deslizante emperrava com a sujeira e, nos invernos de Londres, a água parada acima dela congelava e travava o vaso.
Três anos depois, em 1778, o marceneiro Joseph Bramah patenteou um vaso com válvula de charneira (uma tampa presa por dobradiça) no lugar da chapa deslizante. Bramah manteve o sifão, e o modelo dele foi fabricado em Londres por décadas.
O S guardava ainda um defeito próprio, entendido só no século seguinte. Numa descarga forte, a água corre toda de uma vez e pode puxar a curva vazia por sucção, deixando o cano aberto para o esgoto. Encanadores chamam a falha de quebra do selo.
O sinal da falha é um gorgolejo no ralo vizinho e o cheiro de volta no cômodo. A curva seca pelo mesmo caminho em casa fechada por meses: a água evapora devagar, o selo some e o esgoto encontra a passagem livre.
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